A ocorrência de algumas anormalidades podais, como pé plano e pé cavo, que dentre outras características apresentam modificações do arco longitudinal plantar, podem ser facilmente verificadas através da análise dos podogramas (2,3, 6-8,12,14) . Esses, por sua vez, têm as vantagens de seu baixo custo, de não apresentarem riscos e serem de execução rápida e simples (3,7,12,14) .
Por outro lado, estudos epidemiológicos nos parecem importantes para termos noção mais precisa das dimensões daquelas alterações e também para buscar compreender melhor os fatores que possam influir no seu aparecimento, pois à medida que tais conhecimentos forem aumentando, tanto a prevenção como a terapêutica poderão ser realizadas com maior segurança.
Tendo analisado, em trabalho anterior (9) , a ocorrência de podopatologias em crianças de duas creches gratuitas e um grupo escolar da cidade de Uberaba (MG) que atendem famílias de baixa renda, decidimos realizar estudo semelhante em crianças de famílias não-carentes que freqüentam escola particular. O objetivo do presente trabalho e comparar a ocorrência de pés planos e pés cavos em crianças de populações carentes e não-carentes, através de exame clínico e análise de podograma, na tentativa de verificar a influência da condição socioeconômica no aparecimento das citadas alterações.
MATERIAL E MÉTODO
Foram estudadas 609 crianças assintomáticas, de ambos os sexos, com idades entre sete e 13 anos. Separadas por classe socioeconômica, 323 foram rotuladas como carentes e 286 como não-carentes. Ambas as classes tiveram 166 crianças do sexo feminino, sendo do sexo masculino 157 carentes e 120 não-carentes. A terminologia carente e não-carente foi escolhida por não encontrarmos denominação mais adequada. Consideramos carentes aquelas crianças provenientes de família de baixa renda e que freqüentavam creches e escolas gratuitas, enquanto as não-carentes provinham de famílias de maior poder aquisitivo estudando em colégio particular diferenciado.
Após identificaçõ e sucinta anamnese, os pés eram inspecionados e, em seguida, sob apoio monopodal, obtinhamse as impressões plantares dos dois lados. Isso foi realizado utilizando-se um pedígrafo. Trata-se de dispositivo que possibilita a obtenção do podograma, sem contato direto da tinta com a planta do pé. A interpretação desses exames obedeceu aos critéios de Viladot (13) (fig. 1). Foram considerados pés planos aqueles cujas impressões plantares apresentaram a região correspondente ao mediopé com largura igual ou maior que a metade da do antepé. Os pés cavos foram aqueles com diminuição da área da impressão plantar na sua parte média, inferior ao terço da do antepé ou com desaparecimento por completo.
Na análise estatística, foi utilizado, inicialmente, o teste do qui quadrado, com a finalidade de comparar a freqüência de pés planos e pés cavos nas classes socioeconômicas carente e não-carente e, nessas mesmas classes, a ocorrência de pés planos e pé cavos em meninos e meninas. As comparações das médias de idade entre crianças carentes e não- não abordado na literature national e estrangeira. Por outro carentes foi realizada por análise de variância. Finalmente, através do teste de Mann-Whitney, verificou-se, nas duas classes socioeconôicas estudadas e em meninos e meninas, a influência da idade na ocorrência de pés planos e pés cavos. Foram considerados significantes valores de p < 0,05.
RESULTADOS
Na análise dos podogramas das crianças com pés normais, planos e cavos, não verificamos assimetria entre os lados.
Na tabela 1, observa-se a distribuição de freqüência das crianças com pés planos e pés cavos, de acordo com os sexos masculino e feminino e se carentes ou não-carentes. Nos graficos 1 e 2, respectivamente para pés planos e pés cavos, também encontram-se as distribuições de freqüêcia das anormalidades estudadas, igualmente separadas por sexos masculino e feminino e classes socioeconômicas (carente e nãocarente), estando citados nos seus rodapés os resultados estatisticamente significantes verificados entre meninos e meninas e carentes e não-carentes.
