Hospital Saúde de Caxias do Sul, Caxias do Sul, F4, Brasil
A deficiência LCA é uma patologia comum e pode levar a alterac¸ões na qualidade de vida. 1 A instabilidade articular é a principal causa de incapacidade funcional do joelho e obriga indivíduos na fase ativa da vida a modificarem a atividade profissional e a participac ¸ão em atividades esportivas. 2
Otratamentoconservadorda lesãodoLCApode trazer bons resultados, mas tem capacidade limitada de devolver ao paci-ente a atividade esportiva praticada anteriormente à lesão. 3
Otratamentocirúrgicoda instabilidadedo joelhocomabor-dagem específica para deficiência do LCA apresentou grande evoluc¸ão nas últimas décadas. 4 O retorno irrestrito ao nível de esporte pré-lesional é considerado um indicador de sucesso da reconstruc¸ãodoLCA. 5 Observa-se uma grande variac¸ão entre a medida objetiva da estabilidade do joelho no pós--operatório do LCA e a avaliac ¸ão subjetiva do paciente quanto a sua satisfac¸ão após o procedimento cirúrgico, influenciada por fatores sociais, culturais, financeiros e até psicológicos. 2,5
O objetivo desta pesquisa é avaliar o índice de retorno à atividade esportiva pré-lesional num grupo de pacientes sub-metidosà reconstruc¸ãodoLCAcomoautoenxertodos tendões flexores da coxa. Serão analisados os dados com relac¸ão à idade, ao sexo, ao IMC e à associac ¸ão com episódio inicial traumático de fratura no membro inferior (MI).
Materiais e métodos
O estudo foi transversal e retrospectivo. Foram analisados 265 pacientes submetidos à artroscopia do joelho para fins de reconstruc ¸ão isométrica do LCA com enxerto ipsilateral dos tendões flexores (TF) da coxa. Os procedimentos cirúrgicos ocorreramentre6de julhode2000e19denovembrode2007. A indicac ¸ão para a cirurgia de reconstruc¸ão do LCA foi queixa de instabilidade do joelho em paciente com interesse na prática desportiva ou dificuldades para o desempenho profissional. Foram incluídos neste estudo os pacientes em que foi usado o endoboton para fixac¸ão femoral e parafuso cortical e arruela metálica para fixac¸ão tibial do enxerto.
Foram excluídos do estudo pacientes submetidos a outras técnicas cirúrgicas ou procedimentos adicionais: osteotomia valgizante tibial, reconstruc¸ão póstero-lateral, reconstruc¸ão simultânea do LCP, ressecc¸ão de osteocondroma e sutura meniscal. Também foram excluídos pacientes com cirurgias de revisão do LCA, com seguimento pós-operatório inferior a 12 meses e com alterac¸ões no MI, como perda muscular por sequela de queimadura, deformidade metafisária, artrodese subtalar, neuropraxia pós-traumática do ciático e antecedente de artrite séptica.
A anestesia feita foi o bloqueio subaracnóideo com bupi-vacaína pesada (15 a 20mg/Kg) com adic¸ão de morfina na dosagem de 0,1 a 0,2mg/Kg. O procedimento foi executado sempre pelomesmo cirurgião, comopaciente posicionado em decúbito dorsal e o membro inferior sob garroteamento pneu-mático. Não foi usado dreno de aspirac¸ão. Foi feito curativo compressivo e o membro inferior foi mantido em extensão completa. 6 A crioterapia, como método adjuvante, foi usada em todos os casos. 7 O protocolo pós-operatório foi domiciliar na grande maioria dos pacientes. As visitas pós-operatórias foram feitas aos 15 dias, um mês e dois, quatro, seis, oito e 12 meses. A liberac¸ão para o gesto esportivo foi aos seis meses de pós-operatório e para os esportes de contato foi aos oito meses.8
As variáveis estudadas foram: sexo, idade, IMC, associac¸ão com episódio inicial de fratura do MI e retorno à atividade esportiva prévia à lesão.
Os dados foram analisados por meio do conjunto estatís-tico SPSS (Statistical Package for Social Sciences) versão 12.0 (SPSS Inc. 1989-2003). Para a análise estatística, foram usados: cálculo das médias, desvio-padrão, mediana, frequência e percentual. Usaram-se o testetde Student e o Anova de uma via para comparar as médias das variáveis simétricas. O teste não paramétrico de Mann-Whitney foi usado para análise das variáveis assimétricas e o teste dox 2 (qui-quadrado) para a comparac¸ão de frequências. Foram consideradas significantes as diferenc¸as com p=0,05 para um intervalo de confianc¸a de 95%.
