INTRODUÇÃO

Depois de progressivo sedentarismo, a partir dos anos 70 o ser humano passou a se envolver mais em atividades físicoesportivas como maneira de manter a forma física. Após o boomda popular "aeróbica", na década de 80 surgiu a versão competitiva dessa atividade, ainda mais intensa e próxima dos limites de desempenho do homem, que se denominou ginástica aeróbica de competição. Em 1985 aconteceu o primeiro campeonato americano e desde então a ginástica aeróbica de competição se difundiu pelo mundo.

A ginástica aeróbica de competição é um esporte de demonstração e, assim, o julgamento é feito de forma subjetiva, exigindo regras claras e bons jurados. Poder-se-ia dizer que se trata de um esporte "híbrido", pois possui movimentos típicos de outras modalidades, tais como a dança e a ginástica olímpica, estando ainda à procura de sua identidade. Essa característica, associada ao fato de ser esporte muito novo e de que sua evolução em termos de desempenho tem sido muito rápida, explica por que seus regulamentos são modificados a cada ano.

A aeróbica de competição, assim como o boxe, que tem diversas organizações com rankingse campeonatos próprios, possui mais de uma federação internacional: a IAF (International Aerobic Federation)e a ICAF (International Competitive Aerobics Federation). Têm países filiados pelos cinco continentes e coordenam competições nacionais e internacionais, como o World Aerobic Championshipe a Suzuki World Cup, que são as mais importantes. Em 1991, a ICAF coordenava as competições em diversos países, como: Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Guatemala, França, Alemanha, Japão, Itália, Coréia, México, Holanda, Nova Zelândia, Peru, Noruega, Suécia, Rússia, Inglaterra e EUA.

O número de países que disputam o World Aerobic Championship(ICAF) vem aumentando a cada ano. No primeiro, em 1990, participaram cerca de cem atletas de 15 países. Em 1991 participaram cerca de 125 atletas de 18 países e em 1992 o número passou a 144 atletas de 22 países. O objetivo principal da ICAF é tornar a aérobica de competição um esporte olímpico. Nas Olimpíadas do ano 2000 já será um esporte de demonstração.

No Brasil, o primeiro campeonato aconteceu em 1987. A evolução foi rápida e logo o Brasil se tornou uma das maiores potências mundiais em aeróbica de competição, juntamente com os EUA. Até o momento a seleção dos atletas brasileiros para a disputa do World Aerobic Championship(ICAF) é feita através do campeonato "Aeróbica Brasil", disputado em etapas regionais, realizadas nas principais capitais do país, que classificam para uma grande final.

O nível de dificuldade e a evolução do desempenho nessa modalidade vêm crescendo a cada ano. Isso requer uma preparação física mais cuidadosa e um treinamento que consiga ao mesmo tempo melhorar o desempenho e evitar lesões, procurando desenvolver pontos em que o atleta tenha maior dificuldade e explorando suas qualidades. Esse propósito não é fácil, pois, como em muitas modalidades esportivas, à medida que o nível de desempenho é alto, o ser humano é levado a se esforçar muito próximo de seus limites, fato que aumenta o risco de lesão.

Em revisão realizada por Matsudo(8) observou-se que: a) o índice de lesões em praticantes de ginástica aeróbica foi bem maior que o esperado; b) as lesões ocorrem mais pela quantidade (repetições de exercícios) do que pela inabilidade do praticante; c) o índice de lesões aumenta com a intensidade, a freqüência do esforço e incrementos no programa de exercício.

Halperin & col.(4) estudaram as lesões na dança aeróbica de alto nível. Foram reportadas 212 lesões em 215 participantes, 68 das quais leves, mas 144 causaram mudanças ou interrupção na participação em dança aeróbica. Entre os participantes, 82 não relataram qualquer lesão. Houve alta percentagem de lesões nas extremidades inferiores. A freqüência de lesão teve correlação positiva com o aumento de peso ou altura e baixos níveis de atividade física pregressa. A maior freqüência de lesão se deu em quem não usava o tênis apropriado para a dança aeróbica.

