O tumor de células gigantes (TCG) compreende cerca de 4% de todos os tumores ósseos primários(2,11,16) e representa aproximadamente 10% dos casos que acometem o rádio distal, sendo a localização mais freqüente após o fêmur distal e tíbia proximal(2,7,9,14,17). A evolução do TCG é a mais difícil de prever entre todas as lesões ósseas tumorais. A literatura enfatiza a dificuldade em associar a graduação histológica com o tipo radiográfico do tumor e, assim, estabelecer uma linha de conduta baseada nos achados histológicos que sirvam de orientação para um procedimento mais adequado no tratamento (2-4,20-22).
Vários métodos foram e têm sido empregados no tratamento do TCG no rádio distal. Atualmente, o tratamento de preferência tem sido a ressecção marginal ou ampla com preenchimento da cavidade com metilmetacrilato(2,18,23), curetagem seguida de eletrocauterização mais enxerto ósseo(1) ou reconstrução local utilizando-se enxerto livre ou vascularizado autólogo de tíbia, fíbula ou crista ilíaca ou homoenxerto(5,10,13,15,16,19,24).
O presente estudo tem por objetivo analisar os resultados clínicos, histopatológicos e radiográficos obtidos com a ressecção marginal ou ampla do terço distal do rádio acometidos por TCG e reconstrução esquelética com enxerto osteoarticular livre autólogo de fíbula proximal.

MATERIAL E MÉTODOS
Foram estudados todos os pacientes portadores de tumor de células gigantes no rádio distal (figuras 2 e 3) e submetidos a ressecção marginal ou ampla e reconstrução esquelética com enxerto livre osteoarticular de fíbula proximal no Grupo de Tumores Músculo-esqueléticos do Setor de Oncologia do Hospital Santa Rita de Cássia no período compreendido entre 1990 e 1996, totalizando seis casos.
O protocolo referiu informações pertinentes aos dados de anamnese, exames clínicos e de imagem obtidos através de consulta aos prontuários e que se enquadraram nos critérios radiografia com estabelecidos para a inclusão neste estudo.
Todos os pacientes foram submetidos a biópsia percutâ mostrando tumor nea prévia com agulha de Jamshide. O exame anatomopato de células gigantes em rádiológico seguiu a classificação de Jaffe et al.(12) em graus I, II e distal.
O estudo radiográfico baseou-se na classificação de Campanacci et al.(3), que visa analisar a agressividade local do 3 que mostravam destruição de duas ou mais corticais ósseas TCG. Divide-se em três graus: grau 1 - o tumor tem borda e comprometimento da cartilagem articular adjacente.

O critério de avaliação dos resultados foi baseado no estatem margens relativamente bem definidas e cortical modera-diamento funcional de Enneking(8), adotado pela Musculoskedamente expandida; grau 3 - as bordas do tumor não são letal Tumor Society, considerados em excelente, bom, regudelimitadas, caracterizando crescimento rápido, com ruptu-lar e mau, de acordo com as variáveis: movimento articular, ra da cortical e invasão das partes moles. Foram seleciona-dor, estabilidade, força e aceitação pelo paciente. O resultados para o tratamento os casos com os tipos radiográficos 2 e do é considerado excelente quando o paciente não apresentador, tem função normal, podendo retornar às atividades com mínimas limitações e ótima aceitação.

