Em virtude da obtenção de alto índice de afrouxamento acetabular no ano de 85 com a utilização de prótese cimentada no serviço em que atuamos, passamos a empregar, no lado acetabular, a prótese de Parhofer em substituição à prótese de Charnley, nos pacientes mais jovens. Atualmente, estatísticas recentes demonstram falha acetabular de 30 a 50% entre dez e 14 anos de seguimento, usando-se técnicas antigas de cimentação. Entre elas, destacamos o trabalho de Maloney & Harris (6) , com 42% de afrouxamento acetabular em próteses cimentadas. Eftekhar, em 1.009 artroplastias de Charnley, com seguimento entre cinco e 15 anos, teve afrouxamento maior no lado acetabular, atribuindo à possibilidade de menor pressurização do cimento deste lado e, também, à maior elasticidade pélvica. Wroblewsky & Siney (9) , em 5.873 próteses de Charnley entre 1962 e 1971, também apresentaram considerável índice de afrouxamento acetabular.
Mediante os resultados obtidos, adotou-se prótese não cimentada no lado acetabular, inicialmente com próteses rosqueadas, as quais passamos também a utilizar. Atualmente, a preferência mundial, principalmente a norte-americana, é aplicar prótese não cimentada no lado acetabular e os melhores resultados obtidos são com a prótese hemisférica, sem roscas e com press-fit.
A prótese aqui avaliada é um cone truncado, feita de titânio, possuindo roscas para sua fixação primária, sem porosidade e necessitando de macheamento para sua introdução.
MATERIAL E MÉTODO
Foram analisados 54 pacientes que se submeteram a 59 artroplastias totais de quadris com a prótese de ParhoferMönk, entre março de 1985 e agosto de 1992, com tempo de seguimento médio de seis anos e nove meses. A idade dos pacientes situou-se entre 21 e 73 anos, apresentando média de 45,7 anos. Do total de pacientes submetidos a esse tipo de prótese, 33 eram do sexo masculino e 21 do sexo feminino.
Quanto à etiologia, por ordem decrescente, foi indicada a cirurgia por: necrose avascular, 15; osteoartrose primária, 13; falência cirúrgica prévia, 11; osteoartrose secundária, 10; fratura do colo do fêmur, 5.
O método utilizado para a avaliação clínica foi o de Merle d'Aubigné-Postel modificado por Charnley (7) (gráfico 1) e radiologicamente o de Callaghan (2) (fig. 2). Avaliamos os aspectos radiológicos que indicavam migração superior e medial, inclinação da prótese e áreas de demarcação superior a 2mm nas zonas I, II e III de De Lee-Charnley (3) . A confirmação do afrouxamento sempre se deu ao detectarmos área de lise maior do que 2mm, associado à migração ou inclinação do componente acetabular e, também, sempre associado à deteriorização da avaliação clínica. Interessante notar-se, em alguns casos de maior evolução, a esclerose na zona I, sinal de sobrecarga local após afrouxamento, fato este também notado no nosso trabalho anterior (1) , mas que não é citada na literatura mundial por nós lida (fig. 3).
Apenas área de lise ou de demarcação de 2mm não associada a alteração da inclinação ou migração não evidencia afrouxamento, inclusive sem alteração do quadro clínico. Dentro dos critérios de avaliação utilizados, 24 próteses afrouxaram em 21 pacientes, isto é, três pacientes apresentaram afrouxamento bilateral, representando índice de 40,6% de afrouxamento total. Confirmamos também a afirmação de Pupparo & Engh (8) de que, para as próteses rosqueadas, o tempo de dois anos é a média normal para se observar o afrouxamento, tendo em vista que quase todas as próteses que utilizamos e que se apresentaram frouxas foram constatadas, em sua grande maioria, na avaliação realizada entre o 2º e 3ºanos de seguimento.
A avaliação clínica de Merle d'Aubigné-Postel modificada por Charnley pode ser melhor apreciada no gráfico 1.
DISCUSSÃO
Laredo Filho (5) , em artigo publicado em 1992 sobre utilização da prótese de Parhofer, não se referiu ao afrouxamento da prótese acetabular como complicação, talvez pelo curto prazo de seguimento apresentado na ocasião (média de 27,4 meses). Na revisão que realizamos e que estamos apresentando neste trabalho, temos 81 meses como média de seguimento.
Os resultados que obtivemos em outro serviço, publicados recentemente (1) , com prótese rosqueada de concepção mecânica e de revestimento diferente, mostraram conclusão contrária à apresentada neste artigo e que se mantém após seis anos de evolução, razão pela qual continuamos a utilizá-la.
Associado ao alto grau de insucesso do procedimento quando se utiliza a prótese de Parhofer lisa (4) , gostaríamos de acrescentar, também, que o desenho desta prótese necessita de maior retirada de quantidade de osso, o que a torna inadequada para acetábulos displásicos.
CONCLUSÃO
1) Afrouxamento radiológico é confirmado quando as linhas de lise em torno da prótese são maiores do que 2mm, em associação com migração e/ou inclinação, e esclerose na zona I.
2) Associada à avaliação radiológica, constatamos também deterioração quando da avaliação clínica pelo método de MDP modificado por Charnley.
3) Apenas demarcação ou área de lise não indica afrouxamento.
4) A grande maioria dos afrouxamentos, nos casos que analisamos, ocorreu entre o 2ºe o 3ºanos de seguimento, confirmando a tese de Engh quanto ao limite de tempo de afrouxamento em próteses rosqueadas.
5) T omando como base o alto índice de afrouxamento que obtivemos (40,6%), abandonamos o uso deste tipo de prótese, que não apresenta porosidade. Este, de acordo com nossa análise, é um dos fatores determinantes de sua falha. Optamos, então, pela utilização de prótese do tipo press-fithemisférica, revestida de porosidade, para que os princípios da fixação biológica (crescimento ósseo) possam ocorrer.
2. Callaghan,J.J.,Dysart,S.H. & Sav ory,C.G.: The uncemented porous coated anatomic total hip prosthesis. Two-year results of a prospective consecutive series. J Bone Joint Surg [Am]70: 337-346, 1988.
3. De Lee,J.G . & Charnley, J.:Radiological demarcation of cemented sockets in total hip replacement. Clin Orthop121: 20-32, 1976.
4. Engh,C.A.,Bobyn,J.D. & Glassman, A.H.:Porous-coated hip replacement. J Bone Joint Surg [Br]69: 45-55, 1987.
5. Laredo,J.F ., T uríbio,E.T., T akata,E.D. & T rigueiro,G.:Prótese total não cimentada tipo Parhofer. Rev Bras Ortop27: 294-298, 1992.
6. Maloney, W.J. & Harr is, W.H.:Comparison of a hybrid with an uncemented total hip replacement: a retrospective matched-pair study. J Bone Joint Surg [Am]72: 1349, 1990.
7. Merle d'Aubigné, R. & Postel, M.: Functional results of hip arthroplasty with acrilic prosthesis. J Bone Joint Surg [Am]36: 451-475, 1954.
8. Pupparo,F . & Engh,C.A.:Comparison of porous threaded acetab ular components of identical design. Clin Orthop271: 201-206, 1991.
9. Wroble wsky,B.M. & Siney,P .D.:Charnley low friction arthroplasty in young patient. Clin Orthop285: 45-47.