Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
A pubeíte em atletas é uma condic¸ão inflamatória não infecciosa da sínfise púbica e das estruturas adjacentes. 1,2 Foi descrita como complicac¸ão de procedimentos cirúrgicos urológicos e associada a infecc¸ão local ou a distância. 3 Pos-teriormente, foi relacionada aos esportes, principalmente em atividades que necessitam de movimentos com chutes, arran-cadas e corridas com mudanc¸a brusca de direc¸ão. Futebol, hóquei, futebol americano, rúgbi e corrida de longa distân-cia, entre outros, são alguns dos esportes em que ocorre mais frequentemente. 4 A dor púbica crônica é comum em jogado-res de futebol. 5 Um dos fatores envolvidos na manifestac¸ão do sintoma pode estar associado ao componente biomecânico envolvido no movimento repetido do chute e, com isso, levar a uma sobrecarga recorrente sobre a musculatura abdominal, os flexores do quadril e os adutores. A incidência desse tipo de lesão em jogadores de futebol varia entre 0,5% e 28%. 1,2
A queixa principal é caracterizada pela dor progressiva na região da sínfise púbica, que pode irradiar-se para o abdome, o períneo e os adutores. 1 Existe pioria da dor com flexão do tronco e mudanc ¸as súbitas de direc¸ão durante corrida e chu-tes. Com a persistência do processo, existe uma queda do desempenhoesportivo, comevoluc¸ãopara impotência funcio-nal edor atémesmoao fazer atividades cotidianas. 2 Nagênese da pubeíte ocorre um desequilíbrio muscular, principalmente entre a musculatura abdominal e a adutora, associado à instabilidade pélvica. Nos atletas profissionais de futebol, o excesso de jogos, a sobrecarga nos treinos, lesões musculares de repetic¸ão e gramados em condic¸ões precárias contribuem sobremaneira para o agravamento desse quadro. 5
O tratamento da pubeíte é essencialmente conservador e consiste em repouso, fisioterapia, analgésicos, anti--inflamatórios não hormonais e infiltrac ¸ões com corticoides. Entretanto, em 5% a 10% dos casos não ocorre melhoria e é indicado o tratamento cirúrgico. 6 Existem poucos estudos que analisam o retorno ao esporte após o tratamento cirúrgico da pubeíte.
O objetivo do estudo consiste em avaliar o retorno ao esporte após o tratamento cirúrgico da pubeíte em jogadores de futebol profissional e descrever a técnica cirúrgica empre-gada. As indicac¸ões, as etapas da cirurgiaeaevoluc¸ão clínica pós- operatória serão apresentadas e discutidas neste artigo.
Materiais e métodos
De janeiro de 2000 a novembro de 2008 foi estudada uma série de casos de 30 pacientes, jogadores de futebol profissio-nal, que foram submetidos a tratamento cirúrgico de pubeíte no Centro de Traumatologia do Esporte da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituic¸ão. Todos eram do sexo masculino, com idade média de 24,4 anos (variac ¸ão de 18 e 30) e com queixa de dor na região púbica havia pelo menos um ano semmelhoria com tratamento con-servador. A durac¸ão média dos sintomas foi de 18,6 meses (variac ¸ão de 13 a 28). Quanto à atuac¸ão do jogador no time, dividimos de acordo com o posicionamento em campo: sete defensores (um zagueiro, seis laterais) 17 meio-campistas (oito meia-direitas, nove meia-esquerdas) e seis atacantes (dois centroavantes, quatro pontas). Quanto à dominância do chute, encontramos seis canhotos e 24 destros.

Foram incluídos no estudo os jogadores de futebol profissi-onal que apresentaram falha do tratamento conservador por no mínimo 12 meses e que estavam afastados do time prin-cipal. Todos os pacientes foram avaliados previamente por um cirurgião geral, clínico geral e/ou urologista, que descarta-ram outras afecc ¸ões que pudessem mimetizar uma pubalgia musculoesquelética. Todos os atletas foram diagnosticados por meio de investigac¸ão clínica, manobras especiais e exa-mes complementares por um único examinador experiente, especialista em cirurgia do quadril. Aqueles que apresenta-vam doenc¸as infecciosas, reumáticas, abdominais, urológicas e procedimentos cirúrgicos pélvicos anteriores foram excluí-dos da amostra. Também foi considerado critério de exclusão para essa técnica a presenc¸a de instabilidade pélvica, avaliada pela radiografia em apoio monopodálico.
