a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Santa Casa de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil
c Grupo de Cirurgia do Quadril, Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Santa Casa de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil
d Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil
e Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil


INTRODUÇÃO

O percentual da população de pessoas obesas com osteoartrite é crescente na população mundial. A demanda por cirurgias de artroplastia total do quadril (ATQ) tem aumentado continuamente. Evidências indicam que o risco relativo de uma pessoa ser submetida a uma artroplastia de quadril varia de 1,92 em indivíduos com sobrepeso para 8,56 em indivíduos com obesidade grave. 1A qualidade de vida parece piorar em pacientes obesos nos anos que se seguem ao procedimento. 2-4 Portanto, a perda de peso pré-operatória em ATQ é uma ação importante e muito encorajada, 5 já que o alto índice de massa corporal (IMC) tem se mostrado fator de risco para a pioria da osteoartrose do quadril. 6 Além disso, outros objetivos da redução de peso são a diminuição do risco cirúrgico e o aumento da longevidade do implante.

De forma geral, os pacientes referem a dor da coxartrose como justificativa para não perder peso no período que antecede ao procedimento cirúrgico. Nesse contexto, existe a ideia de que a perda de peso ocorrerá naturalmente após a cirurgia, pois o paciente terá menos dor e limitação funcional e, então, poderá fazer exercícios físicos com mais facilidade. Sendo assim, a restauração da capacidade física do paciente é uma das metas da artroplastia de quadril. 7

O objetivo do presente estudo é investigar o efeito da cirurgia de artroplastia de quadril no índice de massa corporal. Os pacientes conseguem emagrecer após a artroplastia do quadril?

Pacientes e métodos

Foram analisados retrospectivamente os prontuários de 100 pacientes submetidos à ATQ de novembro de 2008 a novembro de 2011. Foram usados como critérios de inclusão os pacientes com diagnóstico de osteoartrose do quadril, IMC = 20 e seguimento mínimo de 18 meses de pós-operatório. Foram excluídos os com registros incompletos em relação aos dados demográficos ou a qualquer uma das duas pesagens (pré e pós-operatória em um período tardio).

O peso e a altura eram aferidos em uma balança convencional digital da marca Urano com capacidade de 180 kg e divisão de 100 g que continha fita métrica. O IMC foi calculado com a fórmula p/h 2 , na qual p é o peso do paciente (kg) e h é sua altura (m). Os pacientes foram estratificados pelo IMC nos diferentes tempos, conforme proposto pela OMS,8 da seguinte forma: peso normal (IMC < 25), sobrepeso (IMC entre 25 a 30) e obesidade (IMC > 30).

Foram observadas estatísticas descritivas e distribuição de frequências. Os grupos foram correlacionados pelos testes t ou qui-quadrado, conforme a variável em análise. Considerou--se p < 0,05 estatisticamente significativo. Foi considerado IC 95%. A análise dos dados foi feita com o programa SPSS para Windows v.14.

Resultados

Foram observados 48 (48%) de pacientes do sexo masculino e 52 (52%) do feminino. No período pré-operatório, a média de idade da população amostral foi de 63,8 anos (± 13,5 desvio padrão), 62,4 ± 14,3 anos para os homens e 65,1 ± 12,6 anos para as mulheres. O seguimento médio foi de 24,6 ± 0,6 meses. A média de peso dos pacientes masculinos foi de 84,5 ± 11,5 kg e dos femininos foi 72,6 ± 13,9 kg. A média de altura foi de 1,72 ± 0,07 m para os homens e de 1,62 ± 0,06 m para as mulheres.

O IMC médio pré-operatório foi de 28,0 ± 0,6 kg/m 2 . No momento da coleta, 29 pacientes apresentavam peso normal (IMC < 25), 42 sobrepeso (IMC 25-30) e 29 obesidade (IMC > 30), conforme pode ser observado mais detalhadamente na tabela 1. Os homens apresentaram IMC pré-operatório médio de 28,4 ± 3,6 kg/m 2 e as mulheres, de 27,5 ± 5,0 kg/m 2 .

A análise pós-operatória demonstrou uma tendência de diminuição no peso em 36 pacientes (36%); 15 não mudaram de peso (15%), mas 49 ganharam peso (49%). O IMC médio pós--operatório foi de 28,3 kg/m 2 , 28,9 ± 0,7 kg/m 2 para os homens e 27,8 ± 0,7 kg/m 2 para as mulheres. Ocorreu uma média de aumento geral do IMC em 0,4.

Na tabela 1 podemos também observar que o IMC tende a aumentar em pacientes com peso normal e com sobrepeso, mas apresenta uma tendência de diminuir em pacientes com obesidade. Entretanto, as alteraç ões de peso observadas não apresentam diferenças estatisticamente significantes (p > 0,05).

