A desnervação periférica provoca alterações no crescimento longitudinal em ossos imaturos.
Embora alguns autores não tenham encontrado alterações significativas (2,11,13,16), a análise clínica de crianças com lesão ciática indicou que esta produz diminuição do crescimento do pé (3,4,7,10).
Outros autores (9) sugeriram que a desnervação periférica provoca diminuição no crescimento ósseo longitudinal apenas quando os ossos são inervados exclusivamente pelo nervo estudado.
Neste trabalho, estudou-se o crescimento ósseo longitudinal dos metatarsais, após a desnervação periférica em ratos, com o objetivo de definir os efeitos da desnervação sobre os ossos em crescimento, assim com sua evolução em função do tempo.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram utilizados 55 ratos albinos, machos, da raça Wistar, com 30 dias de vida e peso médio de 100 gramas.

Inicialmente, procurou-se determinar a evolução natural do crescimento longitudinal do 1º, e 2º e 5º metatarsais, comparando-se o lado direito com o esquerdo. Para isso foram sacrificados 30 animais, em grupos de cinco, nas idades de 30, 33, 37, 44, 58 e 86 dias de vida. Após o sacrifício, os metatarsais supracitados, de ambas as patas, foram dissecados com auxílio de microscópio cirúrgico (DF Vasconcelos), sob aumento entre dez e 25 vezes e seu comprimento longitudinal foi medido por dois observadores diferentes. A medição foi feita sob microscopia óptica, com aumento de 25 vezes, com paquímetro de 0,05mm de precisão (Mitutoyo). Os resultados foram tabulados e analisados estatisticamente com o teste t pareado.
Vinte e cinco animais foram anestesiados com éter e submetidos a ressecção cirúrgica de 1,0cm do nervo ciático esquerdo, ao nível do 1/3 proximal do fêmur. A ferida foi suturada com fio absorvível e os animais mantidos em gaiolas individuais, com alimentação normal e sem imobilização. O sacrifício destes animais foi feito em grupos de cinco, após três, sete, 14, 28 e 56 dias de lesão, correspondendo às mesmas idades dos animais nos quais foi estudada a evolução natural do crescimento longitudinal dos metatarsais (quadro 1).

Após o sacrifício, o comprimento longitudinal do 1º, 2º e 5º metatarsais, de ambas as patas, foi medido e analisado estatisticamente pelas técnicas descritas anteriormente.
RESULTADOS
Os animais operados apresentaram queda plantar traseira esquerda durante todo o período de seguimento, correspondendo à desnervação motora periférica. Não houve infecção nem óbito prematuro.
Na evolução natural do crescimento ósseo longitudinal, a comparação entre o lado direito e o esquerdo não mostrou diferença significativa de comprimento no 1º, 2º e 5º metatarsais (p menor que 0,05), nos animais normais, indicando ter sido alcançado um grau confiável de precisão na mensuração, com o método utilizado. O comprimento médio dos metatarsais analisados, de am-bas as patas, nos animais normais (grupo controle), com o aumento ocorrido em função da idade, se encontra sumarizado no quadro 2.


Nos animais submetidos a desnervação ciática esquerda, com três dias pós-lesão já se observou diferença significativa no comprimento entre os metatarsais direitos e esquerdos (p menor que 0,05). Essa diferença aumentou após sete dias de lesão, estabilizando-se a partir da 2ª semana e mantendo-se estável durante o restante do período de observação. A evolução da alteração do crescimento do 1º, 2º e 5º metatarsais é demonstrada nos quadros 3, 4 e 5, respectivamente. As diferenças foram consideradas significativas para valores de p inferiores a 0,05.
DISCUSSÃO
A função de um nervo periférico seccionado, em pequenos animais, não retorna, durante o período de imaturidade esquelética, mesmo quando existe continuidade aparente entre os cotos, devido ao seu curto período de crescimento (9'14). No presente estudo, a ressecção proximal de 1,0cm do nervo ciático mostrou-se eficaz na produção de desnervação permanente durante o crescimento dos animais.
O período de seguimento neste experimento variou entre três e 56 dias após a desnervação, realizada quando os animais se apresentavam com 30 dias de vida, correspondendo a totalidade do período de crescimento dos animais estudados (15).
Utilizamos os metatarsais para mensuração por serem estes ossos de inervação exclusiva do ciático, não sofrendo, como os demais ossos longos dos membros inferiores, a influência do nervo femoral ou obturador, por exemplo.
A utilização do grupo controle foi fundamental, porque a análise estatística dos resultados foi baseada na comparação entre o lado desnervado e o lado contralateral normal, dos mesmos animais. A análise dos animais normais não mostrou diferença entre as patas direita e esquerda, com relação aos seus valores médios (p menor que 0,05). Esses achados suportam a significância dos resultados, isto é, que a diferença observada foi devida exclusivamente ao tratamento utilizado.
A imobilização provocada pela desnervação motora poderia ser implicada como causa da diminuição do crescimento longitudinal dos metatarsais estudados. Entretanto, foi encontrado aumento no comprimento longitudinal da tíbia de ratos imobilizados com gesso por quatro semanas, quando comparados com o lado normal(8). Se o efeito da lesão nervosa sobre o crescimento ósseo longitudinal fosse devido à perda da função motora, seria esperado um aumento progressivo na discrepância após a desnervação. Não encontramos, na literatura, estudos relativos a alterações no comprimento dos metatarsais após a imobilização.
A evolução das alterações encontradas mostrou que a alteração no crescimento ósseo longitudinal, após a desnervação periférica, ocorre exclusivamente na 1ª semana pós-lesão, sem que haja compensação ou aumento da discrepância no restante do período de crescimento do animal. Existem relatos indicando que a desnervação periférica produziria aumento do crescimento ósseo longitudinal, em uma fase imediatamente após a le-(1,12,14). Outros autores encontraram diminuição do comprimento após a desnervação, em diferentes mode-los experimentais (5,6,9). Os resultados obtidos neste estudo indicam que ocorre diminuição precoce no crescimento longitudinal dos metatarsais, após a desnervação ciática. A forma pela qual a desnervação periférica influencia o crescimento ósseo longitudinal ainda não foi definida.
CONCLUSÕES
1) A desnervação ciática resultou em diminuição no crescimento longitudinal dos metatarsais.
2) As alterações no crescimento decorrentes da desnervação periférica ocorreram exclusivamente no decorrer da 1ª semana pós-lesão.
3) Não ocorreu compensação da discrepância verificada após a desnervação, no restante do crescimento dos animais estudados.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Prof. Adriano Caldeira de Araújo, Prof. Adjunto do Dep. de Biofísica e Biometria do Inst. de Biol. da UERJ, pela análise estatística dos resultados.
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