O diagnóstico foi confirmado pelo quadro clínico conforme tabela 1 (fig. 1) e exames de imagem conforme tabela 2 e figs.2e3.
Nos exames complementares, as radiografias evidencia-ram estreitamento da sínfise púbica, osteoporose, irregulari-dade e sinais de osteoartrite (cistos subcondral, esclerose e osteofitose) (fig. 2).
Todos os pacientes submetidos ao tratamento cirúrgico foramoperados pelomesmo cirurgião e com a mesma técnica. Foi feita a ressecc¸ão trapezoidal da sínfise púbica associada à tenotomia bilateral do adutor longo.
Descric¸ão da técnica cirúrgica
Foi feita uma via cirúrgica anterior à sínfise púbica, com uma incisão transversal de aproximadamente 6cm, centrada a 1cmacimada sínfise (fig. 4). Fez-se adissecc¸ão até a exposic¸ão do reto abdominal e a liberac ¸ão parcial de suas fibras junto ao púbis (fig. 5).

Posteriormente, foram identificados e ressecados os liga-mentos anterior e superior da sínfise púbica (fig. 6). Com a bexiga protegida por um afastador foi feita a ressecc¸ão do disco fibrocartilaginoso e das estruturas adjacentes degenera-das (fig. 7). Osteófitos e corpos livres foram curetados. Houve cuidado especial na identificac¸ão e manutenc¸ão da integri-dadedo ligamentoarqueado inferior, afimdeevitar aevoluc¸ão para instabilidade pélvica (fig. 8).
A incisão foi suturada por planos e colocado dreno de succ¸ão no pós-operatório por 24 a 48 horas (fig. 9). Após o tér-mino desse tempo, foi feita a tenotomia parcial bilateral do adutor longo sob visualizac¸ão direta através de uma pequena incisão próxima a sua origem (fig. 10).
Todos os jogadores foram submetidos ao mesmo protocolo de reabilitac¸ão da tabela 3.

As avaliac¸ões no período pós-operatório foram feitas após sete dias, três, seis, oito, 12 e 16 semanas e seis, nove, 12, 24 e 36 meses por meio do escore da escala visual analógica e avaliac¸ãodeparâmetros comoamplitudedemovimento, forc¸a muscular (principalmente adutores e abdominais) e marcha. O retorno ao esporte só foi permitido após restabelecimento do movimento articular pélvico, da forc¸a muscular (abdomi-nais e adutores) e ausência de dor durante cinco treinamentos consecutivos e uma partida de futebol completa.
Foi feito um questionário simples após 36 meses de pós--operatório, com as questões citadas abaixo:
1. Qual sua avaliac¸ão do tratamento cirúrgico? (satisfeito ou
insatisfeito)
2. Você conseguiu retornar à prática do futebol? (sim ou não)
3. Você está tomando algummedicamento ou fazendo algum
tratamento para essa patologia? (sim ou não)
Resultados O controle pós-operatório até três semanas foi difícil para os atletas por causa do edema e da dor na região próxima à incisão, além da deambulac ¸ão com muletas. Cinco pacientes evoluíram com hematoma e foi necessária a retirada dos pon-tos com três semanas por causa de deiscência superficial no local da ferida operatória. Houve cicatrizac ¸ão completa das feridas nesses casos após cinco semanas. Quatro pacientes apresentaram disúria na primeira semana, porém melhora-ram na segunda semana pós-operatória. Não foi verificado qualquer caso de infecc¸ão da ferida operatória.
O questionário pós-operatório foi aplicado pelo autor prin-cipal. Na avaliac¸ão pós-operatória, o enfoque foi baseado na recuperac ¸ão da amplitude articular, na identificac¸ão de locais dolorosos e no restabelecimento da forc¸a muscular abdomi-nal e adutora. A avaliac¸ão funcional e de equilíbrio foi feita por fisioterapeuta especializado e consistia em testes com salto monopodálico unilateral e bilateral e emmovimentos de acelerac¸ão e desacelerac¸ão em linha reta e em cruzamentos.
O tempo médio para retorno aos treinos ocorreu em torno de oito semanas (variac¸ão de sete a nove). Todos os atletas retornaram a prática de futebol competitivo em até 16 semanas.
