INTRODUÇÃO

Os esforços repetitivos exigidos numa ampla variedade de atividades profissionais (digitadores, empacotadores, músicos, conferentes, etc.) têm sido responsáveis por crescente número de lesões dos membros superiores. Esse quadro de lesões não é recente, pois Hipócrates (6) já descrevia os ''problemas médicos ocupacionais". Ramazinni (9) publicou extenso estudo sobre o tema no Século XVII. Termos como ''cãimbra do escritor", ''cãimbra do telegráfico", etc. são conhecidos de longa data. A especificidade das tarefas, a competitividade e a exigência por uma produção cada vez maior no trabalho, fenômenos típicos deste final de século, são responsáveis pela grande incidência dessas patologias.

Os termos ''lesão por esforço repetitivo" (LER), ''tenossinovite de repetição", ''doença traumática cumulativa", ''síndrome do sobreuso" definem a mesma entidade, que se caracteriza por uma situação em que a capacidade de resistência e adaptação dos grupos musculares do membro superior é ultrapassada, ocasionando a ruptura do equilíbrio biomecânico.

O trabalho muscular dinâmico permite contrações e relaxamentos alternados dos grupos musculares que estão executando a função manual localizados no antebraço, mão e dedos. Quando esse trabalho é realizado com grande velocidade, sem períodos de repouso, pode determinar a inflamação dos tendões e bainhas tendíneas, caracterizando um quadro de dor, fadiga, crepitação, sensação de peso e calor local.

O trabalho muscular estático é aquele realizado pelos grupos muscures de suporte localizados na coluna cervical, cintura escapular, ombro, braço e se caracteriza pela contração continuada, a fim de manter o membro superior em posição ideal para o trabalho. Apenas 60% da contração muscular máxima prolongada é suficiente para determinar um aumento da pressão interna e o conseqüente colabamento dos capilares. Isso leva a uma diminuição do aporte de oxigênio, aumento dos catabólitos, caracterizado anoxia tecidual. Esse quadro ocorre após 2-3 minutos de contração muscular máxima. O quadro será de dor muscular, fadiga, sensação de peso, dormência e cãimbras.

O esforço muscular estático consome três vezes mais energia que o dinâmico, é considerado desnecessário aos movimentos repetitivos e se caracterza pelo indivíduo com os braços "suspensos no ar".

Idealmente, a eliminação ou atenuação do trabalho muscular estático permitiria melhor desempenho do trabalho muscular dinâmico, através da melhoria do fluxo sanguíneo e redução dos catabólitos e radicais livres que agridem o colágeno. A ergonomia propõe uma organização metódica do trabalho em função do fim proposto e das relações entre o homem e a máquina (5) . Dessa forma, o uso de apoio diminuiria o trabalho muscular estatico dos membros inferiores (cadeira) e dos superiores (suporte).

O uso do equipamento denominado "apoio móvel para o braço" (AMPB) objetiva diminuir ao máximo o esforço estático dos membros superiores e corrigir a postura.

O APARELHO

O AMPB (fig. 1A e B) é um suporte confeccionado em duralumínio, de forma cilíndrica, com uma extremidade ajustável em altura e comprimento, com sistema de fixação com rosca para aperto e ajuste à mesa ou cadeira. O sistema de articulação das peças é feito com rolamentos, entre duas hastes. Os ajustes de altura e comprimento são feitos em relação às medidas antropométricas do usuário. Na extremidade distal do sistema, existe o suporte em que fica apoiado o antebraço; ele e revestido com esponja (material antialérgico), que permite relaxamento das estruturas musculotendíneas do membro superior, ombro e coluna cervical.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram avaliados 31 digitadores voluntários de diferentes serviços de processamento de dados, sendo dez (32,26%) homens e 21 (67,74%) mulheres, com idades variando de 24 a 41 anos (média de 31,35 e desvio padrão de 5,1), conforme mostra o quadro.