Resultados
O estudo avaliou 265 pacientes, dos quais foram excluídos 76, oque totalizou189. Houveumaperdaamostral de13pacientes (6,87%), dois por óbito e 11 por falha no seguimento. No total, 176 pacientes foram avaliados, comuma média de 34,95±18,8 meses de pós-operatório (mediana de 31 meses) (IIQ: 20-48 meses). A avaliac¸ão mínima foi aos 12 meses e a máxima aos 87 meses depós-operatório. Amédiade idade foi de 32,6±10,1 anos. Opaciente mais jovemtinha 13 e o mais velho, 54. Nesta amostra, 131 (74,4%) pacientes eram masculinos e 45 (25,6%) femininos. A média de idade para o sexo masculino foi de 32,4±9,6 anos epara o femininode 33,1±11,4 anos. O número de joelhos direitos operados foi de 81 (46%) e de esquerdos foi de 95 (54%).
O número de pacientes operados que retornaram à ativi-dade esportiva prévia à ruptura do LCA foi de 121/176 (68,8%). A média de idade dos pacientes que retornaram à atividade esportiva foi de 31,4±9,6 anos, enquanto que a média de idade dos pacientes que não retornaram foi de 35,2±10,6. Foi encontrada uma diferenc¸a estatística significativa entre os dois grupos. Os pacientes que retornaram à atividade espor-tiva têmuma médiade idade mais baixa (p=0,020). Ao se fazer a análise estatística com ponto de corte na idade de 30 anos verificou-se que o retorno à atividade esportiva entre os paci-entesaté30anos foi de78,2%, enquantoqueentreospacientes acima de 30 anos foi de 61,2%. Adiferenc¸a foi considerada sig-nificativa (p=0,016) [OR=0,44 (95% IC 0,22-0,86)]. Ao analisar o retorno à atividade esportiva em comparac¸ãocomosexo, verificou-se que 93 pacientes (71%) do sexo masculino e 28 (62,2%) do feminino retornaram ao esporte. A maior frequên-cia de retorno à atividade física prévia entre os pacientes do sexo masculino não foi significativa (p=0,273). Com relac¸ão ao grau de obesidade, 81 pacientes (46%) apresentavam o peso considerado como normal, 65 (36,9%) apresentavam sobre-peso, 27 (15,3%) foram classificados como obesidade grau 1 e três (1,7%) foram classificados como obesidade grau 2. Não houve pacientes com obesidade mórbida nesta amostra. Foi verificado o retorno à atividade esportiva em 59 pacientes (72,8%) com IMC considerado normal (IMC<25). Ao agrupar os pacientes com IMC >25 (sobrepeso, obesidade grau 1 e obe-sidade grau 2), foi verificado o retorno à atividade esportiva em 62 (65,3%). Não houve diferenc¸a estatística significativa quando comparados os dois grupos (p=0,280).
Nesta amostra, 17 pacientes (9,7%) tinham a lesão do LCA relacionada a um episódio inicial traumático com fratura no MI: fratura do côndilo tibial, fratura do fêmur ou fratura da tíbia. A média de idade para esses pacientes foi de 36,8±10 anos (mediana 39). A média de idade para o restante da amostra foi de 32,1±10 anos (mediana 32). Não foi verificada diferenc¸a estatística entre os dois grupos (p=0,070).
Foi verificado o retorno à atividade esportiva em 10 paci-entes (58,8%) com a lesão do LCA relacionada a um episódio inicial traumático com fratura no MI. Ao analisar o restante da amostra, verificamos o retorno à atividade esportiva em 111 pacientes (69,8%). Não houve diferenc¸a estatística signifi-cativa com relac¸ão ao retorno à atividade desportiva quando comparados os dois grupos (p=0,353).
Discussão
O objetivo do tratamento cirúrgico do joelho deficiente para o LCA é a estabilizac¸ão para prevenir lesões subsequentes à devoluc¸ão do paciente ao esporte no mesmo nível em que o praticava antes da lesão. 9 Esse dado é difícil de ser avali-ado por levar em considerac¸ão o nível de atividade esportiva, o tipo de esporte praticado, a expectativa de resultado, a capacidade de engajamento no processo de reabilitac¸ãoeo estresse gerado pelo tratamento, bem como pelo período de reabilitac ¸ão decorrido. Deeham et al. 10 demonstraram que pacientes sedentários podem apresentar melhores resultados do que outros engajados em atividades competitivas.
Ao indicar qualquer tratamento cirúrgico, o ortopedista deve discutir com o paciente e verificar sua expectativa de resultado. Não é diferente para a indicac ¸ão da reconstruc¸ão do LCA.
