a Departamento de Ortopedia, Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP,Brasil
c Instituto de Ortopedia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
d Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil
Introdução
A atividade física vem aumentando sua relevância na áreade saúde, justificada pelo grande número de evidências deque sua prática regular exerce efeitos benéficos sobre a pes-soa, como fator de melhoria da saúde e maior qualidade devida. Sabe-se que a prática regular de corrida está associadaà melhoria dos níveis glicêmicos, da concentração do coleste-rol e de suas frações e do percentual de massa magra e óssea,dentre outros benefícios.
Todavia, a prática da atividade esportiva expõe o indiví-duo às lesões físicas, por vezes até maiores do que as lesõesem trabalhadores que exercem movimentos repetitivos, comoacontece, por exemplo, com jogadores de futebol, que deixamo atleta afastado por alguns dias.2Bennell e Crossley3demons-traram que a feitura de exercícios de maneira exaustiva, semorientação ou de forma inadequada pode contribuir para oaumento de lesões.
A prática de corrida pode acarretar lesões principalmenteem joelhos, tornozelos e pés em até 83% dos atletas amadoresou competitivos e prejudicar sua qualidade de vida, seja deforma temporária ou definitiva.
Algumas pesquisas têm procurado determinar a epide-miologia das lesões nos esportes para adequar a indicaçãoda prática esportiva mais segura para uma determinadapopulação e desenvolver estratégias de prevenção de lesões.Índice de massa corpórea aumentado, presença de lesãoprévia, uso de calçados com salto inadequadamente bai-xos ou inadequados, queda do navicular em mulheres têmsido encontrados como fatores preditores de lesões emcorridas.
A definição clássica de lesão foi apresentada por Dvorake Junge:10lesão é um evento ocorrido durante um treino (oujogo) que tenha causado no atleta uma falta no próximo treino(ou jogo). Nesse caso, a lesão é posteriormente seguida poruma investigação para diagnóstico anatômico e tratamento.
A classificação das lesões quanto à gravidade é baseada notempo de ausência da prática esportiva. É aceito como leve oafastamento entre um e sete dias, moderado entre oito e 28dias e grave maior do que 28 dias.
O objetivo deste estudo foi o de verificar a frequência e agravidade das lesões que acometem os indivíduos praticantesamadores de corrida.
Materiais e métodos
O estudo foi aprovado pelo comitê de ética médica sob número20817613.8.0000.5481 e aprovação número 407.082 e feito por meio de questionário aplicado aos indivíduos frequentadoresde um parque público e que tem uma pista de corrida cimen-tada e outra irregular com pedriscos.
Foram incluídos no estudo indivíduos adultos, amadores,praticantes de corrida, e excluídos indivíduos menores de 18anos.
Por meio do questionário foram coletados os seguintesdados: idade, sexo, grau de escolaridade, número de treinospor semana e duração média semanal, tempo de prática decorrida, ocorrência ou não de lesão durante a prática, topo-grafia da lesão, necessidade e tempo de afastamento.
A gravidade das lesões foi classificada, segundo Carteret al.,12pelo tempo de afastamento após o trauma, referidopelo atleta entrevistado em leve (um a sete dias), moderado(oito a 28 dias) e grave (maior do que 28 dias).
Resultados
Foram entrevistados 204 atletas amadores, 117 (57,4%) do sexomasculino e 87 (42,6%) do feminino, com média de 32,6 ± 9,3anos e variação de 18 a 68 anos.
Nenhum dos entrevistados era analfabeto, 11 (5,4%) tinhamensino médio incompleto, 35 (17,1%) ensino médio completo,78 (38,3%) superior incompleto e 80 (39,2%) superior completo.
Os atletas referiram prática de corrida duas vezes nasemana em 22,6% (46) dos casos, de três a cinco vezes nasemana em 65,6% dos casos (134) e mais de cinco vezes nasemana em 11,8% (24). Em 32,5% (66) dos atletas os treinoseram diários, com duração menor de uma hora e trinta minu-tos; com duração entre uma hora e trinta minutos até trêshoras representaram 53,8% (110); e mais de três horas 13,7%dos casos (28). Dentre os entrevistados 36 (17,7%) treinavamhavia menos de seis meses, 47 (23%) entre seis meses e umano e 121 (59,3%) praticavam a corrida havia mais de um ano.
Um ou mais tipos de lesões decorrentes do esporte foraminformadas por 85 (41,6%) atletas. O atrito do pé com o calçado,torção e queda ao solo foram os mecanismos mais relatadoscomo responsáveis por essas lesões.
A tabela 1 apresenta a distribuição das lesões segundo afaixa etária dos atletas.
