a Departamento de Ortopedia, Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP,Brasil
c Instituto de Ortopedia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
d Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil
Introdução
As lesões do manguito rotador (LMR) são uma fonte significa-tiva de dor e disfunção do ombro.1Ocorrem principalmenteem pacientes ao redor dos 40-60 anos e podem ser de origemtraumática ou degenerativa.
Apesar da vasta quantidade de publicações sobre essetema, não encontramos, na literatura nacional, um consensosobre o assunto.
A elevada incidência dessa lesão e a grande importânciados aspectos sociais e econômicos relacionados, associadasà divergência existente na literatura sobre o assunto, tornamde extrema relevância a avaliação das condutas e tendênciasexistentes no país sobre o tema.
O objetivo deste estudo é avaliar as condutas e os pro-cedimentos feitos pelos cirurgiões ortopédicos do Brasil notratamento e na reabilitação das lesões do manguito rotadordo ombro. A partir dos resultados deste estudo poderemosdelimitar as tendências nacionais sobre o assunto, bem comoorientar futuros estudos de qualidade.
Materiais e métodos
Estudo do tipo descritivo com aplicação de questionário a umaamostra de cirurgiões ortopédicos do Brasil. O questionário foielaborado e aprovado pelos autores de maneira que estivessebastante compreensivo e simples. Consistia de 16 questõesfechadas que abordavam tópicos como os anos de experiên-cia e número anual de procedimentos cirúrgicos feitos peloscirurgiões e diversos aspectos relacionados ao tratamento e àreabilitação das lesões do manguito rotador do ombro (anexo1). O questionário foi aplicado a cirurgiões ortopédicos duranteos três dias do 45?Congresso Brasileiro de Ortopedia e Trau-matologia de 2013. Somente ortopedistas que faziam cirurgiaspreencheram o questionário. Foram preenchidos 207 questi-onários, mas cinco estavam incompletos e foram excluídos.Total de 202 questionários. Para resolver eventuais dúvidas durante o preenchimento, dois pesquisadores estiveram pre-sentes durante todo o período de aplicação dos questionários.
A partir dos dados retirados do questionário foi feita esta-tística descritiva das variáveis envolvidas para caracterizaçãoda amostra.
Os dados foram analisados no programa SPSS for Windowsversão 16.0 e uma significância de 5% foi adotada.
Resultados
A distribuição dos cirurgiões em função da região de origeme anos de experiência encontra-se na tabela 1, aproximada-mente 62% dos cirurgiões eram da Região Sudeste, 38,7% eramespecialistas em cirurgia do ombro e cotovelo. Com relaçãoao número de reparos anuais do manguito rotador, 21% doscirurgiões fazem mais de 60. Nesse caso nota-se uma relaçãodireta e estatisticamente relevante entre número de reparose o tempo de experiência em ortopedia e especialidade emcirurgia do ombro e cotovelo (p < 0,001) (tabela 1).
Quando perguntados sobre o tipo de reparo feito, 50%usam âncoras em configuração de fileira simples e 26% emfileira dupla. Encontramos relação estatisticamente signifi-cativa entre configuração do reparo (fileira simples) e tipode técnica (artroscópica) com a especialidade em cirurgia doombro e cotovelo (p < 0,05) (tabela 2).
Os cirurgiões de ombro concordam com relação ao tempode imobilização pós-operatória (três a seis semanas) e comtempo de retorno ao esporte (> seis meses). Ambos comdiferença significativa quando comparados com as outrasespecialidades (tabela 3).
Na definição de lesões irreparáveis, os especialistas emombro usam com maior frequência o grau de infiltração gor-durosa do que as outras especialidades (p < 0,01) (tabela 4).
Por fim, os cirurgiões de ombro indicam o tratamento cirúr-gico mais precocemente, tanto em lesões traumáticas quantoem lesões degenerativas, do que os especialistas de outrasáreas (p < 0,01) (tabelas 5 e 6).
Os resultados quanto ao material das âncoras usadas(tabela 7) e aos tipos de complicações mais frequentes nãoforam estatisticamente significativos. (tabela 8).
Discussão
A incidência de lesões completas do manguito rotador variaentre 5% e 40%. Estudos epidemiológicos relacionam oaumento da frequência das lesões com o avançar da idade.As lesões sintomáticas do manguito rotador são comunsdurante a prática clínica diária. De acordo com Dias et al.,1é a afecção mais frequente causadora de dor durante as ativi-dades cotidianas e tem maior prevalência em mulheres e nolado dominante. Conforme revisão sistemática publicada em2004 por Ejnisman et al.,2não existem estudos com alto nívelde evidência que demonstrem qual a melhor conduta a sertomada nas lesões do manguito rotador.
Da mesma maneira, não existe um padrão de abordagemusado pelos ortopedistas brasileiros. Esse estudo, de maneirainédita, propõe-se a mostrar como é a conduta dos ortope-distas membros da Sbot frente a essa lesão. A amostra érepresentada em sua maior parte de ortopedistas que atuamna Região Sudeste, o que demonstra o retrato de nosso país,em que não faltam profissionais, mas no qual há uma mádistribuição de médicos entre as diversas regiões.
Conforme os dados obtidos, pode-se perceber que quantomais especializado na área (cirurgia do ombro e cotovelo) equanto mais experiente é o cirurgião, maior é o número dereparos feitos. Os especialistas na área indicam o tratamento
cirúrgico de maneira mais precoce independentemente da eti-ologia da lesão (traumática ou degenerativa). Esse fato podeser explicado porque em nossa amostra os cirurgiões definemcomo lesão irreparável conforme o grau de infiltração gordu-rosa, e não devido ao tamanho da lesão, o que demonstra apreocupação com o caráter evolutivo da lesão.
Atualmente não existem estudos com alto nível de evidên-cia em que se comprove a superioridade da dupla fileira emrelação à fileira única, principalmente por meio de avaliaçõesclínicas feitas por escalas funcionais (Ucla, Dash, Constant,Ases).3-9Entretanto, os dois últimos artigos descrevem umavantagem biomecânica da fixação e melhor restabelecimentoda força muscular nos pacientes submetidos ao reparo pormeio da dupla fileira em relação à fileira simples, respec-tivamente. Embora não exista uma superioridade funcionalda dupla fileira em relação à fileira única, o primeiro pro-cedimento requer uma maior habilidade e experiência docirurgião para fazê-lo. Entretanto, não houve em nossa amos-tra correlação estatística entre o tipo de reparo feito e o graude experiência ou nível de especialização do cirurgião, porémdemonstra a preferência atual do especialista em cirurgia doombro pela técnica em fileira simples. Este estudo tem comoponto forte demonstrar um retrato atual da conduta dos orto-pedistas brasileiros em relação ao tratamento das lesões domanguito rotador, bem como fornecer dados para nortear aformação de residentes em cirurgia do ombro e cotovelo emserviços credenciados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia doOmbro e Cotovelo.
Conclusão
Os especialistas em cirurgia do ombro no Brasil têm umatendência maior a indicar o tratamento cirúrgico mais pre-cocemente nas lesões do manguito rotador do que os nãoespecialistas. Existe, atualmente, uma preferência do cirur-gião de ombro brasileiro pela feitura de reparo com fileiraúnica de âncoras.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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