Baseados na classificac¸ão dos esportes segundo a Ameri-can Medical Association, podemos dividir os esportes em de contato (boxe, futebol, basquete, handebol e futebol ameri-cano) e de não contato (tênis, natac¸ão, golfe e lanc¸amentos do atletismo). 11 Nosso trabalho não avaliou os diferentes tipos de esporte praticados, apenas considerou a atividade esportiva prévia da amostra.
O retorno à prática esportiva é multifatorial e envolve aspectos cirúrgicos, reabilitac¸ão e fatores demográficos, psi-cológicos e sociais. A idade parece ser importante, uma vez que pacientes idosos têm menor probabilidade de retorno ao esporte. É importante diferenciar retorno ao esporte prévio e retorno ao nível esportivo prévio, pois as taxas de cada um são bem diferentes. E mesmo um retorno ao status competitivo prévionão significaque se mantenha a competência esportiva prévia. 12
Dunn et al.13 descreveram que o alto nível esportivo pré-vio é o principal preditor para o retorno ao esporte em dois anos de seguimento, ao passo que o sexo feminino, alto IMC e fumo nos primeiros seis meses estão associados a menores taxas de retorno ao esporte. Outros autores apontam o gênero como variável importante, porém as diferenc¸as desaparecem em longo prazo. 12
O sucesso em longo prazo das reconstruc¸ões do LCA intra--articulares isoladas é apresentado na literatura em taxas que variam entre 75% e 95% de bons e excelentes resultados, considerando as variáveis estabilidade, alívio dos sintomas e retorno ao esporte. 14
O retorno à prática esportiva em qualquer grau pós--reconstruc ¸ão do LCA varia entre 26% e 97%, 15 no nível de atividade pré-lesional é de 63% e no da prática competitiva, de 44%. 16
Alguns autores avaliaramo retornoàatividadeesportivade acordo com a técnica cirúrgicausada. Guimarães et al. compa-raram as reconstruc ¸ões do LCA com enxerto do tendão patelar (TP) e com o enxerto do tendão quadricipital (TQ). Verificaram 25% de retorno ao esporte, em nível inferior ao original, após cirurgia com o TP e 8,6% com o TQ. 17 Entre os pacientes sub-metidos à técnica do enxerto do TP 12,5% relataram abandono do esporte por queixas de falseio ou dor e 12,5% por receio de recidiva da lesão. 17 Aglietti et al.18 tiveram 50% de retorno à atividade física em nível semelhante ao pré-lesional quando usada a técnica com os TF da coxa e 66% com a técnica do TP. Usamos a técnica de reconstruc¸ão do LCA com os TF da coxa em toda a nossa amostra. A comparac¸ão entre as téc-nicas cirúrgicas e seus resultados relativos ao nível esportivo recuperado ganhou novas perspectivas em estudo recente. 19
O retorno aos esportes demandantes foi de 74% para o grupo de TP e 70% para o grupo de TF. Entretanto, apenas 57% do TP e 44% do TF retornaram ao nível de atividade pré-lesional. A técnica do TF apresentou, de maneira significativa, melho-ria na preservac¸ão da extensão, melhores índices subjetivos e menor evidência radiográfica de osteoartrite lateral.19 Smith et al. 2 acompanharam um grupo de 62 atletas por 12 meses e encontraram 81% de retorno à atividade espor-tiva. Entretanto, 21% apresentaram prejuízo no desempenho. Nakayama et al.20 também analisaram atletas e obtiveram 92% de retorno à atividade esportiva. O maior retorno ao esporte nesses dois estudos deve-se principalmente ao fato de terem sido feitos com atletas profissionais. Eles dispõem de reabilitac ¸ões mais aprimoradas e maior estímulo psicológico para retornar à atividade física. No presente trabalho avali-amos pacientes de uma amostra aleatória, incluindo alguns atletas. Encontramos um índice de retorno à atividade espor-tiva de 68,8%, valor semelhante aos encontrados na literatura.
A dor como limitante da atividade esportiva foi mais comum quando usada a técnica com enxerto do TP. Para O'Brien et al.,21 o índice de dor na região anterior do joelho após reconstruc¸ão do LCA com essa técnica foi de 30%. Valo-res menores foram encontrados por Corry et al. 22 e Nakayama et al. 20 quando usada técnica com os TF para reconstruc¸ão do LCA (7% e 6%, respectivamente). Em nosso estudo, avaliamos os pacientes por meio do Escore de Lisholm, no qual um dos itens é a dor. No entanto, não consideramos a dor de forma isolada como objetivo da pesquisa.
