A importância do exame de rastreamento da escoliose em escolares tem sido reconhecida em váries países, pois a detecção em fase inicial implica em tratamento precoce e menor morbidade, com menor custo final de tratamento (15) .
A primeira proposta de avaliação de deformidades da coluna vertebral foi feita em Minnesota, EUA, em 1947, em programa estabelecido para identificar curvaturas residuais em epidemia de poliomielite (12) .
Shands e Eisberg, em 1955, fizeram estudo incluindo 50.000 minifilmes (abreugrafia) em serviço de cirurgia de tórax, tendo encontrado 1,9% de escoliose, sendo esse o estudo mais precoce de incidência( 3,8,17) .
Em Aitken, cidade do Estado de Minnesota, EUA, em 1963, iniciou-se o primeiro programa de rastreamento de escoliose em escolares, utilizando-se o teste de flexão da coluna (9,11,15,21) , descrito primeiramente por Adams em 1865 (4) .
Em 1972, num congresso realizado em Minnesota, reconheceu-se a necessidade do rastreamento da escoliose em crianças em idade escolar (12,15,17) , sendo, a partir de então, mandatório em vários Estados americanos e outros países (8) .
Além do teste de Adams, outras técnicas têm sido descritas para a detecção das deformidades vertebrais, tais como moirécontornografia, termografia, etc. (9,11, 15,21) .
O custo-benefício dos rastreamentos escolares tem sido discutido por vários autores, com atenção especial ao grande número de falsos-positivos levando o paciente ao médico, com conseqüente estudo radiográfico desnecessário (1,4,5,10,14) .
Mercer Rang, em Toronto, Canadá, com a filosofia de desenvolver programas de ortopedia preventiva, desenvolveu um cartaz educativo para leigos com ilustrações, visando o diagnóstico de escoliose na população geral (18) . Um dos autores modificou o cartaz desenvolvido por Rang, adequando-o ao nosso país.
O objetivo do presente estudo foi o de avaliar a real capacidade do cartaz educativo em transmitir ao leigo os conhecimentos necessários para o diagnóstico precoce da escoliose e a sua divulgação no nosso meio.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram examinados 4.037 alunos das 1° à 5° séries do primeiro grau, em nove colégios da rede pública estadual e municipal da cidade de Indaiatuba, SP, no período de outubro de 1991 a outubro de 1992.
Para o diagnóstico, foi utilizado um cartaz educativo no qual constavam os procedimentos para o diagnóstico de escoliose na posição ortostática e flexão anterior do tronco (método de Adams) (fig. 1).
O cartaz foi distribuído aos professores de Educação Física das escolas citadas, sem prévia explanação sobre a doença. O professor estudava o cartaz e passava a examinar as crianças em busca da alteração que entendia provinda do mesmo, cadastrando as positivas.
Num segundo exame, as mesmas crianças foram avaliadas por um dos autores, sem prévio conhecimento do resultado obtido pelos professores, cadastrando-se as portadoras de escoliose (figs. 2 e 3). Esse grupo foi posteriormente radiografado, com vistas panorâmicas de coluna, após autorização prévia dos pais.
RESULTADOS
Das 4.037 crianças examinadas, variando de oito a 12 anos em média, 803 (19,8%) foram cadastradas como portadoras de escoliose pelos professores e 98 (2,4%) pelo médico.
Do grupo selecionado pelo médico, 63 (64,2%) foram radiografadas, sendo que as demais crianças não foram examinadas radiograficamente por falta de autorização dos pais, mudança de colégio ou por não terem sido localizadas.
Das 63 crianças radiografadas, 46 - 1,8% do total das crianças diagnosticadas pelo médico - mostraram escoliose que, quando medidas pelo método de Cobb, seguiram a distribuição quanto ao sexo, idade, graus e tipo de curvatura (tabelas 1, 2, 3 e 4).
De ambos os grupos examinados clinicamente, 55 crianças eram coincidentes como portadoras de escoliose, sendo que o restante só constava do grupo do medico, caracterizando um falso-positivo de 705 crianças, 17,46% do grupo geral, sendo que todas as curvaturas acima de 15° foram diagnosticadas pelo professor.
No grupo médico radiografado, 63 crianças, 17 (26,9%) tiveram o ângulo medido considerado dentro do padrão de normalidade (0-5°) caracterizando um falso-positivo.
DISCUSSÃO
O diagnóstico portante do ponto precoce da escoliose, além de ser imde vista do conhecimento da história natural da deformidade, tem importante cunho socioeconômico devido ao diagnóstico precoce e tratamentos adequados menos mórbidos e menos custosos (1-3,5,15) .
A idéia do desenvolvimento de um cartaz educativo visando a informação ao leigo tem como principal objetivo a diminuição de falsos-positivos, já que o leigo somente diagnosticaria curvaturas que teriam importância clínica, o que foi confirmado nos nossos resultados, em que nenhuma curvatura acima de 15° teve seu diagnóstico perdido pelos professores.
Os falsos-positivos, 17,46%, estão coincidentes com estudos da literatura, em que o rastreamento para escoliose feito por médicos, fisioterapeutas e enfermeiros da escola variou de seis a 21,9% (7,10) .
Apesar da proposta não ter sido de se fazer um rastreamento de escoliose em crianças na idade escolar, mas sim o de testar a eficiência do cartaz, a incidência de escoliose de 2,4% clínico e 1,8% radiológico esteve de acordo com a literatura, que variou de 1,78 a 13,6% (clínico) e radiológico que variou de 0,25 a 4% (3,6,7,9-12 15-17,22) .
Mercer Rang desenvolveu cartaz semelhante para educação leiga quanto ao diagnóstico de escoliose, com o intuito de baratear o programa e espalhar o conhecimento da deformidade em ambientes públicos (18) , tendo sido cartaz semelhante desenvolvido pela Associação Médica de Minnesota em 1974 (12) ; não encontramos referência na literatura quanto a estudos avaliando a eficiência desse método de divulgação.
A nosso ver, o cartaz serve ao diagnóstico de escoliose no meio leigo, sendo esse um excelente método de ortopedia preventiva, de custo baixo e aplicável em todo o território nacional, visto que, pelo nosso nível socioeconômico e cultural, seria difícil de realizarmos um rastreamento com pessoal qualificado a longo prazo, pois para ter validade as crianças devem ser examinadas anualmente pelo menos até os 15 anos de idade (10) .
Nossa meta seguinte será a de propagarmos o presente cartaz em ambientes públicos.
CONCLUSÃO
O uso de um cartaz como orientador ao leigo para o rastreamento de escoliose foi avaliado em um estudo duplo cego utilizando alunos das 1.ª à 5.ª séries das escolas de Indaiatuba, SP, com achados segundo sexo, idade, padrão de curvatura e incidência compatíveis com os da literatura.
Nenhuma curva acima de 15° passou não diagnosticada por ambos os grupos, provando a segurança do cartaz como método de ortopedia preventiva.
Por não necessitar treinamento prévio, o método se torna de baixo custo, podendo ser aplicado em todo o território nacional, mesmo em locais inacessíveis a pessoal técnico especializado.
AGRADECIMENTO
O cartaz foi desenvolvido com apoio da Rhodiae da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, via Comissão de Educação Continuada, gestão do Dr. Paulo Schott.
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