Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, GO, Brasil


INTRODUÇÃO

Define-se osteoporose como uma doença caracterizada por baixa massa óssea e deterioracão da microarquitetura do tecido ósseo, que determina aumento da sua fragilidade, propiciando maior risco de desenvolver fraturas. 1 Dequeker et al. 2 realizaram estudos radiológicos em múmias egípcias de aproximadamente 2000 a.C. demonstrando a ocorrência de fraturas vertebrais relacionadas a osteoporose.

Nos Estados Unidos são gastos U$ 20 bilhões/ano por causa de 1.300.000 fraturas atribuídas a osteoporose, 500.000 na coluna vertebral. 3 O tratamento das fraturas vertebrais osteoporóticas por compressão (FVOC) é geralmente clínico, com analgesia, deambulação precoce, coletes e medicação antirreabsortiva para osteoporose, com o intuito de evitar novas fraturas, diminuir a dor e a morbimortalidade.

No fim dos anos 1990, Jensen et al. 4 e Deramond et al. 5 indicaram a vertebroplastia no tratamento das FVOC sem melhoria com o tratamento clínico. Esse método foi originalmente descrito em 1987 por Galibert et al. 6 para o tratamento de tumores vertebrais.

O objetivo do nosso trabalho foi avaliar a melhoria da dor e da qualidade de vida em pacientes com FVOC submetidos à técnica da vertebroplastia após a falha do tratamento conservador.

Materiais e métodos

Foram avaliados 18 pacientes com 27 vértebras acometidas por FVOC de fevereiro de 2003 a setembro de 2004.

Os pacientes selecionados para vertebroplastia apresentavam uma ou mais FVOC, com dor importante mesmo após 60 dias de tratamento clínico, constituído de analgésicos, anti-inflamatórios não esteroides (Aines), opioides, calcitonina, alendronato, cálcio, vitamina D, coletes e cintas para coluna.

Todos os pacientes fizeram radiografias e ressonância nuclear magnética (RNM) (com sinal em T1/T2/STIR) pré-00operatórias e radiografias e tomografia computadorizada (TC) pós-operatórias. Na RNM foram observados hipersinal em STIR, com edema ósseo no corpo vertebral fraturado e doloroso.

Todos os pacientes foram submetidos a anestesia geral. As vias usadas para a vertebroplastia foram a posterolateral e a transpedicular, com agulhas do tipo Jamshid e cimento ósseo (polimetil-metacrilato), com 10% de sulfato de bário para visualização intraoperatória na fluoroscopia. Todos os pacientes foram acompanhados por pelo menos seis meses após o procedimento.

Os critérios de exclusão foram comprometimento do canal medular, infecção, distúrbios de coagulação, colapsos maiores do que 90%, fraturas da parede posterior da vértebra e fraturas antigas, negativas na RNM. Para avaliação da melhoria da dor e qualidade de vida foi usado o questionário de limitação de Oswestry 2.0 (ODI Score = Oswestry Disability Inquiring) na semana anterior à vertebroplastia e 24 horas e seis meses após o procedimento. O teste estatístico usado para a comparação do ODI-Score foi o não paramétrico de Wilcoxon, com nível de significância quando p = 0,05.

Resultados

Foram avaliados dois homens e 16 mulheres, com variação de 50 a 79 anos (média de 64,5), submetidos à vertebroplastia por FVOC. (figs. 1 e 2)

Foram acometidas 27 vértebras, 18 lombares (L1 a L4) e nove torácicas (T8 a T12), com um paciente em quatro níveis, um em três níveis, quatro em dois níveis e 12 em um nível. Observamos duas complicaç ões nos casos operados, entre elas um colapso de nível adjacente, três semanas após a vertebroplastia, e um caso de extravasamento de cimento em L3 com compressão radicular esquerda. Foi feita descompressão via posterior com artrodese L2 a L4 com pediculado. (figs. 3 e 4).

Com relação à dor e à qualidade de vida, a média do ODI--Score pré-operatório foi de 40% (±4) e passou para 10% (±5) nas primeiras 24 horas, com 75% de melhoria da dor (p = 0,05). Quando medido o ODI-Score após seis meses, foi observada a manutenção do quadro sem dor a médio prazo, com valor médio de 9% (± 5). (fig. 5)

Discussão

Osteoporose é uma doença osteometabólica crônica, de causa multifatorial, cursa na maioria das vezes de forma assintomática, relacionada à perda progressiva da resistência e da qualildade óssea, levando a uma maior propensão a fraturas. A melhoria das condiç ões sociais, acesso a saúde e qualidade de vida proporcionam um aumento da longevidade, consequentemente observa-se um envelhecimento da população mundial. Considerada a "Epidemia do século 21", 7 a osteoporose teve grande avanço na prevenção, diagnóstico e tratamento desde a década de 1960, sendo hoje considerada um problema de saúde pública.