O resultado é bom quando há redução da amplitude de movimento articular ou dor esporádica, porém permitindo retornar à maior parte das atividades com boa aceitação pelo paciente. Considera-se resultado regular quando há maior grau de limitação do movimento articular, há necessidade de alguma órtese e não há condições de retornar às atividades pré-operatórias. O resultado é mau quando há rigidez, instabilidade articular, dores freqüentes, má aceitação pelo paciente, recorrência do tumor, amputação, fratura ou infecção.
TÉCNICA CIRÚRGICA
A cirurgia inicia-se com a retirada do enxerto livre osteoarticular de fíbula proximal ipsilateral ao punho acometido. Após insuflado o garrote pneumático na raiz da coxa, reali-za-se incisão póstero-lateral longitudinal sobre o terço proximal da fíbula. O nervo ciático poplíteo externo é identificado, dissecado e protegido. Através de dissecção romba no plano entre a cabeça lateral do gastrocnêmio e o solear, a cápsula posterior do joelho é exposta. Desinsere-se a origem fibular do músculo solear, do fibular longo, dos extensores longos dos dedos e a membrana interóssea no sentido distal à cabeça da fíbula em extensão previamente medida no exame radiográfico para o preenchimento da falha óssea do rádio envolvido. O músculo bíceps femoral e o ligamento co-lateral lateral (LCL) do joelho são seccionados próximo à base de sua inserção, preservando-se cerca de 2 a 3mm de coto distal para que sirvam de ancoragem aos ligamentos radiocarpais; eles serão suturados posteriormente. Procedese à desarticulação da articulação tibiofibular proximal sec-cionando-se a origem dos ligamentos anterior e posterior da cabeça fibular e parte do ligamento arqueado e cápsula articular. Faz-se então a osteotomia da fíbula proximal no comprimento preestabelecido com uma serra de Gigli. Perfurase um pequeno túnel ósseo abaixo do platô tibial, justarticular à articulação tibiofibular proximal, introduz-se o coto distal do LCL e sutura-se o mesmo ao periósteo da tíbia. Reali-za-se o fechamento da cavidade por planos após hemostasia adequada.
A abordagem cirúrgica do rádio distal inicia-se, após insuflado garrote pneumático na raiz do braço, com incisão póstero-lateral longitudinal. A abordagem deve proporcionar a exérese de todo o trajeto da biópsia. Expõe-se amplamente a região e protege-se o campo cirúrgico com compressas fixadas em suas bordas para evitar a contaminação das partes moles. A dissecção proximal da musculatura do antebraço deve ser delicada e subperiosteal. Realiza-se a osteotomia do rádio com serra de Gigli e continua-se a dissecção no sentido distal, respeitando a margem oncológica através de tecido sadio. O músculo pronador quadrado é seccionado na sua origem e a seguir é feita a secção proximal dos ligamentos radiocarpais, ressecando assim o rádio acometido. Em somente um caso houve a necessidade de complementação com ressecção da primeira fileira carpal, que se mostrava envolvida pelo tumor. Realiza-se então a lavagem da cavidade cirúrgica com solução fisiológica e a fixação do enxerto fibular ao rádio. É necessário que o comprimento da fíbula proporcione sustentação adequada do carpo sem que haja compressão excessiva ao nível desta neo-articulação. A superfície articular da cabeça fibular posiciona-se sob o escafóide, não devendo ocorrer subluxação dorsal ou volar do carpo. Suturam-se os ligamentos radiocarpais aos ligamentos da fíbula proximal preservados durante sua retirada. A osteossíntese entre o enxerto de fíbula e o rádio é feita com placa de compressão dinâmica (figura 1) e fixação complementar entre a fíbula e a ulna com um fio de Kirschner transfixado transversalmente (figura 4). Realiza-se o fechamento da incisão cirúrgica por planos e hemostasia criteriosa após desinsuflado o garrote pneumático. Em todos os pacientes foram utilizados drenos de sucção.
O fio de Kirschner é retirado entre a quarta e sexta semana pós-operatória.
Todos os pacientes foram imobilizados com aparelho gessado axilopalmar por um período de seis a oito semanas, se-guido de aparelho gessado ou imobilizador antebraquiopalmar por até seis meses. Em todos os casos foram feitas radiografias de controle pós-operatório periódicas (figuras 5 e 6).

RESULTADOS
A distribuição das variáveis selecionadas que permitem caracterizar a presente série encontra-se na tabela 1. Todos os pacientes eram virgens de tratamento anterior e a admissão em nosso serviço foi por queixa de dor e presença de massa tumoral no punho, não sendo registrado nenhum caso de fratura patológica.
A idade dos pacientes variou de 22 a 60 anos, com média de 34,2 anos; com relação ao sexo, cinco eram mulheres e um, homem.

O estadiamento histológico evidenciou cinco casos que se enquadraram como grau II e um caso como grau III. Este último caso evoluiu sem intercorrências e não foi submetido a outros tratamentos adjuvantes.
Os pacientes foram cuidadosamente acompanhados desde a cirurgia até a presente data e o tempo de seguimento variou de 8 a 77 meses, com média de 43,0 meses.
Em cinco casos o suficiente aporte biomecânico foi conseguido com uma única cirurgia. O caso nº 1 necessitou de uma segunda, por soltura do material de implante e pseudartrose no foco de osteossíntese, evoluindo com quadro álgico e mão torta radial. Essa paciente foi submetida a encurtamento da ulna ipsilateral com enxertia no foco da pseudartrose com enxerto intercalar diafisário de ulna e nova osteossíntese com placa e parafuso, o que proporcionou a correção da deformidade e alívio de suas dores. Está no quarto mês pós-operatório e até o momento não houve integração do segundo enxerto; a paciente faz uso de um imobilizador de punho e consegue realizar atividade física leve sem queixas.