Em nosso centro de pesquisa, Pithon & col.(12)procuraram relacionar as lesões na ginástica aeróbica com a freqüência de treinamento. Observaram que não houve relação entre o número de lesões e a freqüência semanal de treinamento, tanto em homens como em mulheres. No entanto, os atletas masculinos apresentaram aumento significativo das lesões quando, além da prática de aeróbica, se envolviam em outras atividades de treinamento.

Os estudos sobre lesões na ginástica aeróbica têm ocupado cada vez mais espaço na literatura especializada. Entretanto, no caso da aeróbica de competição, por ser fenômeno mais recente, os trabalhos estão por ser realizados. Assim, o objetivo deste estudo foi verificar o índice de lesões e outras intercorrências de saúde em praticantes de alto nível em ginástica aeróbica de competição.

MATERIAL E MÉTODO

Com o objetivo de verificar a incidência e o grau de intensidade das lesões entre os atletas praticantes de ginástica aeróbica de competição, foi utilizado um questionário em que constavam os seguintes itens: idade; tempo de prática; freqüência e duração do treinamento; nível do atleta; prática de corrida e/ou musculação; incidência de lesões que impediram e que não impediram o treinamento; mudanças realizadas no treinamento e melhoras ocorridas. Foi também solicitada informação sobre eventuais intercorrências de saúde que não comprometeram o sistema osteomuscular. Esse questionário foi respondido por 19 atletas, sendo dez do sexo masculino e com média de idade de 23,7 anos (desvio-padrão de 2,1) e nove do sexo feminino com média de idade de 23,1 (± 3,1) anos. A média de tempo de prática desta modalidade foi de 3,3 (± 1,5) anos no sexo masculino e de 4,0 (± 2,3) anos no sexo feminino.

Os atletas eram de alto nível técnico e competitivo, tendo já participado, e vencido, diversos campeonatos regionais, estaduais e/ou nacionais. No grupo masculino, havia cinco campeões brasileiros, um campeão estadual, três campeões regionais e um terceiro colocado no campeonato regional. No grupo feminino, havia três campeãs brasileiras, quatro campeãs regionais, uma segunda colocada no campeonato regional e uma que ainda não participou de campeonatos.

A freqüência de treinamento no sexo masculino foi de 5,8 (± 0,4) vezes por semana, com duração em torno de 5,0 (± 2,2) horas/dia. Todos os atletas realizavam treinamento com peso, em média 5,0 (± 1,0) vezes por semana. A proposta do trabalho de musculação era de hipertrofia, podendo variar a intensidade de cargas de acordo com a fase de treinamento. Entre os atletas do sexo masculino apenas quatro praticavam corridas, com uma freqüência de 4,3 (± 2,1) vezes por semana, percorrendo em média uma distância de 7,3 (± 4,0) quilômetros em 39,3 (± 11,0) minutos. No sexo feminino apenas três atletas praticavam corrida, três vezes por semana, sendo a distância média percorrida de 6,6 (± 0,6) quilômetros em 33,5 (± 9,2) minutos.

No sexo masculino, todos os atletas haviam praticado alguma outra modalidade anterior à ginástica aeróbica de competição. Em realidade, a maioria deles havia praticado mais do que uma modalidade e cinco desses atletas, ginástica aeróbica. No sexo feminino, somente uma atleta não havia praticado nenhuma modalidade esportiva anterior à ginástica aeróbica de competição e a maioria, jazz e/ou ginástica aeróbica.

Análise estatística

A análise estatística incluiu média aritmética, desvio-padrão, percentagem e o teste tpara amostras independentes com número diferente de elementos; o critério de significância adotado foi de aigual a 0,01. O teste tfoi utilizado para comparar os dois sexos nas variáveis: idade, tempo de prática, freqüência e duração do treinamento e corrida (freqüência e distância percorrida).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram relatadas 36 intercorrências de saúde entre os atletas em 12 meses de prática de ginástica aeróbica competitiva. Entre essas intercorrências, 27 não impediram o treinamento e nove implicaram a interrupção da prática. No sexo masculino, foram observadas 24 intercorrências; 18 não impediram o treinamento e seis provocaram a sua interrrupção. No sexo feminino, foram constatadas 12 intercorrências; nove não impediram o treinamento nem provocaram o afastamento da atividade.

