Lesões esqueléticas são seguidas por uma seqüência de respostas locais e sistêmicas. Essas respostas provocam alterações na fase mineral(5) e estimulam a formação de osso em locais distantes da lesão(6).
A idéia de que a consolidação óssea é estimulada por fatores elaborados pela lesão óssea(3,7,8,10) e por enxerto osteomedular(2) não é nova; evidências recentes sugerem que esse fenômeno pode ser gerado por uma substância osteogênica circulante produzida a partir de uma lesão óssea(8) ou medular(1,4).
O objetivo do trabalho é avaliar a resposta osteogênica em falha óssea provocada por lesão esquelética(medula óssea) à distância.
MATERIAL E MÉTODOS
Utilizamos 20 coelhos fêmeas, da raça neozeolandesa, pesando entre 2,5 e 3kg, com quatro meses de idade, submetidos às mesmas condições ambientais e alimentares, divididos em dois grupos: A , composto de dez coelhos submetidos a ostectomia parcial do rádio, e B, composto de dez coelhos submetidos a ostectomia parcial do rádio e introdução percutânea de fio de Kirschner n.° 1,5mm em fêmur contralateral.
Procedimento cirúrgico
Submetemos os coelhos à anestesia com cloridrato de ketamina na dose de 0,3ml/kg/peso, via intramuscular, complementado com máscara de éter sulfúrico.

Após tricotomia e assepsia na pata dianteira direita, fizemos incisão longitudinal de 2cm (± 0,2cm) na região ântero-lateral do antebraço direito; dissecamos por planos até a exposição do rádio. Com uma serra delicada, realizamos ostectomia de 0,7cm (± 0,lcm) a 2,0cm da articulação radiocarpal. Em seguida, fizemos aproximação dos planos profundos e sutura da pele com fio mononáilon 5.0.
Nos coelhos do grupo B, além do procedimento acima citado, utilizando agulha de raquianestesia nº 16 como guia, puncionamos percutaneamente o canal medular do fêmur esquerdo através do grande trocanter e introduzimos através dele um fio de Kirschner nº 1,5mm de 6cm de comprimento, deixando o mesmo intramedular (fig. 1).

Em todos os coelhos (grupos A e B), ministramos 600.000UI de penicilina benzatina, via intramuscular. Não utilizamos nenhum tipo de imobilização nos animais.
Estudo radiológico
Fizemos um estudo seriado com quatro exames radiográficos, com intervalo semanal a partir do sétimo dia de pós-operatório.
Avaliamos os achados radiológicos obedecendo os seguintes critérios (fig. 2): 0 - ausência completa de sinais radiológicos de calo ósseo; 1 - sinais radiológicos iniciais de formação de calo ósseo; 2 - união parcial dos fragmentos ósseos; 3 - união total dos fragmentos ósseos.
Estudo histológico
No 28º dia do pós-operatório, sacrificamos todos os coelhos para análise histológica do calo ósseo.
Fixamos o material em formalina a 10% durante cinco dias; em seguida, submetemos à descalcificação com ácido nítrico a 10% por mais sete dias. Desidratamos manualmente o material e incluímos em parafina. Após solidificado, levamos ao micrótomo, obtendo-se cortes longitudinais com quatro micra de espessura. Esticamos os cortes em lâminas de vidro e as colocamos na estufa para remoção da parafina. A seguir, coramos com hematoxilina e eosina.
Classificamos os achados histológicos em quatro estágios evolutivos:
0 - Calo fibroso - caracterizado por proliferação de tecido conjuntivo denso (fibroso), cuja proliferação tem origem no tecido periosteal das extremidades ósseas e no tecido conjuntivo das partes moles adjacentes (fig. 3).

1 - Calo fibrocartilaginoso imaturo - caracterizado por um processo de ossificação endocondral, em que junto com tecido fibroso há proliferação de condroblastos predominando sobre condrócitos (fig. 4).
2 - Calo fibrocartilaginoso maduro - caracterizado por processo de ossificação endocondral, em que, junto com tecido fibroso, há proliferação de condrócitos, predominando sobre condroblastos (fig. 5).
3 - Calo fibrósseo - caracterizado por um processo de ossificação endocondral: neste estágio de ossificação, observa-se intensa atividade osteoblástica circundando traves ósseas parcialmente calcificadas. Observa-se também na periferia do calo uma proliferação conjuntiva fibrosa menos intensa. Presença de ilhotas de cartilagem em área focais (fig.6).