A comparação entre as médias de idade e a distribuição da ocorrência de pés planos e pés cavos segundo a faixa etária, em criarças carentes e não-carentes, não mostraram diferenças estatisticamente significantes.
DISCUSSÃO
O presente trabalho compara a ocorrência de pés planos e pés cavos em duas classes socioeconômicas, assunto ainda lade, nossa metodologia, alicerçada na interpretação das impressões plantares, apesar de criticada por Hawes & col. (5) , é bastante empregada em estudos com os mais diversos objetivos (1,3,10,12,14) .
Verificamos que a ocorrência de pés planos foi apenas ligeiramente superior nas crianças não-carentes em relação às carentes, não sendo estatisticamente significantes as diferenças observadas, tanto quando se compararam duas amostras sem distinção de sexo, como quando se compararam meninos e meninas carentes com seus correspondentes não-carentes. Ainda em relação aos pés planos, estatisticamente significante foi a maior prevalência nos meninos em relação as meninas, nas duas classes socioeconômicas. Forriol & Pascual (3) , sem discriminarem essas classes, observaram fato semelhante em crianças espanholas.
No que se refere aos pés cavos, sua ocorrência foi muito superior no grupo não-carente em relação ao carente, tendo a análise estatística mostrado diferenças altamente significantes para meninos e meninas. Também significantes foram as diferenças entre os dois sexos nas crianças carentes, sendo o pé cavo mais freqüênte no feminino.
No presente estágio em que se encontram os conhecimentos sobre os fatores que interferem na gênese e evolução do pé plano e do pé cavo, fica difícil interpretar as diferenças estatisticamente significantes observadas por nós. É possível que hábitos de vida, como atividades lúdicas, práticas de esportes, tipos de calçados e alimentação possam estar determinando as desiguais ocorrências das citadas alterações podais entre crianças carentes e não-carentes e entre meninos e meninas. Também não se pode afastar que fatores ge -néticos (1,4) , raciais (2,6) e constitucionais (11) participem no aparecimento dessas diferenças.
2. Didia, B.C., Oma, E.T. & Obuoforibo, A.A.: The use of Footprint Contact Index II for classification on flat feet in a Nigerian population. Foot Ankle 7: 285-289, 1987.
3. Forriol, F. & Pascual, J.: Footprint analysis between three and seventeen years of age. Foot Ankle 11: 101-104, 1990.
4. Gould, N.: Evaluation of hyperpronation and pes planus in adults. Clin Orthop 181: 37-45, 1983.
5. Hawes, M.R., Nachbauer, W., Sovak, D. & Nigg, B.: Footprint parameters asa measure of arch height. Foot Ankle 13: 22-26, 1992.
6. Hung, L.K. & Leung, P.C.: Surgery of foot deformities among 166 geriatric inpatients. Foot Ankle 5: 156-164, 1985.
7. Mérida, R.M., Hernandez, M. & Matheus, M.: Pie indigena. Rev Ortop Traum Soc Venezuel 19: 7-19, 1985.
8. Morley, A.J.M.: Knock-knee in children. Br Med J 2: 976-979, 1957.
9. Prado Junior, I., Nery, C.A.S. & Bruschini, S.: Ocorrência de patologias
10. Rao, U.B. & Joseph, B.: The influence of footwear on the prevalence of
11. Smahel, Z.: Effects of body weight on the configuration of the plantar
12. Staheli, L.T., Chew, D.E. & Corbett, M.: The longitudinal arch. J Bone podálicas em crianças assintomáticas. F Med 104: 25-29, 1992. flat foot. J Bone Joint Surg [Br] 74: 525-527, 1992. arch (planimetric study ). Hum Biol 52: 447-457, 1980. Joint Surg [Am] 69: 426-428, 1987.
13. Viladot, P.A.: Dez lições de patologia do pé, São Paulo, Roca, 1986.
14. Volpon, J.B.: O pé em crescimento, segundo as impressões plantares. Rev Bras Ortop 28: 219-223, 1993.
15. Whitman, R.: Observations of forth-five cases of flat foot with particular reference to etiology and treatment. Clin Orthop 70: 4-9, 1970.