Trabalho realizado no Departamento Médico do Esporte Clube Pelotas.
1. Mestre e Doutorando pela Universidade de São Paulo (USP); Professor Adjunto do Departamento de Medicina Especializada, Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Universidade Católica de Pelotas (UCPel).
2. Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; Membro da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte.
3. Acadêmico de Medicina da UFPel.
4. Graduado em Educação Física pela UFPel.
5. Mestre e Doutorando em Epidemiologia no Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel.
Endereço para correspondência (Correspondence to): Pedro Curi Hallal, Rua General Osório, 1.217/304 - 96020-000 - Pelotas, RS, Brasil. Tel.: +55 53 3025-3516/
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INTRODUÇÃO

O futebol é o esporte mais difundido na maioria dos países, especialmente nos latino-americanos e europeus(1). A evolução médico-tecnológica ocorrida nas últimas décadas teve impacto no esporte, com um importante avanço na preparação física dos atletas e conseqüente exigência de máximo desempenho(2).

Esse quadro transformou o estilo do futebol, com a substituição da ênfase na técnica (futebol-arte) pelos componentes físicos (futebol-força) e táticos. O futebol atual exige capacidade anaeróbica (especialmente velocidade e explosão muscular) para as ações de jogo e resistência aeróbica para os curtos períodos de recuperação entre as ações de jogo.

Como conseqüência desse novo estilo, os choques são cada vez mais freqüentes, aumentando o risco de contusões e lesões articulares. No mesmo sentido, a exigência cada vez maior da capacidade física aumenta o risco de lesões musculares, seja pelo excesso de treinos e jogos, ou movimentos bruscos em curto intervalo de tempo(3).

A revisão da literatura mostrou poucos estudos sobre o tema, principalmente em nível nacional(2,4,5). Além disso, os estudos avaliados enfocaram basicamente o perfil das lesões esportivas, sem considerar a evolução da capacidade física dos atletas.

Tendo em vista o quadro relatado, delineou-se este estudo com o objetivo de descrever o perfil das lesões e a evolução da capacidade física de atletas profissionais de futebol durante uma temporada.

MATERIAIS E MÉTODOS

Os atletas avaliados pertencem ao Esporte Clube Pelotas (ECP), um clube de porte médio, participante da primeira divisão do campeonato gaúcho de futebol profissional e da terceira divisão do campeonato brasileiro na época do estudo. No ano de 2003, todos os atletas que permaneceram por mais de 30 dias no clube (n = 44) foram acompanhados pelo Departamento Médico (DM). Todas as visitas dos atletas ao DM na temporada (n = 84) foram computadas.

A idade dos atletas variou de 17 a 33 anos. O peso dos atletas variou de 60 a 85kg, enquanto a altura, de 1,70 a 1,93m. Dois critérios de exclusão foram utilizados: a) permanência inferior a 30 dias no clube; b) não vinculação ao elenco profissional.

No momento da admissão no clube, os atletas preencheram uma ficha cadastral para registro das seguintes informações: idade, peso, altura, posicionamento em campo, salário, idade de início de treinamento em clube, história de lesões e cirurgias anteriores.

Os atletas foram submetidos à avaliação da composição corporal e consumo máximo de oxigênio (VO2max) no momento da apresentação (antes da pré-temporada). O percentual de gordura corporal (%G) foi calculado a partir da equação de Faulkner, que avalia quatro dobras cutâneas: tricipital, suprailíaca, infra-escapular e abdominal(6). O VO2max foi calculado pela equação de Kokubun a partir do resultado do teste de corrida de 3.000 metros(7).

Tanto a composição corporal quanto o VO2max foram novamente aferidos ao final da pré-temporada, que teve a duração de duas semanas. A pré-temporada consistiu de trabalho em dois turnos com corridas contínuas e intervaladas, exercícios de musculação e trabalhos de saltos e piques curtos. O %G foi novamente avaliado um mês após o final da pré-temporada.

Durante toda a temporada, os atletas que compareceram ao DM por motivo de lesão (todos com confirmação ou suspeita de lesões eram encaminhados ao DM) preencheram uma ficha específica, criada seguindo o modelo usado em outro estudo, solicitando as seguintes informações: tipo de lesão (musculares, tendinites, contusões, entorses, fraturas ou luxações); local anatômico da lesão (tronco, cabeça, membro superior ou membro inferior); tipo de tratamento: curativos, antiinflamatórios, cirurgias, recursos de reabilitação (gelo, calor, ul-tra-som, ondas curtas e estimulação elétrica transcutânea) e tempo de afastamento do atleta, que compreendeu o período entre a chegada ao DM e o retorno aos treinamentos técnicotáticos. As entorses foram também divididas em relação à articulação acometida.

Após digitação e análise de possíveis inconsistências (combinações improváveis ou impossíveis nas respostas), os dados foram transferidos para o pacote estatístico Stata 7.0. A análise consistiu da descrição de todas as variáveis incluídas no banco de dados, com medidas de tendência central e variabilidade para as variáveis contínuas e proporções e intervalos de confiança de 95% para as variáveis categóricas. Testes de associação foram realizados para comparar a freqüência de lesões conforme a capacidade física e %G dos atletas.


