Dos vários campos de ação da Medicina Esportiva, a cobertura de grandes competições poliesportivas ocupa um lugar de destaque.
Em função da quase inexistência de trabalhos sobre o assunto na literatura mundial e nacional, propusemo-nos a apresentar aqui as atividades exercidas pela equipe médica do Comitê Olímpico Brasileiro durante os últimos Jogos PanAmericanos realizados em março último na cidade de Mar del Plata, na Argentina.
Vamos perceber nestes escritos certas particularidades que podem ocorrer durante o atendimento médico de delegações poliesportivas. Alguns fatores podem determinar não só a incidência maior dos atendimentos em determinados aparelhos corpóreos como também em determinada modalidade esportiva. Assim, em função das condições climáticas, quando as competições são realizadas sob temperatura extrema, podem levar a um atendimento maior na área das vias respiratórias; nas competições em altas altitudes, os cuidados maiores se dão para a área da concentração hemática, visando melhor oxigenação celular. Para o lado da maior incidência em determinada modalidade esportiva, muitos fatores podem explicar tal fenômeno: os antecedentes da equipe, seus resultados recentes e antigos, sua preparação para a competição, seus jogos preparatórios imediatamente à vespera da competição, as necessidades de resultados positivos, a composição da equipe nem sempre com nossos melhores atletas e, por vezes, com médias de idades extremas, mostrando atletas ou ainda imaturos ou já desgastados com comprometimentos crônicos que tornam o departamento médico um local de freqüência habitual.
Enfim, são tantas as variáveis, que seria necessário um relacionamento mais minucioso.
Cremos ser este trabalho uma demonstração efetiva dessas variáveis, que passaremos a relatar.
CASUÍSTICA
A delegação brasileira foi composta de 541 pessoas , sendo 405 atletas (tabela 1).
Pela necessidade imposta pela Argentina em função de locais para as competições, alguns poucos esportes foram realizados em Buenos Aires. Assim, as modalidades badminton, beisebol, boliche, handebol, hipismo, caratê e tiro ao alvo foram deslocadas para a capital argentina. A cobertura em Buenos Aires foi realizada pelo médico Renato Borges da Fonseca, auxiliado pelo massagista Clovis José de Souza, compreendendo 182 atendimentos médicos e de fisioterapia que não serão abordados neste artigo.
Deixaremos também de relatar os atendimentos com o futebol, com competições fora de Mar del Plata, com 18 atletas e sete dirigentes, atendidos por um médico, Mauro Mengar, e um massagista, Almir Ramos da Silva.
Limitar-nos-emos a explicitar a cobertura feita em Mar del Plata com a delegação composta de 280 atletas e 92 dirigentes (entre técnicos, preparadores físicos, chefes de equipes, médicos, fisioterapeutas, massagistas e outros agentes administrativos) (tabela 2) durante o período compreendido entre os dias 6 e 26 de março de 1995.
Nossa equipe foi formada de quatro médicos: um ortopedista (chefe da equipe), João Gilberto Carazzato; um cardiologista, João Paulo Rossi; dois clínicos, Bruno Borges da Fonseca e Heldio Fortunato Gaspar de Freitas, todos especializados em Medicina Esportiva. Um quinto colega clínico, Carlos Alberto Silva Barros, foi encarregado do atendimento exclusivo dos(as) 24 atletas do voleibol, auxiliado pelo fisioterapeuta Rodolfo Gomes Lima Filho. No entanto, tivemos a oportunidade de prestar diversos atendimentos a esses atletas. Compuseram também nosso departamento médico quatro massagistas especializados no atendimento de atletas: Geraldo Felix de Lima, Carlos Emilio Santana Bonfim, Elydio da Fonseca e Miguel Souza Cruz.
A metodologia utilizada para o atendimento da delegação constou basicamente de dois esquemas: atendimento no departamento médico e cobertura nos locais das competições. Organizamos um esquema de plantões de 24 horas com um médico permanecendo à disposição no departamento médico da vila e os demais três médicos fazendo a cobertura nos locais de competição.
RESULTADOS
No departamento médico foram feitos 492 atendimentos e houve 56 coberturas nos locais das competições. Além disso, tivemos 1.543 atendimentos feitos pelos quatro massagistas, além de 40 coberturas em locais de competições.