As principais complicações não relacionadas à integração do enxerto ósseo foram a subluxação fibulocarpal dorsal no caso nº 5, diástase fibuloulnar de 9mm no caso nº 6 e degeneração articular fibulocarpal no caso nº 2.
O resultado funcional foi excelente e bom em quatro (66,6%) casos (figuras 7, 8, 9 e 10); regular em um caso e ruim em um caso. O membro dominante foi acometido em três pacientes.
Em cinco pacientes observou-se a integração do enxerto ósseo no foco da osteossíntese, que ocorreu entre 6 e 12 meses do pós-operatório, com média de 8 meses. Em nosso estudo, o comprimento do enxerto utilizado foi de 5,7cm a 9,0cm, com média de 6,7cm.
Não foram registradas complicações na área doadora do enxerto autólogo e nem sinais de instabilidade articular dos joelhos.

Todos os pacientes estavam livres de doença até a última consulta.
DISCUSSÃO
Os nossos dados e os da literatura levam-nos a crer que o estadiamento radiográfico da lesão é mais importante para a previsão da evolução de cada caso do que sua graduação histológica, indicando tratamentos progressivamente mais agressivos com ou sem adjuvante para evitar a recidiva. Contudo, a escolha da melhor forma de tratamento ainda é motivo de discussão.
Muitos métodos de tratamento têm sido propostos para o tumor de células gigantes do rádio distal, mas nos casos nos quais há destruição de duas ou mais corticais ósseas e comprometimento da cartilagem articular adjacente, em que é necessária ressecção em bloco, as soluções biológicas autólogas com enxerto osteoarticular proximal de fíbula e enxerto corticoesponjoso de tíbia proximal e de ilíaco sugerem ser (5,13-17,19,24). Todos apresentam um potencial de complicações inerentes ao emprego de um grande fragmento de osso maciço avascular para reconstrução óssea em região do antebraço também com pobre vascularização. Complicações como retarde de consolidação, pseudartrose, reabsorção do enxerto e deformidades têm sido registradas freqüentemente. No entanto, não devem demover dos cirurgiões o estímulo de usufruir desses procedimentos quando há indicação para tal, pois os resultados funcionais são notoriamente satisfatórios.
Em nosso trabalho, o uso de enxerto livre osteoarticular autólogo de fíbula proximal em rádio distal permitiu ao cirurgião abordagem agressiva na ressecção da lesão e, ao mesmo tempo, reconstrução do rádio com déficit mínimo da mobilidade articular do punho, proporcionando retorno às atividades cotidianas de forma gradativa após aproximadamente três meses do pós-operatório, com o uso de uma órtese. O tempo de integração do enxerto no foco da “anastomose” óssea ocorreu, em nossa casuística, em média aos oito meses do pós-operatório.
Durante a fixação da fíbula distal ao carpo é importante a reconstrução ligamentar e observar se a fixação proporcionou sustentação adequada aos ossos do carpo e se não há sinais de subluxação volar ou dorsal. Presumiu-se também que a estabilidade articular fosse estabelecida pela fibrose que se formaria no local pelo tempo de imobilização prolongado com um aparelho gessado axilopalmar e antebraquiopalmar.
Espera-se que a relativa incongruência articular fibulocarpal provavelmente leve a alterações degenerativas a médio e longo prazo. Entretanto, nos casos 3 e 6 seguidos por 23 e 31 meses, respectivamente, o punho permanecia indolor, funcionalmente estável e com boa mobilidade articular na última avaliação. Embora o resultado funcional a curto e médio prazo possa ser considerado bom, a longo prazo ele deve ser ainda determinado.
As complicações observadas no estudo ocorreram somente nos indivíduos que exerciam atividades braçais exaustivas e vigorosas. Através da experiência adquirida com esses ca-sos recomendamos que essa técnica seja indicada em pacientes que exerçam atividades manuais leves; do contrário, acreditamos que a complementação cirúrgica com artrodese fibulocarpal seja a melhor opção.
A utilização de homoenxertos de banco tem mostrado inconvenientes; em geral, lenta revascularização e consolidação, precoce deterioração articular, incorporação incompleta do enxerto e potencial reação imunológica ao enxerto. Por essas razões, sempre que possível, deve ser preferido o emprego de soluções biológicas com enxerto autólogo, vascularizado ou não.