Quatro (12,91 %) tinham o lado esquerdo dominante, enquanto os demais 27 (87,09%) digitadores eram destros; todos os indivíduos possuiam apenas um emprego. A jornada de trabalho consistia de seis horas diárias para a maioria da população estudada (87,09%), havendo três casos de cinco horas e meia e um outro digitador com oito horas de trabalho por dia. O tempo de atividade profissional como digitador variava de três a 20 anos, com média de oito anos (desvio padrão de 4,3).

Vinte e seis indivíduos (83,87%) queixavam-se decansaço, dor e/ou dormências em um ou em ambos os membros superiores, ao passo que os cinco indivíduos restantes eram assintomáticos.

Com relação ao tempo de evolução dos sintomas, 21 digitadores foram capazes de precisar o tempo do primeiro episódio sintomático dentro de uma variação de um a sete anos, com média de 2,5 anos (desvio padrão de 1,6). No que diz respeito à sintopia dos sintomas referidos subjetivamente, detectou-se a seguinte distribuição: sete (26,92%) na coluna cervical; nove (34,61%) na cintura escapular; 19 (73,07%) no ombro; 13 (50%) no braço, um (3,84%) no cotovelo; 14 (53,84%) no antebraço; 10 (38,46%) no punho e 11 (42,31%) na mão. Do total dos digitadores, 11 (35,48%) não fizeram tratamento ortopédico e os demais 20 (64,51%) submeteram-se a tratamento ortopédico prévio à realização deste estudo.

RESULTADOS

O tempo de utilização do apoiador móvel para o braço (AMPB) de cada digitador variou de dois a 180 dias, com média de 39 alias (desvio padrão de 45). Verificaram-se diminuição ou eliminação dos sintomas em todos os indivíduos do grupo sintomático e maior conforto subjetivo para a realização da tarefa de digitação, conforme relato de todos os indivíduos deste estudo.

O tempo de adaptação para o uso do AMPB oscilou de um a dez dias, com média de quatro dias (desvio padrão de 2,7).

Observou-se também que 29 (93,54%) digitadores afirmaram que, se disponível, utilizaramo AMPB regularmente em suas atividades de digitação, enquanto que dois (6,45%) digitadores dispensariam o uso do aparelho em tais condições.

DISCUSSÃO

Embora as patologias causadas pelos esforços repetitivos sejam conhecidas de longa data, foi na década de 80 que vários trabalhos chamaram a atenção para esta "epidemia industrial" (1,4,7,8) .

No Brasil, Sobânia & col. (10) e Bu1cão de Moraes (3) trouxeram importantes contribuições ao tema. Lys Rocha (11) relaciona os seguintes fatores ocupacionais associados ao aparecimento das LER: 1) projeto do local de trabalho não adequado, levando a posturas que resultam em trabalho muscular excessivo; 2) tipo de tarefa com rápidos movimentos do antebraço, punho, mãos e dedos, para execução das atividades (movimentos repetitivos e alta velocidade); 3) ambiente de trabalho inadequado (má iluminação, ruídos excessivos); 4) má organização do trabalho, como falta de períodos de descanso espontâneo, freqüentes horas extras, pagamento de prêmios-produção e treinamento inadequado; 5) aumento da tensão muscular associada a stress mental decorrente do monitoramento do ritmo de trabalho pela máquina; 6) vibração; 7) retorno ao trabalho após ausência prolongada; 8) tempo de trabalho prolongado para um operador inexperiente; 9) predisposição fisiológica; 10) carga muscular estática.

Segundo Trepman & Micheli (13) , uma lesão repetitiva por sobreuso é aquela em que alterações patológicas microscópicas ocorrem nos tecidos e que estes não têm capacidade de regeneração tão rápida quanto as novas lesões que se repetem. Dentro do aspecto das LER estão as entesopatias do membro superior (síndrome de compressão do supra-espinhoso, epicondilite lateral e medial do cotovelo, tendinite de Quervain, tenossinovites inespecíficas, dedo em gatilho, etc.), as neuropatias compressivas (síndrome do túnel do carpo, do pronador, do supinador, do desfiladeiro torácico), além das síndromes dolorosas da região cervical. Todas essas patologias podem ser relacionadas com o esforço repetitivo e/ou prolongada contração muscular estática, mas não há relação direta e confirmada de causa e efeito.