Dos 492 atendimentos feitos no departamento médico, 425 foram de atletas e 67 em técnicos ou dirigentes (tabela 3).
Os esportes que apresentaram maior número de atendimentos foram o atletismo (42), natação (39), voleibol (38) e judô (34). Em particular no voleibol não estão incluídos os atendimentos feitos pelo seu médico exclusivo, o que, certamente, se fosse computado, ultrapassaria os atendimentos do atletismo (tabela 3).
Foram atendidos nos locais das competições 56 eventos esportivos (tabela 4), com predomínio do basquetebol, que teve todos os seus sete jogos cobertos pelo departamento médico.
Para efetivação de parte da terapêutica, foram feitos 1.543 atendimentos pelo setor de massagens e fisioterapia (tabela 5).
Além do atendimento em quadra e em nosso departamento médico na Vila Olímpica, tivemos, algumas vezes, que recorrer aos serviços auxiliares colocados à nossa disposição para exames radiológicos, laboratoriais e de especialidades mais particulares, como oftalmologia, por exemplo.
Houve ainda reuniões de caráter científico no campo da Medicina Esportiva com a participação de nossa equipe.
Iremos nos ater apenas aos atendimentos feitos em atletas. Podemos dividir as atividades em duas grandes áreas: a da traumatologia esportiva e a de clínica geral.
No campo da clínica geral, tivemos um total de 220 atendimentos, com predominância para os estados gripais (101) e problemas oftalmológicos (32), que não serão objeto de estudo neste trabalho.




No campo da traumatologia, foram realizados 205 atendimentos, com grande predomínio das lesões articulares (104) e musculares (70) (tabelas 6 e 7).
Especificando as lesões ocorridas em cada esporte, podemos observar predomínio de lesões na coluna no judô (nove) e no squash(sete), de um total de 36, de instabilidade de punho na ginástica olímpica (oito), de um total de 14 e de feridas no hóquei (oito), de um total de 14.
Relacionando os esportes e as idades, a menor média foi a da ginástica rítmica (16,5) e a maior (28,1), no ciclismo (tabela 8) e basquetebol.
DISCUSSÃO
Como podemos verificar, de uma delegação de 372 pessoas, 280 atletas e 92 dirigentes, tivemos 492 atendimentos, sendo 425 de atletas e 67 de dirigentes.
Isso não significa que todos os componentes da delegação foram atendidos, pois muitos deles tiveram mais de um atendimento.
Outro fato que merece atenção foi a alta incidência em atletas de casos clínicos não ortopédicos (220). Este fato incomum nas diversas competições poliesportivas que tivemos oportunidade de atender (três últimas Olimpíadas: Los Angeles, Seul e Barcelona e três últimos Pan-Americanos: Caracas, Indianápolis e Havana), em que a percentagem maior sempre foi para o lado da traumatologia, deve-se às condições climáticas desfavoráveis (próprias da região de Mar del Plata, escolhida como sede dos jogos), com baixas temperaturas e muita chuva, que levaram a 101 atendimentos de estados gripais.
Outra área que surpreendeu em função do número de ocorrências (32), bem acima do habitual, foi a da oftalmologia, provavelmente por estar a Vila Olímpica à beira de praia, em mar aberto, com muito vento e fácil comprometimento dos olhos. Em particular, houve uma lesão importante em um atleta do pólo aquático, decorrente de trauma no globo ocular, que apresentou inclusive áreas hemorrágicas ao exame de fundo
de olho, que após tratamento intensivo e observações de vários profissionais, pôde proporcionar sua participação decisiva nos dois últimos jogos, trazendo importante medalha ao Brasil.
Não nos ateremos aqui a uma maior análise sobre esses casos clínicos, por estar sendo este artigo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia.
Vamos apenas discorrer sobre os atendimentos na área de traumatologia.
Nesta área, como vemos na tabela 3, os atletas que mais compareceram ao departamento médico foram os do judô (27), atletismo (21), ginástica olímpica (21), pólo (21), squash(17), voleibol (oito) - sem levar em consideração os casos atendidos pelo seu próprio médico, que não foram incluídos nesta tabela.