Achamos que o tipo de tratamento por nós instituido é uma boa opção terapêutica nos tumores de células gigantes do terço distal do rádio em que haja destruição de duas ou mais corticais e se pretenda preservar a mobilidade articular.
2. Camargo, O.P.: Tratamento cirúrgico do tumor de células gigantes através da ressecção marginal e colocação de metilmetacrilato, Tese (Livre-Docência), Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994. 86p.
3. Campanacci, M., Baldini, N., Boriani, S. et al: Giant-cell tumor of bone. J Bone Joint Surg [Am] 69: 106-114, 1987.
4. Campanacci, M., Giunti, A. & Olmi, R.: Giant-cell tumours of bone. A study of 209 cases with long-term follow-up in 130. Ital J Orthop Traumatol 1: 249-277, 1975.
5. Campbell, C.J. & Akbarnia, B.A.: Giant-cell tumor of the radius treated by massive resection and tibial bone graft. J Bone Joint Surg [Am] 57: 982-986, 1975.
6. Dahlin, D.C.: Giant cell tumor of bone: highlights of 407 cases. AJR 144: 955-960, 1985.
7. Dahlin, D.C., Cupps, R.E. & Johnson, E.W.: Giant-cell tumor: a study of 195 cases. Cancer 25: 1061-1070, 1970.
8. Enneking, W.F.: “A system for the functional evaluation of the surgical management of musculoskeletal tumors”, in Limb salvage in musculoskeletal oncology, New York, Churchill Livingstone, 1987. p. 5-16.
9. Goldemberg, R.R., Campbell, C.J. & Bonfiglio, M.: Giant-cell tumor of bone. An analysis of two hundred and eighteen cases. J Bone Joint Surg [Am] 52: 619-664, 1970.
10. Griend, R.A.V. & Funderburk, C.H.: The treatment of giant-cell tumors of the distal part of the radius. J Bone Joint Surg [Am] 75: 899-908, 1993.
11. Huter, R.V.P., Worcester Jr, J.N., Francis, K.C. et al: Benign and malignant giant cell tumors of bone. A clinicopathological analysis of the natural history of the disease. Cancer 15: 653-690, 1962.
12. Jaffe, H.L., Lichtenstein, L. & Portis, R.B.: Giant-cell tumor of bone: its pathologic appearance, grading, supposed variants and treatment. Arch Pathol 30: 993-1031, 1940.
13. Lackman, R.D., McDonald, D.J., Beckenbaugh, R.D. et al: Fibular reconstruction for giant cell tumor of the distal radius. Clin Orthop 218: 232-238, 1987.
14. Lawson, T.L: Fibular transplant for osteoclastoma of the radius. J Bone Joint Surg [Br] 34: 74-75, 1952.
15. Leung, P.C. & Chan, K.T.: Giant cell tumor of the distal end of the radius treated by resection and free vascularized iliac crest graft. Clin Orthop 202: 232-236, 1986.
16. Murray, J.A. & Schlafly, B.: Giant-cell tumors in the distal end of the radius. Treatment by resection and fibular autograft interpositional ar- throdesis. J Bone Joint Surg [Am] 68: 687-694, 1986.
17. Parrish, F.F.: Treatment of bone tumors by total excision and replace- ment with massive autologous and homologous grafts. J Bone Joint Surg [Am] 48: 968-990, 1966.
18. Persson, B.M., Ekelund, L., Lovdahl, R. et al: Favourable results of ac- rilyc cementation for giant cell tumors. Acta Orthop Scand 55: 209- 214, 1984.
19. Pho, R.W.H.: Malignant giant-cell tumor of the distal end of the radius treated by a free vascularized fibular transplant. J Bone Joint Surg [Am] 63: 877-884, 1981.
20. Present D., Bertoni, F. & Enneking, W.F.: The correlation between the radiologic staging studies and histopathologic findings in aggressive stage 3 giant cell tumor of bone. Cancer 57: 237-244, 1986.
21. Present, D. A., Bertoni, F., Springfield, D. et al: Giant cell tumor of bone with pulmonary and lymph node metastases. Clin Orthop 209: 286-291, 1986.
22. Rock, M.G., Pritchard, D.J. & Unni, K.K.: Metastases from histologi- cally benign giant-cell tumor of bone. J Bone Joint Surg [Am] 66: 269- 274, 1894.
23. Rooney, R.J., Asirvatham, R., Lifeso, R.M. et al: Giant cell tumors of bone. A surgical approach to grade III tumors. Int Orthop 17: 87-92, 1993.
24. Smith, R.J. & Mankin, H.J.: Allograft replacement of distal radius for giant cell tumor. J Hand Surg 2: 299-308, 1977.