INTRODUÇÃO

Os episódios de tetraparesia transitória têm sido descritos em esportes de contato e, em particular, no futebol americano (7,18). A relação deste tipo de sintoma com estenose do canal cervical é enfatizada por vários autores(5,7,18).

Estes casos caracterizam-se pela apresentação aguda de tetraparesia ou mesmo tetraplegia após algum impacto contra a cabeça durante a prática esportiva. O déficit motor é de curta duração, em geral alguns segundos, com regressão espontânea, podendo, no entanto, persistir por várias horas em alguns casos.

Nosso objetivo neste trabalho é apresentar quatro casos de tetraparesia transitória ocorridos durante a prática esportiva, alertando para este tipo de sintoma e sua relação com a estenose do canal cervical.

CASUÍSTICA

Caso 1 - Paciente do sexo masculino, 20 anos de idade, durante prática de rúgbi, refere ter recebido impacto contra a cabeça, tendo desenvolvido episódio de tetraparesia que durou cerca de três minutos, com regressão total após esse período. As radiografias da coluna cervical não evidenciaram qualquer instabilidade, sendo observada estenose congênita do canal.

Caso 2 - Paciente do sexo masculino, 25 anos de idade, refere episódio de tetraparesia, que durou de cinco a dez segundos, ao cabecear bola, durante partida de futebol de campo. As radiografias revelaram fusão congênita entre C5 e C6, com estenose do canal cervical.

Caso 3 - Paciente do sexo feminino, 21 anos de idade, refere episódio de tetraparesia durante partida de voleibol após sofrer impacto contra a cabeça ao chocar-se com outras jogadoras de sua equipe. O episódio regrediu em cerca de dois minutos, porém persistiu com dor e parestesia no membro superior esquerdo por três semanas. Nas radiografias, observou-se estenose do canal cervical.

Caso 4 - Paciente do sexo masculino, 29 anos de idade; durante partida de rúgbi, refere episódio de tetraparesia, após sofrer impacto contra a cabeça, que durou cerca de 30 segundos. As radiografias não revelaram sinais de instabilidade, lesões traumáticas ou estenose de canal.

DISCUSSÃO

As descrições deste tipo de síndrome eram esporádicas na literatura até o trabalho de Torg & col.(18), em 1986, no qual os autores apresentaram 32 casos e demonstraram claramente sua relação com estenose do canal cervical.

A relação com estenose foi demonstrada tanto quando feitas as medidas de forma absoluta(2,13,15,16,19) , como quando avaliado o chamado índice de Torg (figura 1), que quando menor do que 0,8 indica estenose.

Embora seja mais freqüente no futebol americano, particularmente entre os amadores, também é observada entre os profissionais e em outros esportes, como o hóquei, o basquetebol e o boxe.

Nossos casos foram observados apenas em atletas amadores, com relato de choque contra a cabeça de pequena intensidade, sendo todos orientados a evitar a prática de esportes de contato, para evitar eventual desenvolvimento de mielopatia.

Entre os praticantes do futebol americano, a incidência desta síndrome é de 1,3 para 10.000 praticantes, por ano de atividade (18), o que poderia ser extrapolada para alguns esportes em nosso meio.

Embora as relações entre a ocorrência de lesões neurológicas irreversíveis e os episódios de tetraparesia transitória não possam ser claramente estabelecidas, temos procurado recomendar aos pacientes com estes sintomas que se afastem da prática do esporte de contato, especialmente se apresentarem estenose de canal cervical, seja congênita ou adquirida(5,13,15,16,18) . Consideramos que o índice de Torg(18) é extremamente importante, pois elimina as distorções na medida do diâmetro que podem ser provocadas por alteração nessa distância entre a ampola e o filme, evitando a necessidade do uso dessas tabelas complexas de avaliaçao e simplificando a análise das radiografias. A medida do índice de Torg tem metodologia simples e reprodutível por diferentes examinadores, consistindo na relação entre o diâmetro do canal cervical, em determinado nível, sobre a medida do diâmetro ântero-pos-terior da vértebra no mesmo nível, ambos tomados na metade da altura da citada vértebra. Essa avaliação pode ser empregada não só no trauma raquimedular(5,6), como na análise das estenoses congênitas e degenerativas(3,4,8-12,14,17,19) ,ou como parte do exame dos candidatos à prática de esportes de contato que ofereçam risco de acidentes envolvendo a coluna cervical (7,18), como o futebol americano e o rúgbi.

Dados avaliados por nós em outra publicação(1) mostram que em nossa populaçvão existe um grupo de pessoas assintomáticas que apresentam as medidas do canal abaixo do limite crítico e, como demonstrado por Torg & col., correm maior risco de desenvolver déficit neurológico após traumatismos, mesmo que mínimo, da coluna cervical. Esses indivíduos, eventualmente, deveriam ser orientados no sentido de evitar a prática de atividades que levam à sobrecarga do segmento em questão.

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