INTRODUÇÃO

O condrossarcoma é o tumor maligno primário do osso, originado de células cartilaginosas, ou seja, inexiste a formação de osteóide a partir das células neoplásicas(3). Usualmente, apresenta evolução clínica lenta, sendo o processo metastático infreqüente e, quando ocorre, o faz tardiamente. Geralmente, acomete pacientes depois da terceira década da vida e tem preferência por ossos das cinturas pélvica e escapular e dos ossos longos, particularmente fêmur e úmero(1-3, 5). Os sintomas incluem dor e o aumento de volume local.

Quanto à localização óssea, pode ser central ou periférico. Quanto à origem, pode ser primário ou secundário (lesão cartilaginosa benigna preexistente, como, por exemplo, osteocondromatose hereditária múltipla, encondromatose e, me-nos freqüentemente, a doença de Paget e a displasia fibrosa(4,7).

Radiologicamente, a lesão é geralmente lítica e pode conter pontos de calcificação intralesional e espessamento da cortical(6,8). Histologicamente, se apresenta como uma da mais difíceis ao diagnóstico para o patologista, pois o critério de diferenciação entre o condrossarcoma de baixo grau e o condroma é incerto(1,2,6).

Classificação

1) Central (convencional);

2) Desdiferenciado;

3) Justacortical;

4) Mesenquimal;

5) Células claras.

MATERIAL E MÉTODOS

De 1953 a 1995, 149 pacientes portadores de condrossarcoma foram admitidos no Hospital A.C. Camargo de São Paulo. A localização mais freqüente foi a cintura pélvica (56 pacientes - 37,5%), seguida do fêmur (26 pacientes - 17,4%), cintura escapular (25 pacientes - 16,7%), tíbia (quatro pacientes - 2,6%) e outras localizações (38 pacientes - 25,5%) (tabela 1).

Dos 149 pacientes, 93 eram do sexo masculino (64,2%) e 56, do feminino (37,6%); 121 (81,2%) eram da raça branca, 25 (16,7%) da negra e três (2,0%), da amarela (tabela 2). A faixa etária variou de 10 a 95 anos, com a média de idade de 45,6 anos; 128 (85,9%) eram pacientes acima de 20 anos de idade.

RESULTADOS

Dos 149 pacientes estudados nos últimos 42 anos, 119 tiveram proposta de tratamento cirúrgico, dos quais 58 (48,7%) foram cirurgias ablativas e 61 (51,3%), preservadoras. Trinta pacientes (17,4%) não aceitaram tratamento cirúrgico. Desses 30 pacientes, 26 (86,6%) apresentaram metástase pulmonar e evoluíram para óbito. Um paciente era portador do vírus HIV e foi perdido de vista. Mais três pacientes também não foram localizados.

Dos 149 pacientes, 71 (47,6%) evoluíram para óbito; oito (11,2%) desses óbitos não estavam relacionados com a doença e 63 (88,8%) estavam; 58 (38,9%) permaneceram vivos e 20 (13,4%) foram perdidos de vista (tabela 3).

Um fato a ser salientado é que a partir de 1988, com o estabelecimento de novos protocolos, abordagem multidisciplinar, conhecimento e desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas, houve melhora no prognóstico dos pacientes, já que nas primeiras três décadas estudadas a taxa de sobrevida era de 26,7%, com taxa de óbito em torno de 73,3%. De 1988 a 1995 foram tratados 43 pacientes; 26 (60,4%) foram submetidos a cirurgias ablativas, 15 (34,8%) a cirurgias preservadoras e dois (4,6%) a tratamento clínico (uma quimioterapia e uma radioterapia). Ocorreram 11 (25,5%) óbitos por doença; 26 (58,7%) permanecem vivos; seis (12,2%) com doença e 20 (46,5%) sem doença. Seis (13,9%) foram perdidos de vista (tabelas 4 e 5).

DISCUSSÃO

O tratamento do condrossarcoma é essencialmente cirúrgico. O objetivo principal é a ressecção em bloco do tumor com margens cirúrgicas livres, seja ela preservadora ou ablativa. De acordo com seu grau de diferenciação e graduação histológica, existem novos protocolos que propõem quimioterapia, especialmente no condrossarcoma desdiferenciado e condrossarcoma de grau III. A radioterapia, atualmente, raramente é indicada.

Coincidindo com a literatura, a maioria dos pacientes estava acima da terceira década da vida. A taxa de cirurgias ablativas foi alta (48,7%), já que recebíamos e continuamos a receber, ainda nos dias atuais, casos com tumores volumosos, ou malmanipulados anteriormente, que não nos possibilitaram outra alternativa. Nas três primeiras décadas estudadas, observamos que a taxa de óbito foi em torno de 73,3% e nas duas últimas décadas, de 25,5%.

Essa melhora na sobrevida se deve a fatores como: melhor conhecimento da história natural da doença, planejamento das biópsias e conseqüentemente das cirurgias, melhor estadiamento da doença, avanço dos métodos de imagem, abandono de técnicas que apresentaram maus resultados e diagnóstico precoce.

Graças ao pioneirismo de nossos cirurgiões - que nas três primeiras décadas deste estudo certamente recebiam pacientes em pior estado, sem as condições tecnológicas que temos hoje - que nos possibilitou evoluir no estudo desta doença, concluímos, reforçando o que a literatura mundial cita, que o tratamento do condrossarcoma é essencialmente cirúrgico.

REFERÊNCIAS

1. Erlandson, R.A. & Huvos, A.G.: Chondrosarcoma: a light and electron microscopic study. Cancer 34: 1642-1652, 1974.

2. Helio, H., Karahayu, E., Bohling, T. et al: Chondrosarcoma of bone. A clinical and DNA flow cytometric study. Eur J Surg Oncol 21: 408-413, 1995.

3. Henderson, E.D. & Dahlin, D.C.: Chondrosarcoma of bone - a study of two hundred and eight-eight cases. J Bone Joint Surg [Am] 45: 1450- 1458, 1963.

4. Karbowski, A., Eckardt, A. & Rompe, J.D.: Multiple cartilaginous exostoses. Orthopaedic 24: 37-43, 1995.

5. Lewis, M.M.: Musculoskeletal oncology - A multidisciplinar approach, W.B. Saunders, 1992. p. 40-43.

6. Mercuri, M., Picci, P., Campanacci, L. et al: Dedifferentiated chondrosarcoma. Skeletal Radiol 24: 409-416, 1995.

7. Unni, K.K.: Dahlin's bone tumors general aspects and data on 11.087 cases, 5th ed., Lippincott-Haven, p. 71-80, 92-98.

8. Young, C.L., Sin, F.H., Unni, K.K. et al: Case report 559: chondrosarcoma of proximal humeral epiphysis. Skeletal Radiol 18: 403-405, 1989.