RESULTADOS

Durante o primeiro semestre de 2003, o ECP disputou um total de 32 partidas, sendo quatro amistosos e 28 partidas oficiais pelo campeonato gaúcho e Copa do Brasil, totalizando cerca de 48 horas de jogo e 360 horas de treinamentos, tendo a pré-temporada ocupado 52 horas.

A tabela 1 descreve a amostra de atletas em relação às variáveis incluídas na ficha cadastral, a qual foi preenchida na apresentação no início da temporada. Cerca de 2/3 dos atletas tinham história prévia de lesões, enquanto apenas 1/8 relatou ter sofrido cirurgias decorrentes do esporte.

Dos 44 atletas que permaneceram pelo menos 30 dias vinculados ao clube e estiveram à disposição do elenco profissional, 84,1% compareceram ao DM pelo menos uma vez, com alguma queixa de lesão esportiva. Um total de 84 cadastros de lesões foram preenchidos, sendo nove destas na pré-temporada. Nos 15 dias seguintes à pré-temporada, foram preenchidos 15 novos cadastros, representando aumento de 67% em relação à pré-temporada. O número médio de lesões por atleta foi de 1,9. No gráfico 1 estão relatados os tipos de lesões apresentadas pelos atletas, notando-se predomínio das lesões musculares e entorses.

Em relação à localização anatômica, 88,1% (n = 74) envolveram os membros inferiores, 8,3% (n = 7) o tronco e 3,6% (n = 3) os membros superiores. O diagnóstico das lesões em sua grande maioria foi realizado clinicamente. Somente nos casos mais graves e que geravam dúvidas, os atletas foram submetidos a exames complementares. O tempo médio de afastamento causado pelas lesões foi de 11,7 dias (DP = 36,9; mediana = 4,0; amplitude = 1-240). O tempo de afastamento foi marcadamente diferente de acordo com os tipos de lesão, como se verifica na tabela 2.

A tabela 3 descreve o número médio de lesões de acordo com a posição do atleta. Os laterais, atacantes e goleiros fo-ram os que mais apresentaram lesões durante a temporada.

No gráfico 2 é mencionada a evolução do %G dos atletas durante a temporada. Nota-se um declínio significante (p < 0,01) deste durante a temporada, sendo a redução mais drástica no período logo após a pré-temporada. A média do VO inicial dos atletas foi de 51,6ml.kg-1.min-1 e aumentou para 52,5ml.kg-1.min-1 no final da pré-temporada (p < 0,01).


DISCUSSÃO

Estudou-se uma amostra de 44 atletas profissionais de futebol durante uma temporada. Obteve-se um total de 84 cadastros de lesões, sendo as lesões musculares as mais freqüentes (47%), seguidas das entorses (25%), as quais foram as lesões que mantiveram os atletas afastados por período de tempo maior (média = 31,9 dias). Dentre as entorses, 57% foram de tornozelo e 43% de joelho. Em relação à condição física dos atletas, observou-se melhora tanto do percentual de gordura quanto na capacidade aeróbica dos atletas.

Estudos nacionais mostraram uma associação direta entre idade e freqüência de lesões em atletas profissionais de futebol, resultado diferente do presente estudo(2,5). Supõe-se que a ausência de associação significativa entre essas duas variáveis neste estudo se deva à homogeneidade de idade encontrada nos atletas avaliados, com grande concentração entre 20 e 25 anos.

Quanto à topografia anatômica das lesões, os resultados deste estudo estão de acordo com a literatura, com maior acometimento dos membros inferiores(2,5,9). Esse achado é provavelmente explicado pelo fato de que o futebol é esporte praticado com os membros inferiores.

A distribuição proporcional dos tipos de lesões verificada neste estudo foi similar aos achados de pesquisas prévias(2,10). Atribui-se tal achado à sobrecarga de jogos (calendário), estilo do futebol atual, o qual exige grande quantidade de movimentos bruscos em curto intervalo de tempo. No entanto, alguns estudos mostram predominância das contusões(4,5,11). Independentemente do tipo de lesão predominante, deve-se destacar a freqüência marcadamente alta de lesões musculares, entorses e contusões sistematicamente relatadas na literatura.

Um ponto que merece destaque é que, mesmo a amostra estudada sendo composta basicamente por atletas jovens, ve-rificou-se que 84% se lesionaram pelo menos uma vez na temporada e 61% relataram lesões prévias. Esses resultados aten-tam para a fundamental importância dos preparadores físicos e membros dos DM no futebol atual, pois a grande maioria dos atletas se lesiona com freqüência.

Como conseqüência, analisando o tempo de afastamento dos atletas dos treinos técnico-táticos, as entorses foram as lesões que, em média, deixaram os atletas afastados por mais tempo. Cabe salientar, no entanto, que essa média foi deslocada por duas lesões ligamentares. Apesar disso, analisandose o percentual de lesões que resultou em afastamentos de até uma semana, as entorses foram as que obtiveram menor percentual de recuperação rápida.

