Em estudo pararelo (parte I), estabeleceu-se um modelo experimental reprodutível de pseudartrose. Nos mesmos animais daquele estudo, procurou-se estabelecer o comportamento das anomalias de consolidação por meio da cintilografia óssea, objeto do presente trabalho, com vista a determinar sua utilidade como método de antecipação da evolução desfavorável da consolidação de fratura.
A captação do polifostato de tecnécio pelo tecido ósseo da-se através da afinidade que os polifosfatos têm pela matriz óssea jovem não calcificada (Rosenthal & Kaye (5)). Jones & col. (3) referiram que esse composto reage através de adsorção do grupo fosfato ao cálcio da hidroxiapatita, fixando-se no osso jovem. Atualmente, o tecnécio (Tc99m), quando preparado com o pirofosfato de sódio, é o radionuclídeo preferido para os estudos de cintilografia óssea, sendo empregado em investigações clínicas e experimentais que estudam, de uma forma ou de outra, o metabolismo ósseo(1,2,4,6,7) .
As controvérsias levantadas por esses estudos parecem indicar, na realidade, que a cintilografia, como método para avaliar a evolução da consolidação óssea e suas anomalias, ainda não esta totalmente sistematizada. Por outro lado, as dificuldades em se fazer o diagnóstico correto das diferentes fases da consolidação óssea e de suas anomalias estimularam o presente estudo.
MATERIAL E MÉTODO
O estudo através da cintilografia óssea foi realizado aos três e aos seis meses de pós-operatório em 22 animais distribuídos em dois grupos, conforme o tipo de osteotomia realizada. No grupo A (subgrupo Al e subgrupo A2), em que a osteotomia era linear, havia 16 animais, e no grupo B (subgrupo B2), em que a osteotomia era de ressecção, havia seis. Os subgrupos, dentro de ca-da grupo, referem-se à evolução da osteotomia. Assim, no subgrupo Al, a osteotomia linear evoluiu para consolidação aos três meses. No subgrupo A2, a osteotomia linear evoluiu para retarde de consolidação aos três meses e consolidação aos seis. No subgrupo B2, a osteotomia de ressecção evoluiu para retarde de consolidação aos três meses e pseudartrose hipertrófica franca aos seis. Esses subgrupos foram considerados os mais representativos, com semelhanças ao que ocorre em situações clínicas. Utilizou-se aqui o metilenodifosfonato de tecnécio (MDP-Tc99m) e uma gamacâmara Ohio-Nuclear Séries 110, acoplada a uma processadora de dados VP-450. Usaram-se, em média, 8mCi de MDP-Tc99m, injetados por via intravenosa.
A pata operada era posicionada sobre a oposta (controle), sem, no entanto, sobrepor-se a ela (fig. 1). Foram obtidas, então, em cada pata, três medidas do número de impulsos radioativos: ao nível da osteotomia, no la-do operado, e em ponto simétrico, no lado controle em cada período. Das medidas obtidas, extraiu-se a média para cada pata. Na análise das contagens da radioatividade, essa média foi o valor utilizado para calcular o índice de atividade (IA), que foi definido como sendo o quociente da média do número de impulsos captados na região da osteotomia pela média do número de impulsos captados na região correspondente, no membro contralateral. Assim. temos:

em que IA = índice de atividade; E = média do número de impulsos captados à esquerda (operada); D = média do número de impulsos captados à direita (controle).

O teste de Kruskal-Wallis, para comparações múltiplas e para o confronto entre diferentes subgrupos e períodos, foi empregado na análise estatística.
RESULTADOS
Os dados do estudo cintilográfico do subgrupo A1 (consolidação já aos três meses), subgrupo A2 (retarde aos três meses, consolidação aos seis) e do subgrupo B2 (retarde aos três meses, pseudartrose aos seis), encontramse, respectivamente, nas tabelas 1, 2 e 3.
A análise estatística avaliou os dados do IA em ca-da subgrupo, nos três e seis meses. Não houve diferenças negativas entre eles, de modo que são estatisticamente significantes em todos os subgrupos (p < 0,01). A análise independente em cada subgrupo, pelo teste Kruskal-Wallis, mostrou:

Subgrupo A1 x A2 aos seis meses: H = 4,941 - X = 3,84 - p < 0,05; é estatisticamente significante; Subgrupos Al+ A2 x B2 aos três meses: H = 12,01
- p < 0,05; é estatisticamente significante;Subgrupos Al+ A2 x B2 aos seis meses: H = 11,52
- p < 0,05; e estatisticamente significante;


Subgrupo A2 x B2 aos três meses: H = 9,389 - p < 0,05; e estatisticamente significante.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
No subgrupo Al, dos animais em que a osteotomia consolidou já aos três meses, decaimento de 10% entre os dois períodos e facilmente explicável, posto que, na fratura/osteotomia consolidada, a osteogênese diminui sensivelmente e o fenômeno da remodelação, que ocorre daí em diante, tem atividade metabólica bem inferior. O IA do subgrupo A1 foi maior aos três meses e a diferença entre três e seis meses foi estatisticamente significante (p < 0,01).
No subgrupo A2, dos animais em que havia retarde de consolidação aos três meses, evoluindo para consolidação aos seis, a captação do lado operado foi cerca de 72% maior do que o lado controle no primeiro período, caindo para cerca de 47% no segundo. Aqui, também, aplica-se o mesmo raciocínio que o efetuado para o subgrupo Al, pois a atividade osteogênica do retarde de consolidação que evoluirá para consolidação é obviamente alta, sendo esperado que ela seja maior do que na osteotomia já consolidada. lsso ficou comprovado com a queda da captação aos seis meses. O IA do subgrupo A2 e maior aos três meses e a diferença entre três e seis meses foi estatisticamente significante (p < 0,01 ).
No subgrupo B2, dos animais que apresentavam re-tarde de consolidação aos três meses e que evoluíram para pseudartrose aos seis, a captação do lado operado foi, em média, 202% maior do que do lado controle aos três meses. Essa discrepância caiu para 69% aos seis meses, quando o quadro já era de pseudartrose franca. A enorme diferença observada no primeiro período certamente traduz grande atividade osteogênica, num enorme esforço do organismo tentando corrigir importante defeito ósseo. A osteogênese diminuiu acentuadamente até o segundo período. O IA do subgrupo B2 é maior aos três meses e a diferença entre três e seis meses foi estatisticamente significante (p < 0,01).
Outro fato importante demonstrado pela análise dos três subgrupos é o da estreita relação entre a magnitude do defeito ósseo criado e a resposta osteogênica reparativa. Considerando que a agressão cirúrgica às partes moles e ao periósteo foi rigorosamente a mesma nos dois grupos experimentais, o fator trauma pode ser afastado. Desse modo, é válido raciocinar que, de algum modo, o organismo reconhece a amplitudade da falha óssea inicial e prepara-se para corrigi-la proporcionalmente, o que transpareceu no elevado IA observado no subgrupo B2. Assim, agrupando os dados dos subgrupos A1 e A2 aos três meses e comparando com os dados do subgrupo B2 no mesmo período, observou-se que a diferença entre os subgrupos é estatisticamente significante (p < 0,05).
Ainda mais, ao analisarmos os dados dos subgrupos A2 e B2 aos três meses, período em que ambos apresentaram retarde de consolidação, mas cuja evolução foi diferente aos seis meses (consolidação óssea no primeiro e pseudartrose hipertrófica no segundo), per-cebe-se que o IA de B2 é bem maior do que o de A2 e a diferença entre ambos e estatisticamente significante (p < 0,05).
Concluiu-se que o índice de atividade (IA), quando analisado entre dois períodos, possibilita avaliar o metabolismo ósseo nos fenômenos da consolidação óssea.
Na pseudartrose, o decaimento do índice de atividade entre três e seis meses de observação significa a chegada a um ponto de equilíbrio.
Valores acima de 2,00 em retarde de consolidação são fortes indicativos de evolução para pseudartrose hipertrófica aos seis meses. Embora esses dados tenham sido obtidos em condições experimentais, sob controle, é possível que eles possam ser extrapolados para situações clínicas em humanos, o que e obviamente passível de comprovação.
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