Entre as intercorrências que não impediram o treinamento no grupo masculino, 17 foram de origem osteomuscular (94,4%) e uma de origem gastrintestinal (5,6%). A contratura (33,3%), a bursite (16,7%) e a contusão (16,7%) foram as lesões mais freqüentes no grupo masculino (tabela 1). No grupo feminino, foram nove as intercorrências que não impediram o treinamento; oito eram de origem osteomuscular (88,9%) e uma (11,1%), gastrintestinal (tabela 2).

A contratura (22,2%), a bursite (22,2%) e os problemas no nervo ciático (22,2%) foram as lesões mais freqüentes no grupo feminino, enquanto, no masculino, cinco foram de origem osteomuscular (83,3%) e uma (16,7%) de causa vascular (tabela 3). Entre os problemas que provocaram o afastamento desse esporte, a lesão ligamentar (33,3%) foi o mais freqüente.

No grupo feminino, foram duas intercorrências de origem osteomuscular (66,7%) que impediram o treinamento e uma atleta (33,3%) interrompeu as atividades em razão de uma rinite alérgica (tabela 4). A contusão (33,3%) e a rotura da cápsula articular (33,3%) foram as principais causas de afastamento da atividade física. Os atletas interromperam o treinamento por um período de sete a 60 dias.

A freqüência de lesões (L) que não impediram o treinamento foi de 1,5 L/mês no sexo masculino e de 0,75 L/mês no feminino. A freqüência de lesões que provocaram o afastamento da atividade física foi de 0,5 L/mês no sexo masculino e de 0,25 L/mês no feminino.

Além de considerar as intercorrências por tipo, classificamos também por local e por gravidade. Como os resultados foram muito semelhantes nos dois sexos, a análise foi baseada nos dados em conjunto. Foram classificadas as intercorrências de origem osteomuscular e vascular em ambos os sexos.

Com relação às lesões que impediram o treinamento, como observado na tabela 5, verificamos que os membros inferiores foram os mais atingidos, com 52% das lesões. Considerando as lesões que causaram o afastamento da atividade, os membros inferiores foram os mais atingidos com 87,7% das lesões (tabela 6).

Analisando os graus de gravidade das lesões que não impediram o treinamento, mostrados na tabela 7, 81,5% foram moderadas, 14,8% leves e 3,7% graves. Das lesões que provocam o afastamento da atividade, 77,8% foram graves (tabela 8).

Dos dez atletas do sexo masculino, apenas dois não apresentaram nenhuma lesão. No sexo feminino, duas entre nove atletas não apresentaram qualquer lesão. Isso representa apenas cerca de 20% da amostra.

Um estudo feito por Requa & Garrik(14) mostra que a dança aeróbica apresentou maior freqüência de lesão que a aeróbica tradicional e o stepaeróbico; e todas com índices superiores aos da aeróbica de baixo impacto, que apresentou menor frequência de lesões. Naquele estudo como neste, os membros inferiores foram os mais atingidos. A ginástica aeróbica tradicional apresentou maior percentual de lesão aguda, sugerindo que a intensidade pode estar potencialmente contribuindo com as lesões.

Bogle & col.(2) analisaram o local e o tipo das lesões observadas em um programa de condicionamento físico realizado três vezes por semana, com duração de 30 a 60 minutos e de 50 a 70% da potência aeróbica máxima. O total de lesões por sexo indicou o masculino com 35,9% (n: 14/39) e o feminino com 14,6% (n: 6/41). Em ambos os sexos as lesões mais freqüentes foram as inflamatórias e as extremidades inferiores foram as mais atingidas.

