A avaliação dos resultados cirúrgicos do pé torto eqüinovaro congênito é difícil, tanto no aspecto funcional como no cosmético. Essa dificuldade deriva do fato de a própria deformidade variar num grande espectro de gravidade(1,2,11) . Em nosso meio, o fator socioeconômico também colabora de forma acentuada na avaliação pré-operatória, uma vez que raramente temos a oportunidade de avaliar o paciente no berçário e as crianças são encaminhadas nas mais variadas faixas etárias.
As classificações pós-operatórias existentes na literature têm pouca aceitação, por serem muito complicadas ou incompletas, levando-se mesmo a questionar se um método de avaliação universal é factível(4).
Neste trabalho, os autores apresentam o uso do método de avaliação pós-operatória do pé torto congênito descrito por Lehman(9,10) . Este método é bastante simples e permite uma avaliação completa, dos pontos de vista clínico, radiológico e funcional.
MATERIAL E MÉTODOS
Desde 1985, 127 pacientes portadores de pé torto eqüinovaro congênito foram submetidos a correção cirúrgica pela incisão de Cincinnati no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Escola Paulista de Medicinal. Para este estudo, incluímos 45 pacientes envolvendo 70 pés, com tempo de seguimento mínimo de dois anos. Trinta e dois pacientes eram do sexo masculino e 13, do feminino. O pé direito estava acometido em sete pacientes, o esquerdo, em 13 e, em 25 pacientes, a deformidade era bilateral.
Todos os pacientes foram submetidos à mesma técnica cirúrgica pela incisão de Cincinnati. Os tendões de Aquiles, tibial posterior, flexor longo do hálux e flexor longo dos dedos foram alongados em "Z". A articulação subtalar foi totalmente liberada medial, posterior e lateralmente. A articulação tibiotalar foi liberada posterior e lateralmente, sendo que na face medial a porção profunda do ligamento deltóide foi mantida intacta. O músculo abdutor do hálux foi sempre ressecado. O ligamento interósseo só foi seccionado nos casos em que o varismo do calcâneo era irredutível. Os ligamentos fibulocalcâneo e bifurcado eram seccionados.
Na face medial, fizemos as capsulotomias das articulações entre o I metatarsiano e a cunha medial, a cunha medial e o navicular e talonavicular. Na face lateral, liberamos a articulação calcâneo-cubóidea. A redução da articulação talonavicular era mantida com um fio de Kirschner. A articulação subtalar era reduzida e fixada com dois fios de Kirschner paralelos, sem atingir a articulação tibiotársica. A incisão era fechada em discreta flexão plantar e uma tala gessada mantida por três semanas. Após esse período, os fios e os pontos eram retirados e confeccionado gesso inguinopodálico com flexão do joelho em 90 graus e mantido por seis semanas. Após a retirada do gesso, uma órtese de polipropileno era confeccionada e a fisioterapia iniciada.

O método de avaliação pós-operatória de Lehman pode ser aplicado em qualquer criança que já esteja deambulando. Por esse motivo, escolhemos apenas crianças que tinham tempo de seguimento maior de dois anos e que estivessem na idade de marcha. O método consiste de dez parâmetros aos quais são atribuídas notas. De acordo com a soma das notas, os resultados são classificados em excelente, bom, regular ou ruim (tabela 1).
RESULTADOS
De acordo com a classificação de Lehman, obtivemos 26 pés (37,1%) excelentes, 21 pés (30%) bons, 11 pés (15,7%) regulares e 12 pés (17,1%) ruins.
DISCUSSÃO
A necessidade de avaliarmos os resultados pós-ope-ratórios de nossos pacientes nos levou a uma pesquisa sobre os métodos empregados em outros centros de estudo. Entretanto, esta pesquisa revelou que os métodos já existentes eram subjetivos, complicados ou omissos em detalhes que julgamos importantes para a análise dos resultados(5-8,12) .
Em 1990, no International Congress on Clubfoot, realizado em Milwaukee, tivemos a oportunidade de conhecer o método descrito por Lehman. Considerando que abrange parâmetros clínicos, radiológicos e funcionais, sem dúvida podemos ter uma avaliação bastante acurada dos nossos resultados cirúrgicos.
Em nosso serviço, indicamos o tratamento cirúrgico aos seis meses de idade para todas as crianças que ain-da apresentam deformidade nessa idade. Entretanto, e grande o número de pacientes que chegam ao nosso ambulatório em idade bastante avançada ou até deambulando com os pés deformados, sem qualquer tipo de tratamento. De acordo com nossos resultados, a idade pareceu estar relacionada com o resultado final. Os melhores resultados foram obtidos nos pacientes com menor ida-de na época da cirurgia. Ainda precisamos de mais estudos para confirmar se esse dado e estatisticamente significante.
Por outro lado, seria obviamente errado supor que a idade seja a única variável a influenciar o resultado. Tivemos crianças com seis meses de idade na época da cirurgia cujos resultados foram classificados como ruins e também crianças com quase dois anos de idade cujos resultados finais foram excelentes. Como sabemos, vários são os fatores envolvidos na deformidade do pé torto congênito. Ao avaliarmos o resultado final sem considerar o grau de deformidade inicial, podemos estar descartando um fator importante.
Para nós, o método de Lehman é uma contribuição para avaliação funcional do pé torto operado que mere-ce divulgação, pois pode servir como uma forma confiável de comparação de resultados cirúrgicos. Talvez não devêssemos usar a classificação excelente, uma vez que um pé excelente e o normal e, sabidamente, um pé tor-to, por melhor que seja seu resultado, jamais sera um pé normal. Dessa forma, sugerimos que os resultados excelentes e bons sejam classificados como satisfatórios e os resultados ruins e regulares, como insatisfatórios.
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