RESULTADOS
A observação radiológica obedecendo os parâmetros descritos mostrou diferenças evidentes principalmente a partir da segunda semana de pós-operatório.
No grupo em que houve lesão medular, seis coelhos já apresentavam sinais iniciais de formação de calo ósseo na segunda semana, enquanto que no grupo controle seis coelhos não apresentavam estes sinais (gráficos 1 e 2).
Ao final de quatro semanas, época em que os coelhos foram sacrificados, o grupo de estudo apresentavase com cinco coelhos em estáfio de união total dos fragmentos, enquanto que no grupo controle apenas quatro se encontravam nesse nível e um se encontrava em estágio inicial de formação óssea.

No estudo histológico, foram observadas diferenças marcantes entre os dois grupos. Ficou bem evidente ter havido aceleração no processo de consolidação óssea na ostectomia do rádio.
No grupo B, cinco coelhos apresentavam calo fibroósseo e outros cinco, calo predominantemente fornado de cartilagem madura, ou seja, a totalidade dos colehos estava nos dois últimos estágios de consolidação óssea.
No grupo controle, apenas quatro colheos apresentavam-se nas duas fases finais de consolidação; destes, somente um na fase final de consolidação óssea. Os outros seis coelhos deste grupo apresentavam quadro histológico muito imaturo, sendo que um deles continuava ainda na fase de tecido fibroso (gráficos 3 e 4).

Os resultados radiológicos e histológicos individuais de cada grupo estão representados nas tabelas 1 e 2.
DISCUSSÃO
O trabalho de Thomaz & col.(9) mostrou que a implantação de um fio de Kirschner intramedular no fêmur de rato está associada a uma resposta osteogênica à distância, em ossos não lesados. De acordo com sua interpretação, é possível que o osso lesado pela introdução do fio libere uma substância que altere o metabolismo de todos os ossos.
Em nosso experimento, utilizamos a metodologia de Thomaz da lesão óssea pela introdução de um fio intramedular; dirigimos, porém, nossa observação na consolidação de uma falha óssea à distância em coelhos.

Baseando-nos na análise radiográfica, verificamos aumento na velocidade de consolidação óssea na ostectomia do rádio a partir da segunda semana do pós-operató-rio, culminando na quarta semana, quando fizemos a observação histológica.
Nesta, ficou bem evidente o estágio avançado da maturação do calo ósseo à distância ostectomizado, quando comparado ao do grupo sem estimulação.
Evidenciou-se, assim, que as alterações na estimulação do tecido ósseo pela presença na medula óssea de um fio de Kirschner provocou uma aceleração da resposta osteogênica da lesão óssea à distância.
2. Burwell, G.R.: Studies in the transplantation of bone.J Bone Joint Surg [Br] 46:110-140, 1964.
3 . Dekel, S., Lenthall, G. & Francis, M.J.O.: Release of prostaglandins from bone and muscle after tibial fracture. An experimental study in rabbits. J Bone Joint Surg [Br] 63: 185-189, 1981.
4 . Foldes, J., Naparstek, E., Slatter, M., Menzel, J. & Bab, I.: Osteogenic response to marrow aspiration; increased serun osteocalcin and alkaline phosphatase in human bone marrow donors. J Bone Min Res: 643-646, 1989.
5 . Lane, J.M., Betts, F., Posner, A.S. & Yue, D.W.: Mineral parameters in early fracture repair. J Bone Joint Surg [Am] 66: 12891293, 1984.
6 . Lowe, J., Bab, I., Stein, H. & Sela J.: Primary calcification in remodeling Haversian systems following tibial fracture in rats. Clin Orthop 176:291-297, 1983.
7 . Meller, Y., Shainkin-Kestenbaum, R., Shany, S., Zuilli, I., Yankowitz, N., Giat, J., Konforti, A. & Torok, G.: Parathyroid hormone, calcitonin, and vitamin D metabolizes during normal fracture healing in humans. A preliminary report. Clin Orthop 183:238-245, 1984.
8 . Simmonds, D. J.: Fracture healing perspectives. Clin Orthop 200: 100-113, 1985.
9 . Thomaz, A.E., Gary, S. & Devlin Vincent, J.: The osteogenic response to distant skeletal injury. J Bone Joint Surg [Am] 72: 1374-1378, 1990.
10. Urist, M.R., Silverman, B.F., Buring, K., Dubuc, F.L. & Rosenberg, J.M.: The bone induction principle. Clin Orthop 53:243-283, 1967.