Verificamos, portanto, que, além dos efeitos físicos benéficos relacionados ao exercício, a prática da ginástica aeróbica de competição é acompanhada de riscos que merecem atenção especial. Portanto, a quantidade e intensidade do exercícios devem ser atentamente dosadas, pois têm de ser suficientes para trazer benefícios sem provocar lesões (13,16,18) .

A ginástica aeróbica de competição é um esporte que tem recebido grande investimento financeiro e isso gera aumento no nível competitivo, ampliando assim a quantidade de treinamento. Aumentar o treinamento em quantidade e não em qualidade pode estar contribuindo com o risco de lesão. Por outro lado, como nesta modalidade os atletas treinam muito, acabam por se aproximar de seus limites, em que o exercício pode estar induzindo a um aumento da probabilidade de lesão (3) .

Verificamos também (tabela 9) que o sexo masculino apresentou o dobro de lesões que o feminino, embora não houvesse diferença significativa entre os sexos em termos de idade, tempo de prática, freqüência, duração do treinamento e corrida (freqüência, distância percorrida). Isso se deve provavelmente ao fato de os homens apresentarem maiores valores de peso e altura, variáveis que se correlacionam com maiores índices de lesão em prática esportiva (4,7) . Outra hipótese é com relação à flexibilidade, pois as mulheres, por serem em geral mais flexíveis que os homens, suportariam melhor a alta intensidade do treinamento.

Outro problema é em relação à propriedade da expressão aeróbica nessa modalidade. Será que a aeróbica competitiva tem realmente característica aeróbica? No máximo, em proporção muito pequena, pois é um esporte de curta duração, em que uma rotina normal dura aproximadamente um minuto e meio, e de alta intensidade, caraterísticas típicas de um esforço anaeróbico.

Outro aspecto interessante é a adequação entre o estímulo físico (treinamento) e as características miotipológicas. O atleta treina a rotina repetida vezes, sem grandes intervalos de tempo, e para suportar esse tipo de esforço não é suficiente treinar só a fibra do tipo I (contração lenta) através de corridas ou bicicleta ergométrica, como fazem alguns atletas. Nem somente as fibras do tipo IIb (contração rápida e glicolítica), que são fibras predominantemente anaeróbicas, através do treinamento com peso. Levantamos a hipótese de que o tipo de fibra que deve ser mais treinada para suportar melhor esse tipo de esforço seria a fibra IIa (contração rápida oxidativa), pois é a mais utilizada na modalidade.

Portanto, fica clara a necessidade de maiores estudos relacionados à ginástica aeróbica competitiva que, por ser esporte recente e de evolução muito rápida, não teve o apoio adequado da ciência, sendo este indispensável em nível qualitativo do treinamento.

CONCLUSÃO

A maior parte das lesões relatadas foi osteomuscular. Para as que não provocaram afastamento da atividade, os quadros de contratura e a bursite foram os mais freqüentes em ambos os sexos. Nas lesões que provocaram afastamento da atividade, a lesão ligamentar foi a mais freqüente no sexo masculino e a contusão e a rotura da cápsula articular, no feminino. Os membros inferiores foram predominantemente comprometidos, tanto nas lesões com como nas sem afastamento do treinamento esportivo, em ambos os sexos. Quanto à gravidade, as lesões moderadas em geral não levaram ao afastamento do esporte, como ocorreu com as mais graves.

Concluímos, portanto, que os altos riscos de lesões osteomusculares exigem maiores cuidados nos treinamentos e melhores métodos de prevenção. Assim, sugerimos:

a) Treinamento de tipo intervalado como a melhor forma para treinar a fibra do tipo IIa;

b) Melhorar o aquecimento através de alongamento, eficiente maneira de prevenção;

c) Dispensar atenção especial ao treinamento da flexibilidade, principalmente no sexo masculino, treinando essa variável de forma lenta e progressiva, respeitando sempre os limites individuais.

REFERÊNCIAS

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