As radiografias dos pés na incidência dorsoplantar mostram em suas imagens as cabeças metatarsianas localizadas desigualmente e obedecendo a uma ordem de sucessão denominada fórmula metatarsiana(1). São conhecidos três tipos clássicos: 1) index plus: quando o contorno da cabeça metatársica I encontra-se adiante da II e os subseqüentes decrescem gradativamente (I > II > III > IV > V); 2) index plus-minus: quando o contorno das cabeças metatársicas I e II encontra-se praticamente sem diferenças em relação aos seus prolongamentos e, do mesmo modo que no index plus, os subseqüentes decrescem (I = II > III > IV > V); 3) index minus: quando o contorno da cabeça metatársica I encontra-se encurtada em relação à II e os subseqüentes igualmente decrescem (I < II > III > IV > V).
Devido à íntima relação com algumas patologias podálicas freqüentes, como hálux valgo, hálux rígido e metatarsalgias (8,9) a fórmula metatarsiana tem sido estudada por diversos autores(1,2,4,5,7-9) . Entretanto, a quase totalidade desses trabalhos é feita em adultos, o que de certa forma é compreensível, visto que as epífises metatarsianas se fundem entre 16-18 anos de idade(3,10) e após essa faixa etária é que o pé estaria definitivamente formado.
Porém, e possível que o crescimento podálico se faça de maneira harmônica, guardando as proporções entre seus elementos. Se tal hipótese for verdadeira, a freqüência de distribuição dos diversos tipos de fórmula metatarsiana infantil deverá ser semelhante à do adulto. Como temos em nossos arquivos número apreciável de radiografias de pés normais de crianças, decidimos deter-miná-la, veriticando a distribuição dos tipos e a influência do sexo e do evoluir da faixa etária entre oito e 13 anos.
MATERIAL E MÉTODO
Examinamos as radiografias na incidência de frente obtidas simultaneamente de ambos os pés posicionados paralelamente entre si de 115 meninos e 115 meninas, com idade entre oito e 13 anos, distribuídos em cinco grupos etários (8-9, 9-10, 10-11, 11-12 e 12-13 anos). Na fig. 1, são apresentados os dados conforme distribuição de freqüência por sexo e idade.
Determinamos a fórmula metatarsiana bilateralmente utilizando o método da diferença relativa de comprimento entre os I e II metatarsianos: obtendo-se o eixo médio-longitu-dinal do 2° metatarsiano, traça-se perpendicularmente a esse uma linha tangente aos contornos das cabeças dos 1° e 2° metatarsianos (fig. 2). Quando a diferença entre as linhas ultrapassa 1mm, sendo o 1° metatarsiano menor do que o 2°, consideramos index minus; quando ultrapassa 1 mm, sendo o 1° metatarsiano maior do que o 2°, consideramos index plus; e quando a diferença for inferior a 1 mm, consideramos index plus-minus.


Para a análise estatística, utilizamos o teste de Wilcoxon, com o objetivo de comparar, para cada criança, os valores observados nos pés direito e esquerdo. A seguir, o teste de Mann-Whitney foi aplicado quando se compararam meninos e meninas em relação aos valores encontrados. Finalmente, o teste do X2 (qui-quadrado), para analisar as diferenças entre as freqüências dos três tipos de fórmula metatarsiana encontradas em cada faixa etária.
Em todos os testes, fixou-se em 5% (a £ 0,05) o nível para rejeição da hipótese de nulidade, assinalando-se com um asterisco os valores significantes.
RESULTADOS
Na tabela 1, encontra-se a distribuição de freqüência dos tipos de fórmula metatarsiana, separados por faixas etárias e pelos sexos masculino e feminino.
A análise estatística aplicada aos valores encontrados para verificar a influência dos lados direito e esquerdo e sexos masculino e feminino (testes de Wilcoxon e teste de Mann-Whitney) não mostrou diferenças significantes.
Na tabela 2, encontram-se os resultados do teste do X2 (qui-quadrado) realizado entre as freqüências percentuais dos três tipos de fórmulas metatarsianas para cada grupo etário.


DISCUSSÃO
A comparação dos resultados obtidos pelos diversos autores que estudaram fórmula metatarsiana(l,2,4,5,7-9) evidencia grandes divergências. Elas poderiam indicar difererças entre as populações estudadas ou serem devidas a fatores técnicos ou metodológicos. De fato, as diferenças entre nossos achados e os de Napoli & col.(7) podem ser possivelmente imputadas à metodologia do autor citado, que é diferente da utilizada por nós, sendo semelhante à da maioria dos autores(4,5,8,9) . Uma causa muito provável da divergência entre nossos resultados e os dos outros autores seria a idade, uma vez que estudamos crianças e eles, adultos. A favor desse argumento estão nossas observações no presente trabalho de que as freqüências de index minus e plus-minus apresentam diferenças estatisticamente significantes entre os grupos etários. Esse comportamento dos resultados, ao mesmo tempo que indica uma nítida influência da idade na fórmula metatarsiana em nossa amostra, sugere também alternância do ritmo de crescimento entre o 1° e 2° metatarsianos. Assim, entre as faixas 9-10 e 10-11, a diminuição significante do index minus e o aumento de index plus-minus indicam que nesse período o 1° metatarsiano cresceu menos do que o segundo. Já entre as faixas 10-11 e 11-12 anos, as diferenças se reduzem, tornando as freqüências do index minus e plus-minus semelhantes do ponto de vista estatístico, o que sugere que o ritmo de crescimento do 1° metatarsiano foi maior do que o do primeiro, voltando a se modificar na faixa etária seguinte. Dessa forma, podemos admitir que entre os oito e 13 anos de idade o comprimento dos metatarsianos I e II está se modificando, de maneira a indicar uma velocidade de crescimento desigual entre eles, com predomínio alternado, ora de um ora de outro osso, sendo necessários estudos ampliando a faixa etária para que se possa determinar quando esse processo termina e a formula metatarsiana se define.
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