Outro número que pode parecer baixo foi o do basquetebol (seis), no qual não estão incluídos na estatística geral os atendimentos feitos na própria quadra, o que ocorreu em todos os jogos em que o Brasil participou. Esse fato, que poderia ter provocado aumento da incidência, não foi considerado importante. Em todas as ocorrências de maior importância, os atletas foram encaminhados obrigatoriamente ao nosso departamento médico da vila para o seguimento e terapêutica definitiva.
Pode-se observar também (tabela 4) que quase todos os esportes tiveram atendimento nos locais de competição, fato esse importante, pois, com apenas três médicos e vários esportes competindo simultaneamente, pudemos cobrir número elevado de eventos. Somente esforços pessoais e boa organização puderam proporcionar esse alto número de atendimentos em locais de competição.
A tabela 5 mostra também o grande número de atendimentos executados pelo setor de fisioterapia e de massagem.
Quanto à idade dos atletas atendidos (tabela 8), o mais jovem tinha 14 anos e o mais velho, 33 anos, com média de idade de 22,8a na parte clínica e de 23,7a na área traumatológica; isso demonstra a idade precoce em que nossos atletas estão atingindo o ápice de suas carreiras, o que caracteriza o principal problema atual do esporte brasileiro, ou seja, o início prematuro da prática do esporte competitivo.
Os esportes de maior média de idade foram o ciclismo e o basquetebol (28,1a) e os de menor, a ginástica rítmica (16,5a) e o voleibol (17,8a) (tabela 8).
Entre os homens, os mais jovens, com 18 anos, foram do voleibol e do tênis e os mais velhos, com 33 anos, foram do atletismo, esgrima e judô (tabela 8).
Entre as mulheres, a mais jovem, com 14 anos, foi da ginástica olímpica e nado sincronizado e a mais velha, com 33 anos, foi do squash(tabela 8).
Em particular, temos a considerar que, em relação ao voleibol, tanto a equipe masculina quanto a feminina enviaram para o Pan-Americano apenas as seleções infanto-juvenis, que é a razão da baixa média de idade desses competidores. Tal fato ocorreu em razão da impossibilidade de serem apresentadas as seleções principais ou mesmo as juvenis.
Nos demais esportes, tivemos praticamente a força máxima colocada em competição, o que projeta a idade real de nossos melhores atletas.
As lesões mais comuns foram articulares (104) e as musculares (70) (tabela 6).
O esporte que mais provocou lesões foi o judô (27) (tabela 6).
Se considerarmos quantos foram competir (280) e os atendimentos na área traumatológica (205), podemos caracterizar um índice determinado por número de lesões/número de atletas. Nesse caso, o esporte que mais provocou lesões foi o judô (27), em 16 atletas ou ainda 27 lesões do total de 205 (13,17%) (tabela 8).
Analisando os sexos separadamente, notamos que no masculino o esporte que mais apresentou lesões foi o pólo aquático (21) e no feminino, o squash(12) (tabela 7).
Finalmente, em relação às idades e os tipos, notamos que a lesão em atleta com menor idade foi a muscular, com 14 anos, e a de maior idade com 33 anos, com diversos tipos de lesões (12) (tabela 8).
CONCLUSÕES
Durante os Jogos Pan-Americanos em Mar Del Plata, em março de 1995, a equipe médica do COB pôde observar:
1) Numa delegação de 372 pessoas, sendo 280 atletas, foram feitos 492 atendimentos no departamento médico da vila, sendo 425 em atletas, e 56 coberturas em locais de competição;
2) Dos 425 atendimentos em atletas, 220 foram na área clínica e 205 na área traumatológica;
3) Na área clínica, o maior número de atendimentos foi para os estados gripais (101);
4) Os esportes que apresentaram maior número de atendimentos gerais foram o atletismo (42), natação (39), voleibol (38) e judô (34); na área exclusiva de trauma foi o judô (27);
5) A lesão articular foi a de maior ocorrência (104);
6) O atleta atendido de menor idade foi da ginástica olímpica (14 anos) e os de maior (33 anos) do atletismo, judô, squashe esgrima.