Esses resultados são comparáveis aos do estudo de Cohen et al, no qual apenas as fraturas e luxações resultaram em afastamento maior do que as entorses(2).

Em relação ao aumento de 67% na freqüência de lesões nos 15 dias subseqüentes à pré-temporada, atribui-se esse fato à aplicação de trabalhos intensos e distintos nesse período; o primeiro, com ênfase em exercícios individuais para melhora da condição física, e o seguinte, com realização de treinos técnico-táticos com situações de jogo e amistosos, que expuseram os atletas a choques e exigiram bom desempenho da condição física.

Observou-se maior número médio de lesões em goleiros, laterais e atacantes. O estudo de Cohen et al revelou maior incidência de lesões em atacantes(2). Tendo em vista que o tamanho de amostra desse estudo foi significativamente maior do que o nosso, acredita-se que os resultados seriam consistentes caso tivéssemos investigado um número maior de clubes ou atletas.

Os resultados em relação ao percentual de gordura e capacidade física indicaram melhoras significativas tanto na prétemporada quanto na temporada.

Os atletas retornam às atividades no início da temporada com uma condição física abaixo do ideal; a realização de uma pré-temporada é fundamental, não somente para a reaquisição do status físico ideal, mas também como forma de prevenção de lesões, como afirmaram Heidt et al(12). Sabe-se, porém, que a duração da pré-temporada realizada não foi a ideal, um problema que vem sendo cada vez mais freqüente devido ao desgastante calendário do futebol.

Dentre as possíveis limitações do estudo, destaca-se o número de atletas analisados. Mesmo sabendo que a amostra obtida é maior do que a da maioria dos estudos na área de Ortopedia e Traumatologia, o número de atletas incluídos não permitiu explorar associações importantes, como a relação entre a condição física, salário, posição e a freqüência de lesões.

Alguns pontos positivos deste trabalho são a mensuração da capacidade física e percentual de gordura, fato relativamente novo em estudos de lesões, a disponibilidade de informações detalhadas quanto ao atleta e as lesões por ele sofridas, a confirmação de resultados já descritos na literatura e descrição de resultados novos.

Sugere-se que estudos sobre lesões esportivas sejam realizados com maior freqüência, visto que a literatura ainda é incipiente nesse campo. Quando possível, sugere-se que os autores optem por amostras maiores, para que tenham poder estatístico para realizar comparações formais entre a freqüência de lesões e algumas variáveis, tais como: posição, salário, capacidade física, percentual de gordura.

CONCLUSÃO

Os dados do presente estudo permitem-nos concluir que a freqüência de lesões em atletas profissionais de futebol em uma temporada é extremamente alta. Mais de 5/6 dos atletas apresentam alguma lesão durante uma temporada; o número médio de lesões por atleta é de quase duas por temporada. Assim, esforços devem ser feitos tanto na área de preparação física quanto na área médica para que mecanismos de prevenção de lesões sejam implementados com êxito no futebol pro-fissional.


REFERÊNCIAS

1. Inklaar H.: Soccer injuries: incidence and severity. Sports Med 18: 55-73, 1994.
2. Cohen M., Abdalla R.J., Ejnisman B., et al: Lesões ortopédicas no futebol. Rev Bras Ortop 32: 940-944, 1997.
3. Bjordal J.M., Arnly F., Hannestad B., et al: Epidemiology of anterior cruciate ligament injuries in soccer. Am J Sports Med 25: 341-345, 1997.
4. Carazzato J.G., Campos L.A., Carazzato S.G.: Incidência de lesões traumáticas em atletas competitivos de 10 modalidades esportivas. Rev Bras Ortop 27: 745-758, 1992.
5. Pedrinelli A.: Incidência de lesões em atletas de futebol [Tese de Mestrado]. São Paulo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1994.
6. Faulkner J.A.: "Physiology of swimming and diving". In: Falls H.: Exercise physiology. New York, Academic Press, 1968.
7. Kokubun E.: Velocidade crítica como estimador do limiar anaeróbio na natação. Rev Paul Educ Fis 10: 5-20, 1996.
8. Brynnhildsen J., Ekstrand J., Jeppsson A., et al: Previous injuries and persisting symptoms in female soccer players. Int J Sports Med 11: 489-492, 1990.
9. Ladeira C.E.: Incidência de lesões no futebol: um estudo prospectivo com jogadores masculinos amadores adultos canadenses. Rev Bras Fisioter 4: 39-47, 1999.
10. Miguel A., Rodríguez C., Echegoyen S., et al: Frecuencia de lesiones en jugadores de fútbol soccer del Club Universidad Nacional. Lesiones en los niveles: profesional y fuerzas básicas. Rev Mex Ortop Traum 12: 406-409, 1998.
11. Nilsson S., Roaas, A.: Soccer injuries in adolescents. Am J Sports Med 6: 358-361, 1978.
12. Heidt Jr. R.S., Sweeterman L.M., Carlonas R.L., et al: Avoidance of soccer injuries with preseason conditioning. Am J Sports Med 28: 659-662, 2000.