Quando interrogados sobre o grau de satisfac¸ão no pós-operatório (satisfeito ou insatisfeito), levando em considerac¸ão o retorno ao esporte, houve 100% de satisfac¸ão. Esse grau de satisfac¸ão persistiu até a última avaliac¸ão após 36 meses de seguimento pós-operatório.
O controle radiográfico por meio da incidência anteropos-terior da bacia com carga foi feito anualmente até o terceiro ano pós-operatório, em todos os pacientes, e não houve qual-quer caso de deslocamento superior >2mm da sínfise púbica (um lado em relac ¸ão ao outro). Além disso, nenhum paciente apresentou queixa clínica de instabilidade nesse período.
Discussão
Pubeíte ou pubalgia são termos imprecisos, usados como sinônimos de algumas afecc¸ões que causam dor na região da sínfise púbica. 1 Pubeíte refere-se preferencialmente ao processo inflamatório da sínfise púbica, que pode ser deno-minada como sinônimo da osteíte púbica, principalmente se a etiologia estiver relacionada com atividades esportivas. 2 A complexidade anatômica dessa área possibilita a existên-cia de vários diagnósticos diferenciais, que confundem e retardam a identificac ¸ão do fator causal principal e levam, consequentemente, a tratamentos ineficazes e prolongados. 1 Além da gênese relacionada com a atividade física, outros fatores etiológicos podem ser considerados na pubeíte como: a) não infecciosa, associada geralmente a procedimentos uro-lógicos; b) infecciosa associada a problemas localizados na sínfise ou a distancia; c) degenerativa ou d) reumatológica. 1O diagnóstico precoce e correto da pubeíte é de suma importân-cia dentro do cenário esportivo, principalmente dos jogadores de futebol profissional, pois permite nortear o prognóstico referente ao nível de retorno ao esporte competitivo. 4,5
Dentre as opc¸ões terapêuticas preconizadas para a pubeíte, a maioria dos estudos recomenda que o tratamento inicial deve ser conservador e inclui: repouso, fisioterapia motora, analgésicos, anti-inflamatórios não hormonais e infiltrac¸ão local com corticoide. 6 Infiltrac ¸ões com corticoide têm sido amplamente usadas nos casos refratários ao tratamento con-servador comfisioterapia e anti-inflamatórios nãohormonais, mas sua eficácia ainda é motivo de controvérsia na literatura. As infiltrac¸ões podem apresentar pouca influência no curso normal dadoenc¸a. 2 Por outro lado, amelhoriadador na sínfise púbica após infiltrac¸ões com betametasona e dexametasona também foi relatada. 4 O acompanhamento desses pacientes, entretanto, não foi suficiente para avaliar se houve reapareci-mento dos sintomas. Em nosso estudo não obtivemos essa informac ¸ão referente ao número de infiltrac¸ões, medicac¸ão usada e dosagem por causa da falta de informac¸ão dos atletas.
Carecem de estudos com maior grau de evidência e são apenas citadas em alguns centros outras modalidades de tra-tamento não cirúrgico, como ultrassonografia, radioterapia, anticoagulac¸ão e pamidronato intravenoso. 3,6 Desses méto-dos, apenas a ultrassonografia foi usada em nossa amostra.
Otratamentocirúrgicoé indicadona falhadoconservador.6 Dentre as opc¸ões descritas existem quatro tipos de cirur-gia: artrodese da sínfise púbica, ressecc¸ão anterior, ressecc¸ão anterior trapezoidal e curetagem. 7 O tratamento cirúrgico que propõea ressecc¸ão trapezoidal dasínfisepúbicaparaalíviodos sintomas obteve bons resultados em pacientes com pubeíte de causa não relacionada à atividade física 7 . Outro estudo relatou rápida melhoria clínica de dois pacientes submeti-dos à ressecc¸ão trapezoidal de pubeíte relacionada à atividade física. 3 Outro estudo apresentou 10 atletas que foram opera-dos com a técnica de ressecc¸ão trapezoidal e obtiveram após 96mesesdeobservac¸ão70% de resultados excelentes. Dos três casos que referiram evoluc¸ão não satisfatória, dois apresenta-raminstabilidadepélvica. 8 Emnossoestudonenhumpaciente apresentou instabilidade pélvica até a última avaliac¸ão.