Pacientes com FVOC apresentam com frequência queixa de dorso/lombalgia, que pode ser aguda ou crônica e perfaz 85% dos pacientes com diagnóstico radiológico dessas fraturas. 8 As deformidades são a causa mais frequente de dor. O grau de cifose se correlaciona com a qualidade de vida do paciente (função motora, mental, respiratória), a mortalidade e o risco de novas fraturas. 9,10

Essa situação leva a alteraç ões do sono, ansiedade, depressão, vida social diminuída e aumento da dependência de outras pessoas. 10 A melhoria da dor é significativa com a vertebroplastia. 11,12 Gaitanis et al. 13observaram uma melhoria da dor na escala visual analógica de 8,5 pré-operatória para 2,5 no pós-operatório e no questionário de Oswestry uma diminuição das limitaç ões nas atividades diárias de 60% para 28%.

Nossos resultados confirmaram essa melhoria imediata da dor pela vertebroplastia no tratamento das FVOC, com Oswestry de 40% para 10%. Além disso, é um procedimento seguro quando feito com a técnica adequada, com menor morbidade do que as cirurgias de descompressão e artrodese.

Oswestry de 40% para 10%. Além disso, é um procedimento seguro quando feito com a técnica adequada, com menor morbidade do que as cirurgias de descompressão e artrodese.

Conclusão

A vertebroplastia é efetiva no manejo das FVOC, melhora a dor e a qualidade de vida dos pacientes logo no pós-operatório imediato e mantém-se em médio prazo.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

REFERÊNCIAS

1. World Health Organization. Guidelines for Preclinal Evaluation and Clinical Trians in Osteoporosis. In: Technical Report Series. 1998.
2. Dequeker J, Ortner DJ, Stix AI, Cheng XG, Brys P, Boonen S. Hip fracture and osteoporosis in a XII th Dynasty female skeleton from Lisht, upper Egypt. J Bone Miner Res. 1997;12(6): 881-8.
3. Jensen ME, Evans AJ, Mathis JM, Kallmes DF, Cloft HJ, Dion JE. Percutaneous polymethylmethacrylate vertebroplasty in the treatment of osteoporotic vertebral body compression fractures: technical aspects. AJNR Am J Neuroradiol. 1997;18(10):1897-904.
4. Oliveira LG. Osteoporose: guia para diagnóstico, prevenção e tratamento. Rio de Janeiro: Revinter; 2002.
5. Deramond H, Depriester C, Galibert P, Le Gars D. Percutaneous vertebroplasty with polymethylmethacrylate. Technique, indications, and results. Radiol Clin North Am. 1998;36(3):533-46.
6. Galibert P, Deramond H, Rosat P, Le Gars D. Preliminary note on the treatment of vertebral angioma by percutaneous acrylic vertebroplasty. Neurochirurgie. 1987;33(2): 166-8.
7. NIH Consensus Development Panel on Osteoporosis Prevention, Diagnosis, and Therapy. Osteoporosis prevention, diagnosis, and therapy. JAMA. 2001;285(6):785-95.
8. Lyritis GP, Mayasis B, Tsakalakos N, Lambropoulos A, Gazi S, Karachalios T, et al. The natural history of the osteoporotic vertebral fracture. Clin Rheumatol. 1989;8 Suppl 2: 66-9.
9. Kado DM, Browner WS, Palermo L, Nevitt MC, Genant HK, Cummings SR. Vertebral fractures and mortality in older women: a prospective study. Study of Osteoporotic Fractures Research Group. Arch Intern Med. 1999;159(11): 1215-20.
10. Lyles KW, Gold DT, Shipp KM, Pieper CF, Martinez S, Mulhausen PL. Association of osteoporotic vertebral compression fractures with impaired functional status. Am J Med. 1993;94(6):595-601.
11. Gangi A, Kastler BA, Dietemann JL. Percutaneous vertebroplasty guided by a combination of CT and fluoroscopy. AJNR Am J Neuroradiol. 1994;15(1): 83-6.
12. Oliveira FM, Rodrigues AG, Bastos JOC Jr, Yamazato C, Kusabara R. Resultados clínicos da vertebroplastia em pacientes com fratura da coluna vertebral por osteoporose. Coluna/Columna. 2007;6(1):28-33.
13. Gaitanis IN, Hadjipavlou AG, Katonis PG, Tzermiadianos MN, Pasku DS, Patwardhan AG. Balloon kyphoplasty for the treatment of pathological vertebral compressive fractures. Eur Spine J. 2005;14(3):250-60..