Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
As lesões traumáticas da inserc¸ão distal do tendão do músculo bíceps braquial (TMBB) são infrequentes1 e ocorre 1,24 caso por cada 100.000 habitantes.2 Se considerarmos o músculo bíceps braquial em toda a sua anatomia, somente 3% das lesões comprometem a porc¸ão distal, 1% compromete sua cabec¸a curta e a grande maioria, 96%, a cabec¸a longa.3
A ruptura do TMBB é atribuída à degenerac¸ão, à hipovascularizac¸ão e/ou ao atrito do tendão.4,5 Morrey sugere que a inflamac¸ão da bursa radial profunda pode contribuir para a degenerac¸ão do tendão,6 assim como irregularidades ósseas na tuberosidade do rádio podem causar atrito na porc¸ão distal do TMBB e contribuir para sua ruptura.5 Essa região tem uma zona hipovascular e de tecido fibrocartilaginoso localizada, em média, 2,14cm da região distal.7
Os fumantes têm maior predisposic¸ão à avulsão tendínea,2 assim como os atletas que fazem uso de esteroides anabolizantes.8,9
Incide, geralmente, em homens entre a quarta e a sexta décadas de vida.7,10 Omecanismo de lesão mais comuméuma brusca flexão do cotovelo contra resistência com o antebrac¸o em supinac¸ão.7 Normalmente, o paciente relata um audível estalido no cotovelo e uma retrac¸ão palpável no tendão bicipital.1 Os sintomas iniciais são dor, edema, equimose, alterac¸ão do relevo do brac¸o (fig. 1) e diminuic¸ão da forc¸a de supinac¸ão e da flexão do cotovelo.11 Se ainda assim houver
Figura 1 - Imagem clínica que mostra a rotura do tendão
distal do bíceps (seta).
dúvida diagnóstica, a ultrassonografia (US) e/ou a ressonância
nuclear magnética (RNM) são os exames de escolha.12
Na literatura encontramos diferentes formas de tratamento,
conservador e/ou cirúrgico, e ainda há muita
controvérsia sobre qual a melhor opc¸ão de tratamento.7
Pacientes que são tratados conservadoramente mostram
um déficit de forc¸a e de func¸ão em várias atividades.7
O tratamento cirúrgico por uma via estendida ou dupla
via tem melhores resultados, mas as complicac¸ões são
frequentes.3,7,10
O objetivo deste estudo é avaliar os resultados clínicos e
funcionais dos pacientes com lesão traumática da inserc¸ão
distal do TMBB tratados cirurgicamente.
Casuística e métodos
Entre abril de 2002 e junho de 2011, o Grupo de Ombro e
Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da
Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - Pavilhão Fernandinho
Simonsen - operou 15 cotovelos de 14 pacientes com
lesão da inserc¸ão distal do TMBB. Os critérios de inclusão
foram todos os pacientes adultos submetidos ao tratamento
cirúrgico para reinserc¸ão do TMBB que tiveram seguimento
mínimo de seis meses no pós-operatório. Foram excluídos
os que tiveram seguimento inferior ao estabelecido. Portanto,
foram reavaliados 14 cotovelos de 13 pacientes (tabela 1).
Todos os pacientes eram do gênero masculino, com média
de idade de 40 anos, variac¸ão de 28 a 62. O membro dominante
Figura 2 - RNM do cotovelo - corte sagital - que mostra a
rotura com retrac¸ão (seta) da inserc¸ão do tendão do
músculo bíceps.
foi acometido em nove casos (64,2%) (tabela 1). Em relac¸ão ao mecanismo de trauma, todos os pacientes referiram que estavamcom o cotovelo fletido e faziam forc¸a contra a resistência quando foram submetidos a brusca extensão do antebrac¸o como mecanismo de trauma.
Todos os pacientes fizeram radiografias do cotovelo acometido (frente e perfil), dez (71,4%) ressonância nuclear magnética do cotovelo (fig. 2) e quatro (28,6%) ultrassonografia do cotovelo para confirmac¸ão diagnóstica.
