INTRODUÇÃO

O uso de “tubos ocos” para a drenagem de feridas operatórias foi primeiramente descrito por Hipócrates (460-377 a.C.) (1). Desde então, a drenagem operatória tem sido intensamente empregada(4), apesar de ter sido demonstrada sua não necessidade em recentes estudos(5). Reilly & col. (1986) demonstraram que a drenagem pós-operatória em próteses totais de joelho não é estritamente necessária(4).

Este estudo mostra nossa experiência em 72 casos de prótese total de quadril, operados pelo mesmo cirurgião, sendo 29 casos drenados e 43 não drenados. Os resultados são analisados e discutidos em seguida.

METODOLOGIA

Efetuou-se estudo prospectivo de 72 próteses totais de quadril primárias consecutivas, realizadas pelo mesmo cirurgião entre novembro de 1991 e novembro de 1992. Nenhum paciente foi submetido a prótese bilateral. Vinte e nove pacientes foram drenados com um dreno profundo, tipo sucção, por 24 horas, e 43 pacientes não receberam nenhuma forma de drenagem pós-operatória. Todos os pacientes receberam a mesma antibioticoterapia, isto é, 1,5g de cefalosporina endovenosa administrado na indução anestésica, seguido de 750mg da mesma cefalosporina a seis e 12 horas de pós-operatório, e a mesma antitromboticoterapia profilática, isto é, heparina de baixo peso molecular(2) administrada subcutaneamente na indução anestésica, seguida de dose única diária por cinco dias (inclusive). Nos casos de cateterização urinária pós-operatória, efetuou-se administração profilática de gentamicina. A mobilização pós-operatória começou dois dias após a cirurgia para o grupo drenado (D), e um dia para o grupo não drenado (ND). Em todos os casos, o fechamento da ferida operatória foi minucioso, camada por camada, evi-tando-se a formação de espaços mortos. A pele foi fechada com pontos intradérmicos com fios absorvíveis. A mesma prótese foi utilizada para todos os casos, bem como foi empregada a via ântero-lateral descrita por Hardingue.

A idade dos pacientes variou entre 56 e 87 anos, sendo a média de 70 anos. Vários parâmetros foram avaliados:

1) Temperatura: foram analisados os números de picos febris durante a internação (temperatura oral maior que 38ºC);

2) Diferencial entre a dosagem de hemoglobina pré e pós-operatória: medido em g/dl;

3) Número de unidades totais de sangue transfundido;

4) Duração da operação: da operação propriamente dita; bisturi a pele;

5) Problemas na ferida operatória: inspeção diária, com verificação de complicações superficiais, como hematomas, deiscências, infecções superficiais e profundas;

6) Tempo de internação do paciente: todos os pacientes foram internados um dia antes da operação no Yeovil District Hospital (YDH) e transferidos, após os primeiros dias de reabilitação, para o South Peterton Hospital (SPH), um hospital de reabilitação;

7) Tempo prolongado de antibioticoterapia: só foram considerados os casos relacionados com a ferida operatória, sendo descartados os de outras origens, como infecções pulmonares, urinárias e outras;

8) Complicações ortopédicas: complicações do ato cirúrgico, como, por exemplo, luxações, fraturas, tromboses venosas profundas, embolias pulmonares e outras.

RESULTADOS

Uma média de 1,2 unidade de sangue foi transfundida nos pacientes do grupo D e de 0,67 unidade para o grupo ND.

A média de queda do nível da concentração de hemoglobina foi de 2,81g/dl (SD=l,17) para o grupo D e de 2,90g/ dl (SD=l,35) para o grupo ND.

Não achamos nenhuma diferença significativa entre os dois grupos analisados.

CONCLUSÕES

O uso de drenagem pós-operatória tem sido considerado rotina, senão obrigatório, no tratamento de pacientes ortopédicos. Esse conceito tem sido transmitido de gerações para gerações de cirurgiões(3). Desde o trabalho de Waugh & Stinchfield (4), que relataram pequena vantagem no uso de drenagem na remoção do hematoma operatório (que é excelente meio de cultura para crescimento bacteriano), a drenagem operatória tornou-se obrigatória.

Willett & col.(5) relataram que a taxa de infecção se correlaciona com o tempo de permanência dos drenos, recomendando sua retirada nas primeiras 24 horas pós-operató-rias. Também demonstraram que a quantidade de sangue drenado representa apenas pequena proporção da perda total sanguínea peroperatória.

Nossa experiência não demonstrou diferença estatística nos grupos estudados. Este serviço tem adotado essa prática até a presente data, sem maiores complicações.

É difícil saber se o desconforto, custo [em 1984 foram realizados 35.000 próteses totais de quadris na Inglaterra e País de Gales, com um gasto de aproximadamente £41.000,00 (US 62.000,00) só em drenos] e o risco de contaminação pela drenagem superam os benefícios de uma drenagem parcial do hematoma.

REFERÊNCIAS

Adams, F.: The works of Hippocrates, London, Williams & Wilkinson, 1939. 

Eriksson, B.I., Zachirisson, B.E., Teger-Nilsson, A.C. & Risberg, B.:Thrombosis prophylaxis with low molecular weight heparine in total hip replacement. Br J Surg 75: 1053, 1988. 

Levy, M.: Intraperitoneal drainage. Am J Surg 147: 309, 1984. 

Waugh, T.R. & Stinchfield, F. E.: Suction drainage of orthopaedic wounds. J Bone Joint Surg [Am] 43: 939, 1961. 

Willett, K.M., Simmonds, C.D. & Bentley, G.: The effect of suction drainsafter total hip replacement. J Bone Joint Surg [Br] 70: 607, 1988.