Mais recentemente, alguns autores têm recomendado a curetagem da sínfise púbica, um procedimento cirúrgico menos invasivo, que não faz ressecc¸ão óssea e diminui a exposic¸ão e o tempo operatório. 9,10 Os resultados do trata-mento cirúrgico da pubeíte em dois jogadores profissionais de futebol feito por meio da curetagem associada a infiltrac ¸ão local após seis meses da cirurgia mostraram que ambos haviam retornado às atividades físicas e consideravam, sub-jetivamente, o ato cirúrgico um sucesso. 10 Outro estudo apresentou 23 atletas submetidos a curetagem com uma escala funcional divididos em quatro categorias. Grau 4: paci-entes que podiam fazer todas suas atividades sem dor; grau 3: pacientes que podiam correr, mas não conseguiam participar de todas as atividades; grau 2: pacientes que não conseguiam correr; e grau 1: pacientes que sentiam dor ao deambular. Os resultados obtidos mostraram 60% de grau 4, 27% de grau 3 e 13% de grau 2. 10Em nosso estudo todos os pacientes puderam retornar ao futebol competitivo sem dor.
Outra opc¸ão cirúrgica usada no tratamento da pubeíte é a artrodese da sínfise púbica. Esse procedimento tem como vantagem evitar a instabilidade posterior, como complicac¸ão da ressecc¸ão anterior. 11Entretanto, a artrodese demanda um maior tempo cirúrgico, com uma recuperac¸ão mais demo-rada e com as possíveis complicac ¸ões do uso da fixac¸ão interna, como infecc ¸ão, quebra do material de síntese e não união. 12 Não associamos o uso dessa técnica por causa das complicac¸ões acima descritas.
Existempoucos relatos sobre a tenotomia parcial do adutor longo associada à ressecc ¸ão trapezoidal da sínfise púbica para tratamento da pubeíte crônica. Resultados favoráveis após a excisão de fragmento de avulsão óssea do grácilis foram descritos. 13 Em nosso meio, outro estudo usou a liberac¸ão da fáscia do reto abdominal, a curetagem da sínfise púbica e a tenotomia parcial dos adutores com excelentes resultados em jogadores de futebol profissional. 14 Em nosso estudo obtive-mos com uma técnica cirúrgica diferente resultados similares quanto ao retorno ao esporte.
Este estudo apresentou algumas limitac¸ões. O acompa-nhamento pós-operatório dos pacientes não foi homogêneo, houve casos em que após o retorno ao esporte o atleta não compareceu mais às consultas; o tempo de seguimento foi de curto prazo e complicac¸ões futuras poderão aparecer; a amos-tra foi pequena e direcionada para um grupo específico de atletas. No início desta série de casos não havia classificac¸ão ou padronizac¸ão dos resultados pós-operatórios e foi usado como critério exclusivo de bom resultado o retorno às ativi-dades esportivas. Atualmente, compreendemos que existem outros fatores envolvidos nesse tipo de atletaeoretorno ao esporte pode ocorrer mesmo antes da resoluc¸ão completa do quadro. O nosso estudo não usou grupo-controle para comparar técnicas cirúrgicas, pois não existem estudos que comprovem a eficácia de uma técnica específica (padrão-ouro) para essa afecc¸ão. O intuito do estudo não visava a solucionar essa questão, e sim avaliar o retorno ao esporte com a técnica efetuada pelo nosso grupo.
Não existe na literatura questionário específico referente à pubeíte. O retorno ao esporteeograudesatisfac¸ão foram considerados excelentes pelos atletas, pois todos os jogado-res encontravam-se debilitados e afastados do time principal e a cirurgia possibilitou uma melhoria na dor e, consequente-mente, no desempenho. O questionário, apesar de simples e subjetivo, possibilitou avaliar o índice de satisfac¸ão dos paci-entes e a eficácia da técnica num curto prazo de seguimento para essa populac¸ão específica. No tratamento da pubeíte em jogadores de futebol profissional, a indicac ¸ão cirúrgica não deve ser postergada excessivamente por conta do risco de perda do rendimento no esporte.
Conclusão
A técnica cirúrgica apresentada nesta série de casos com ressecc ¸ão trapezoidal da sínfise púbica associada a tenotomia parcial bilateral do adutor longo é um procedimento rápido, efetivo e com baixo índice de complicac¸ões pós-operatórias. Revela-se uma excelente opc¸ão de tratamento para os casos refratários e retorno à atividade esportiva em jogadores de futebol profissional.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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