Pela observação dos resultados, e na opinião de outros autores (1,11,12) , conclui-se que a principal causa etiológica das LER é o esforço muscular estático e não o esforço muscular dinâmico e repetitivo, como fora sugerido por longo período de tempo.

Sobânia & col. (10) , citando Stone (12) , discutem os fatores de risco para o desencadeamento das LER: movimentos repetitivos e rápidos, movimentos menos freqüentes e com mais força e ação muscular estática.

A diminuição da força muscular estática é, portanto, uma medida profilática ao desencadeamento das LER. O AMPB evita que o indivíduo mantenha os braços no ar durante a realização dos movimentos repetitivos e rápidos de digitação, funcionando como uma ''cadeira para os membros superiores" (14) .

Como qualquer novo instrumento que nunca havia sido previamente utilizado, alguns indivíduos sentiram certa dificuldade inicial com o AMPB; essa dificuldade é passageira e todos os indivíduos estavam adaptados com o novo aparelho num tempo médio de quatro dias.

Apenas dois indivíduos não utilizariam o AMPB regularmente, mas o fariam caso os sintomas se iniciassem. O dado mais expressivo é que todos os 31 indivíduos referiram diminuição ou eliminação dos sintomas e maior conforto subjetivo para a função de digitação.

O AMPB é, portanto, importante auxiliar da profilaxia da ''epidemia industrial".

REFERÊNCIAS

1 . Browe, C.D., Nolan, B.M. & Faithfull, D. K.: Occupational repetition strain injuries. Guidelines for diagnosis and management. Med J Aust 140: 329-332, 1984.

2 . Crisp, A.H. & Moldofsky, H.: Therapy of writers cramp. Curr Psychiatr Ther 17: 69-72, 1967.

3 . De Moraes, H.B.: LER - Conferência no 6º Congr. Sul-Bras. de Ortop. e Traumatol., Joinvile, SC, 1991.

4 . Ferguson, D.: The new industrial epidemic, Med J Aust 140: 318-319, 1984.

5 . Ferreira, A.B.H.: Novo Dicionário Aurélio. Nova Fronteira, 2ª ed., 1986. p. 677. Rev Bras Ortop - Vol. 28, Nº3 - Março, 1993

6. Hippocrates: The genuine works of Hippocrates, translated by Francis Adams, Sydenham Society: 1849. p. 698.

7. Hochberg, H.F., Leffert, R. D., Heller, M.D. & Marriman, L.: Hand difficulties among musicians. JAMA 249:1869-1872, 1983.

8. Kivi, P.: Rheumatic disorders of the upper limbs associated with repetitive occupational tasks in Finland in 1975-1979. Scand J Rheum 13: 101-107, 1984.

9. Ramazzini, B.: De morbis artifican (Diseases of workers), University of Chicago Press, 1940. p. 13-17.

10. Rocha, L. E., Paes, E.M. & Sobânia, L. C.: Lesões por esforços de repetição: análise em 166 digitadores de um centro de computação de dados. Rev Bras Ortop 21: 115-119, 1986.

11. Rocha, L. E.: Tenossinovite como doença do trabalho no Brasil: a atuação dos trabalhadores. Dissertação de Mestrado apres. ao Dep. de Med. Prev. da Fac. de Med. da Univ. de São Paulo, 1989.

12. Stone, W.E.: Repetitive strain injuries. Med J Aust 2: 616-618, 1983.

13. Trepman, E. & Micheli, L.J.: Overuse injuries in sports. Semin Orthop 3: 217-222, 1988.

14. Valenzuela, C.N.: Análise da eficácia da utilização do apoiador móvel para o braço (AMPB) durante a atividade de digitação em terminais de vídeo computador na Banrisul Processamento de Dados Ltda. Publicação interna IPA, 1989.