A média de tempo entre a data do trauma e a cirurgia foi de 17 dias, com variac¸ão de seis a 120. Todos os pacientes foram operados na posic¸ão de decúbito dorsal horizontal com o membro acometido apoiado sobre a mesa de mão acessória. As vias de acesso usadas foram a dupla em 12 casos (85,7%) (fig. 3) e a anterior estendida em dois casos (14,3%) (tabela 2).
A mobilidade do cotovelo foi mensurada por meio de goniometria, com o uso dos parâmetros da American Academy of Orthopaedics Surgeons (AAOS).13 O seguimento pós-operatório variou entre seis e 98 meses (média de 28). Os pacientes foram avaliados quanto ao grau de amplitude articular (flexoextensão e pronossupinac¸ão), à presenc¸a de dor e ao grau de satisfac¸ão. Todos os pacientes foram reavaliados após seis meses sob os critérios da American Medical Association (AMA), modificados por Bruce et al.14 Avaliamos nas radiografias pós-operatórias tardias a presenc¸a de ossificac¸ão heterotópica e/ou sinostose radioulnar proximal.
O presente estudo foi submetido previamente à avaliac¸ão do comitê de ética em pesquisa do hospital e foi aprovado.
Resultados
Todos os pacientes estavam satisfeitos com o tratamento, 12 (85,7%) foram considerados como excelentes resultados e dois (14,3%) como bons pelos critérios da AMA, modificados por Bruce et al.14 Nenhum paciente referia dor e todos retornaram às atividades diárias normais.
A amplitude articular manteve-se inalterada comparativamente ao membro não afetado e não foi observada alterac¸ão clínica da forc¸amuscular. Não houve evidência clínica ou radiográfica de ossificac¸ão heterotópica ou sinostose radioulnar após seis meses de evoluc¸ão.
Tivemos cinco casos (35,7%) de complicac¸ão: no caso 1, durante o intraoperatório, houve uma lesão iatrogênica da artéria braquial e foi necessária intervenc¸ão da equipe da cirurgia vascular, que fez um reparo término-terminal com enxerto de veia safena invertida. O paciente evoluiu com bom resultado. No caso 2, a lesão do tendão distal do bíceps tinha 120 dias e foi necessário usar enxerto do tendão palmar longo ipsilateral. O paciente teve lesão parcial do nervo cutâneo lateral do antebrac¸o e evoluiu com parestesia na face lateral do antebrac¸o e melhoria no acompanhamento. No caso 5, o paciente evoluiu com grande hematoma no pós-operatório imediato e houve necessidade de drenagem, que não interferiu no resultado final. No caso 12, o paciente evoluiu com pequena aderência na pele na ferida cirúrgica. No caso 14, o paciente teve como complicac¸ão uma parestesia transitória do nervo cutâneo medial do antebrac¸o (tabela 2).
Discussão
É sabido que as lesões distais do TMBB são incomuns.1,2 É atendido no nosso servic¸o, em média, 1,6 caso por ano, o que está de acordo com a literatura.1,2,4,7,10,15 Observamos ainda a predominância dessa lesão em pacientes do gênero masculino, em100% de nossa casuística.1,2,4,7,10,15 Incide geralmente entre a quarta e a sexta décadas de vida.1,2,4,7,10,15 Nosso estudo verificou uma média de 40 anos, com variac¸ão de 28 a 62.
O mecanismo de trauma mais comumente referido é uma brusca flexão do cotovelo contra resistência com o antebrac¸o emsupinac¸ão.7 Foi observado esse mecanismo de forc¸a excêntrica em todos os pacientes tratados pelo nosso grupo. Apesar de o uso de esteroides anabolizantes estar associado com avulsão tendínea do TMBB,8,9 nenhum paciente se referiu a ele.