Assim como Smith et al.,2 no presente estudo o retorno à atividade física ao nível pré-lesional em homens foi de 71% e não apresentou diferenc¸a estatisticamente significativa quando comparado ao valor encontrado para as mulheres, de 62,2%.
Nos estudos de Nakayama et al.20 e Smith et al., 2 a média de idade dos pacientes foi inferior a 30 anos e eles mostra-ram excelentes resultados no retorno à atividade física em nível profissional. Smith et al. 2 observaram ainda que a idade superior a 35 anos, a lesão crônica do LCA e patologias pré--existentesno joelho são fatores limitantes de bons resultados pós-operatórios. Arden et al. 23 mostraram que pacientes mais velhos têmtaxa de retorno esportivo menor. Em nosso estudo, a idade até 30 anos se mostrou um fator de protec¸ão para o retorno ao esporte após a cirurgia de reconstruc ¸ãodoLCAcom enxertos dos TF da coxa.
Shelbourne et al. 15 demonstraram em seu trabalho que jovens com idade média de 15 anos, jogadores de futebol e basquete, apresentaram uma taxa de retorno ao status esportivo prévio de 87% (basquete), 93% (mulheres-futebol) e 80% (homens-futebol). Desse grupo, 20% mantiveram seu nível competitivo durante o período universitário. Não houve diferenc¸a estatística entre os sexos e entre os esportes pra-ticados referentes à recidiva da lesão ou ao acometimento contralateral. O retorno precoce (três-quatro meses) não mos-trou aumento na taxa de lesões subsequentes do LCA em relac ¸ão ao retorno tardio (> seis meses).
Não encontramos trabalhos que avaliaram a relac¸ão entre o retorno à atividade esportiva após a reconstruc¸ãodoLCAe um episódio inicial traumático de fratura no MI.
Há relac¸ão significativa entre o peso e a forc¸a do quadrí-ceps femoral. 24 . Schmitt et al. 24 avaliarama influênciada forc¸a quadricipitaleoretorno à atividade esportiva. Os indivíduos que apresentaram uma diminuic¸ão de forc¸a de mais de 15% em relac¸ão ao membro contralateral foram afetados negati-vamente em relac¸ão à func¸ão e ao desempenho. Já o outro grupo (forc¸a >85%) apresentou resultados similares ao grupo--controle (pacientes sem lesão no LCA). Os pacientes com menor forc¸a quadricipital apresentarammaior peso (p < 0,025) em relac¸ão ao grupo-controle e ao grupo com perda de forc¸a de até 15%.
O momento ideal para o retorno à prática esportiva ainda é desafiador. Postulou-se que tal momento poderia ser alcanc¸ado quando o membro afetado alcanc¸asse 90% da capacidade do membro contralateral para desempenhar as mesmas atividades.25 Em recente revisão sistemática, Barber--Wesrin e Noyes 9buscaram identificar fatores que definissem o momento de retorno ao esporte após a reconstruc¸ãodoLCA. Foramidentificados apenas 35 trabalhos que usaram variáveis mensuráveis. Desses, apenas dois basearam-se na associac¸ão de quatro-cinco critérios objetivos para avaliar se a liberac¸ão para a atividade física foi apropriada. Portanto, apesar de a forc ¸a muscular, o controle neuromotor e a estabilidade serem critérios importantes na liberac¸ão da prática esportiva, a lite-ratura ainda necessita de publicac ¸ões mais homogêneas para fornecer esses dados. 9,16 A associac¸ão entre ausência de der-rame articular e episódios de instabilidade, índice IKDC > 93, apresentou valor preditivo positivo para estimar o retorno ao status esportivo prévio. 26
Consideramos uma limitac¸ão do nosso estudo a heteroge-neidade do grupo estudado quanto à prática esportiva, muito embora essa seja a realidade do ortopedista brasileiro. O paci-enteatletaécitadopor Smithet al. por terumperfil psicológico e motivac¸ão para o retorno ao esporte que podem contribuir diretamente para os resultados encontrados. 2
Conclusão
O índice de retorno à atividade esportiva prévia à lesão do LCA nos pacientes submetidos à reconstruc¸ão com o autoenxerto dos TF da coxa foi de 68,8%.
Foi verificado de forma significativa que pacientes com idade até 30 anos têm um maior índice de retorno à atividade esportiva após a cirurgia.
Com relac¸ão ao sexo, ao IMC e à associac¸ão com um episó-dio inicial traumático de fratura no MI, não houve diferenc¸a estatística para o retorno à atividade esportiva.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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