A tabela 2 apresenta a distribuição dos pacientes no pré-operatório por grupo de IMC e sua migração no pós--operatório de forma mais específica por grupo. Observou-se aumento do IMC em nove pacientes do grupo com IMC normal, 11 passaram de sobrepeso para obesos e houve a redução de três pacientes do grupo de obesos para IMC normal (um) e sobrepeso (dois). Entretanto, 73 pacientes (73%) da amostra permaneceram com o IMC inalterado.

Na tabela 3 é ilustrado o número geral de pacientes conforme o IMC pré e pós-operatório. Conforme já observado na tabela 2, observa-se que há uma tendência de migração dos pacientes dos grupos com IMC menores para um IMC maior. Pacientes do grupo de IMC normal migraram para o grupo de sobrepeso, ao mesmo tempo em que pacientes desse grupo migraram para o grupo de obesos no pós-operatório. Na média geral, os pacientes aumentaram de peso.

Discussão

O IMC é frequentemente usado como ferramenta para avaliação do status nutricional dos pacientes e também como forma de avaliar a obesidade em estudos epidemiológicos. 9

A OMS8 sugere que a medida ideal para o IMC seja entre 20-25 kg/m 2 . Em relação ao aumento desse índice em pacientes candidatos à artroplastia de quadril, existem algumas pesquisas que associam a osteoartrose do quadril com obesidade. 10,11 Observa-se que a grande maioria dos pacientes candidatos à ATQ está fora do seu peso ideal.

Alguns autores apontam a modificação do peso pós--operatório em pacientes submetidos a vários tipos de artroplastia, incluindo de joelho e de quadril. 12-15 Aderinto et al. 16 sugerem que o ganho de peso seria comum após ATQ, apesar da melhoria funcional com o procedimento, mas que o ganho ponderal seria maior em obesos. Middleton e Boardman 15 referem que, independentemente do IMC pré-operatório, a redução do peso não aconteceria após a artroplastia. Na presente pesquisa, observamos que a maioria dos pacientes não modifica seu IMC no pós-operatório. Como forma geral, o aumento do IMC ocorreu nos pacientes com IMC normal e com sobrepeso, mas diminuiu em pacientes com obesidade estabelecida. Vale ressaltar que os valores obtidos são uma tendência, não são estatisticamente significantes (p > 0,05). É possível observar também uma tendência semelhante de aumento do IMC tanto em homens como em mulheres.

Dowsey e Liew 13 analisaram a modificação no peso de 529 pacientes que se submeteram à ATQ após o seguimento de 12 meses e observaram que a redução de peso ocorreu em somente 12,6% dos indivíduos. Abu-Rajab e Findlay 14 relataram diminuição de peso em 30% dos pacientes em 12 meses. Jain et al. 17revisaram retrospectivamente 78 pacientes, observaram peso e altura após ATQ e encontraram um aumento no IMC pós-operatório. De forma geral, o presente estudo corrobora alguns dos achados desses autores.

Todavia, ainda há controvérsias na literatura atual e alguns trabalhos mostram resultados que favorecem a perda de peso após a ATQ. 18 Por exemplo, Paans et al. 18avaliaram o peso e o IMC pós-operatório com um e 4,5 anos de seguimento e observaram redução significativa dessas medidas. Devemos, entretanto, observar que os estudos foram conduzidos em vários países, com diferentes grupos étnicos e com hábitos de alimentação e de atividades físicas diversos. No presente estudo, para a nossa realidade, somente 8% dos pacientes reduziram seu peso, ao passo que 19% dos pacientes ganharam peso após a cirurgia de artroplastia de quadril. Com base nesses resultados, é recomendado que os pacientes diminuam seu peso no pré-operatório e diminuam também os riscos no transoperatório e no pós-operatório. Independentemente do peso e do IMC prévios ao procedimento, de forma geral, a melhoria da mobilidade obtida com as ATQs não promoveu uma redução das medidas antropométricas na maioria dos pacientes, já que a maioria permaneceu com o mesmo IMC pré-operatório (73%).

Reconhecemos que existem algumas limitaç ões no presente estudo, entre elas a não observação de hábitos alimentares, nível de atividade física, perfil étnico/origem cultural, perfil socioeconômico, grau de instrução etc. Entretanto, a pesquisa aponta a importância da diminuição do IMC já no pré-operatório, pois há uma tendência geral para o aumento de peso. Os pacientes submetidos à ATQ não foram sensibilizados pelo apelo de perder peso após o procedimento cirúrgico, enfatizado e amplamente discutido com a nossa equipe no momento do pré-operatório, e alguns até aumentaram de peso.

Conclusão

A cirurgia de ATQ não contribuiu para a diminuição do IMC dos pacientes operados.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

REFERÊNCIAS

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