CASUÍSTICA E MÉTODOS
Quatro pacientes foram tratados por ressecção total do calcâneo. Dois destes pacientes foram tratados no Hospital do Câncer de Pernambuco e dois no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco.
Três pacientes eram portadores de tumor ósseo ou de tecidos moles e um era portador de osteomielite crônica. To-dos os quatro pacientes eram oriundos de outros hospitais, nos quais já haviam sido submetidos a outros procedimentos operatórios.
O primeiro paciente da série era portador de osteomielite crônica do calcâneo e já havia sido operado três vezes em outros hospitais sem obter cura da infecção (tabela 1).
Os pacientes portadores de tumor foram estadiados segundo os critérios de Enneking (1985), sendo um sarcoma parosteal (MIB), um sarcoma de partes moles (MIB) e um cisto ósseo aneurismático (BIII). Todos os pacientes já haviam sido submetidos a biópsia prévia. Durante a cirurgia para a ressecção do calcâneo foi sempre possível manter as margens de segurança necessárias à cura do tumor (tabela 1).
Os pacientes foram submetidos a cirurgia sob anestesia peridural, sendo o membro inferior com a enfermidade elevado por cinco minutos e posteriormente garroteado à altura do terço médio da coxa com faixa de Esmarch, estando a pele protegida por algodão ortopédico.
A incisão realizada foi sempre posterior e horizontal (fig. 1), tendo-se o cuidado, nos pacientes portadores de tumor, de contornar as cicatrizes preexistentes, que foram ressecadas junto com a peça operatória.
O tendão de Aquiles foi seccionado e a cápsula articular calcâneo-astragalina ressecada, ficando à mostra a superfície cranial do calcâneo. Por tração caudal do calcâneo foi possível visibilizar a porção articular dos ligamentos calcâneo-fibular e calcâneo-tibial e seccioná-los com bisturi (fig. 2). A ressecção da peça operatória foi procedida com as partes moles circunjacentes, mantendo-se as margens de segurança oncológica. A ferida cirúrgica foi drenada com dreno tipo aspirativo de 6,4mm; após a síntese, foi colocada bota gessada por 30 dias, sendo autorizada marcha com uso do aparelho gessado assim que o paciente se sentisse em condições.

RESULTADOS
Todos os pacientes evoluíram para cicatrização da ferida operatória.
Três pacientes eram capazes de deambular sem alça ou palmilhas especiais; um utilizava uma palmilha confeccionada pelo próprio paciente, preenchendo o espaço deixado pela ausência do calcâneo ressecado.
Nenhum dos pacientes tinha queixa de dor e todos conseguiam o apoio monopodal.
DISCUSSÃO
A ressecção total do calcâneo é uma cirurgia de indicação pouco freqüente. Nos nossos pacientes, optamos por esta indicação cirúrgica por acreditarmos não existir outra cirurgia que nos desse a mesma segurança quanto à obtenção da cura.
Todos os pacientes operados já haviam sido submetidos a outras cirurgias, que se mostraram inadequadas.
Nossos pacientes acham-se satisfeitos com os resultados obtidos e todos conseguem deambular sem o auxílio de muletas, tutores ou calçados especiais, o que nos permite afirmar que a despeito da mutilação imposta pela ressecção do calcâneo o resultado funcional dos pacientes é bom quanto à utilização do membro.

CONCLUSÃO
A indicação da ressecção do calcâneo se constitui numa exceção, ficando reservada aos tumores malignos e as infecções intratáveis por outros métodos.
A ausência do calcâneo não condiciona uma incapacidade física grave para a função do membro, permitindo a marcha sem aparelhos.
Enneking, W.F.: A system of staging musculoskeletal neoplasms. Clin Orthop 204: 9-24, 1985.
Martini, M., Martini-Bekendache, Y., Bekhechi, T. & Daoud, A.: Treatment of chronic osteomyelitis of the calcaneus by resection of the calcaneus. J Bone Joint Surg [Am] 56: 542-548, 1974.