O músculo bíceps braquial funciona como um importante flexor do cotovelo e o principal supinador do antebrac¸o. A reparac¸ão cirúrgica deve ser indicada principalmenteempacientes jovens, trabalhadores brac¸ais e atletas, especialmente quando o lado afetado é o dominante.3,9 Morrey et al.,16 em 1985, por meio de teste isométrico, encontraram em três pacientes tratados conservadoramente perda de 31% da forc¸a de flexão e 40% da forc¸a de supinac¸ão, comparados com seis pacientes tratados cirurgicamente, que apresentaram perda de 6% da forc¸a de flexão e 19% da forc¸a de supinac¸ão. Nossa casuística não apresentou perda de forc¸a de flexão e supinac¸ão. No entanto usamos critérios subjetivos baseados na informac¸ão do paciente e a avaliac¸ão foi feita com mensurac¸ão manual,
Figura 3 - Técnica cirúrgica: (a) incisão anteromedial longitudinal no terc¸o distal do brac¸o, com o tendão do músculo bíceps
braquial reparado (seta); (b) incisão feita de "dentro para fora" sobre a tuberosidade do bíceps (seta); (c) preparac¸ão do leito
ósseo para reinserc¸ão do tendão com pontos transósseos, na tuberosidade do bíceps (seta); (d) passagem do tendão
reparado da incisão proximal para a distal; (e) imagem clínica final da sutura no antebrac¸o.
sem dinamômetro, o que foi considerado uma deficiência do
trabalho.
Atualmente o reparo anatômico da inserc¸ão distal do TMBB
tornou-se o procedimento de escolha para as lesões traumáticas,
principalmente porque resultados bons têm sido
relatados na grande maioria dos estudos com respeito à
restaurac¸ão da supinac¸ão e da flexão e essa também foi nossa
experiência.
As várias técnicas desenvolvidas ao longo dos anos foram
dirigidas para reduc¸ão das complicac¸ões associadas com o
reparo. Historicamente, o tratamento cirúrgico da inserc¸ão
distal do TMBB iniciou-se por meio de uma única incisão anterior
estendida. No entanto, ocorreramalguns casos de lesão do
nervo interósseo posterior.17,18 Na nossa casuística, fizemos
a via anterior estendida em dois casos e não tivemos lesão
neurológica. Nossos dois casos (8,3%) de lesão neurológica afe-
taram o nervo cutâneo lateral e o cutâneo medial do antebrac¸o
e ocorreram quando usamos a dupla via.
A técnica da dupla via foi descrita por Boyd e Anderson18
em 1961. Apesar de apresentar resultados favoráveis, evoluiu
com ossificac¸ão heterotópica e sinostose radioulnar proximal
como complicac¸ões em alguns casos. Faila et al.,19 em 1990,
relataram quatro casos de sinostose radioulnar, dos quais
somente dois recuperaram o movimento após a ressecc¸ão.
Em 1985, Morrey et al.16 modificaram essa técnica, dividiram
a musculatura dorsal e evitaram a dissecc¸ão subperiosteal
da ulna ao longo da membrana interóssea à tuberosidade
radial. Essas modificac¸ões levaram a uma diminuic¸ão da taxa
de formac¸ão óssea heterotópica e da sinostose. Nos últimos
anos, várias técnicas e vários métodos de fixac¸ão foram descritos.
No entanto, ainda não há um consenso sobre qual a
melhor via e a melhor técnica a serem usadas nesses casos.
Usamos a técnica da dupla via descrita por Boyd e Anderson,
modificada por Morrey et al.,16 em 12 casos e não verificamos
sinostose radioulnar proximal e ossificac¸ão heterotópica na
nossa casuística.
Na década de 1990, com o desenvolvimento das âncoras de sutura, foi reintroduzida a incisão única anterior pela via de acesso de Henry.3,10 Bain et al.,20 em 2000, publicaram técnica com o uso de Endobutton na fixac¸ão do tendão do bíceps na tuberosidade do rádio e mostraram resultados favoráveis. Em 2009, Paul Fenton et al.1 publicaram a fixac¸ão com parafusos de biotenodese e Gregory et al.15 descreveram a fixac¸ão com âncoras sob visualizac¸ão endoscópica.
Mazzoca et al.,17 em 2007, fizeram estudo biomecânico em que compararam quatro técnicas de reparo do bíceps distal. O endobutton mostrou melhor resultado do que a âncora de sutura, o ponto transósseo e o parafuso de interferência. No entanto, optamos por usar os pontos transósseos em todos os pacientes sem perda da fixac¸ão em qualquer caso.
Conclusões
Observamos que o tratamento cirúrgico é uma boa opc¸ão para as lesões distais do TMBB quando acometem pacientes jovens e ativos, porque obtivemos 85,7% de resultados excelentes e 14,3% bons.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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