Após o início da prática de corrida, 71 atletas referiramter sofrido apenas um tipo de lesão, 32 referiram dois tiposde lesões, cinco referiram três tipos de lesões e um referiuquatro tipos de lesões, total de 151 lesões em 85 atletas, quecorrespondeu à média de 1,8 lesão por atleta. Em relação aodiagnóstico, encontramos maior frequência de entorses depé e tornozelo, afecções bolhosas e escoriações. A tabela 2
apresenta os tipos de lesões decorrentes do esporte informa-das pelos atletas.
Quanto à localização anatômica das lesões, essas ocor-reram nos membros inferiores (78,9%), membros superiores(18,54%) e cabeça (2,6%), com predomínio de lesões nos pés etornozelos (40,3%). A tabela 3 apresenta a localização anatô-mica dessas lesões.
Em relação ao grau das lesões, dos 85 corredores queapresentaram algum tipo de lesão 19 (22,3%) tiveram lesõesclassificadas como graves e permaneceram, portanto, mais doque 28 dias afastados da prática de corrida. Dois desses atletasapresentaram fraturas, uma de punho e outra de tornozelo,14 apresentaram entorses de pé e tornozelo e três tiveramluxação de quadril. Lesões moderadas, com afastamento daprática de corrida entre oito e 28 dias foram encontradas em26 atletas. A maioria apresentou lesões leves com afastamentoinferior a oito dias. A tabela 4 apresenta o grau de gravidadedas lesões.
Discussão
A participação popular em corridas de rua tem aumentadosignificativamente em nosso meio e aqueles indivíduos comatividade de treinamento moderado regular podem ser cha-mados de corredores amadores. A prática da corrida regulartraz uma série de benefícios físicos e mentais aos praticantes,porém lesões relacionadas à corrida são comuns em corre-dores amadores e variam entre 14 e 50% ao ano.11,13-15Essaslesões parecem ter múltiplas causas, tais como idade, sexo,experiência, aptidão, condições climáticas, uso de calçadoapropriado, tipo de pisada, tipo do solo, excesso de uso, entreoutras.
Este estudo confirma que a incidência dessas lesões é alta.Em revisão sistemática sobre incidência de lesões em mem-bros inferiores em corredores em longa distância, van Gentet al.6verificaram que lesões nos membros inferiores variaramde 26 a 92,4%.
A distribuição das lesões por sexo, no presente estudo, con-diz com os dados encontrados na literatura, que mostrampredomínio no sexo masculino,13embora outros estudos nãotenham encontrado essa diferença.
Corredores entre 18 e 30 anos sofreram mais lesões doque os mais velhos, em discordância com outros estudos queencontraram mais lesões em corredores entre 30 e 45 anos.
O presente estudo mostrou predominância de lesões nosmembros inferiores. O joelho, tornozelo e pé foram as regiõestopográficas mais acometidas.
Estudos feitos em praticantes de corrida de longa distân-cia, com mais 5 km por treino, relatam frequência de lesõesem joelhos com variação entre 7,2 e 50%, lesões na pernaentre 9 e 32,2%, lesões de pé entre 5,7 e 39,3%, lesões de coxaentre 3,4 e 38,1%, tornozelo entre 3,9 e 16,6% e quadril entre3,3 e 11,5%.6Lun et al.17verificaram em praticantes de cor-rida recreacionais 79% de lesões após seis meses de treinos,com frequência média de três treinos por semana. A maiorfrequência de lesões em joelhos foi entre homens, enquantomais lesões nos pés foram encontradas em mulheres.
Os tipos de lesões mais comuns reportadas no presenteestudo foram lesões de pele, bolhosas e escoriações seguidas de entorses. Sabe-se que lesões de pele e entorses são encon-tradas frequentemente em praticantes de corrida, além decãimbras, hematomas e entorses de tornozelo,6embora outrosestudos tenham encontrado predomínio de tendinopatias ede lesões musculares entre corredores em maratonas de SãoPaulo.
Observou-se também que a grande maioria dos atletasentrevistados teve lesões leves, com afastamento de até oitodias da prática esportiva. Isso mostra que a corrida, por ser umesporte sem contato físico direto, leva a lesões menos gravesquando comparada com outros esportes nos quais o contatofísico é mais comum, como futebol.
Por se tratar de um estudo baseado em entrevista, um fatorlimitante é que não foi analisado o índice de massa corpórea,o tipo de calçado usado e o tipo de pisada, que poderiam terinfluenciado nos resultados.
Conclusões
A prática de corrida pode acarretar um alto número de lesõesnos joelhos, pés e tornozelos em seus praticantes, como entor-ses, lesões bolhosas e escoriações, porém na maioria sãoclassificadas como leves, com rápido retorno à prática espor-tiva.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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