Tem sido demonstrada a vantagem da artrodese circunferencial no segmento lombossacro, no tocante ao índice de sucesso da fusão. Porém, a alta morbidade do procedimento cirúrgico combinado para artrodese anterior da coluna lombar, per e pós-operatória, tem limitado sua aplicação(2,3,5).
Em 1996, Mayer(4) introduziu a nova técnica microcirúrgica, a minimamente invasiva artrodese anterior lombar (Minialif), para os níveis L2-L3, L3-L4, L4-L5 e L5-S1, com a qual o grau de morbidade e complicações foi sensivelmente reduzido, proporcionando, dessa forma, maior aceitação da abordagem combinada e sua permissividade para pacientes que, pelo seu status, isto é, potencial de complicação, apresentam restrições à abordagem anterior convencional.

O propósito do presente trabalho é avaliar a exeqüibilidade da técnica, considerando o trauma cirúrgico, perda sanguínea, desconforto incisional, morbidade per e pós-operatória, complicações imediata e mediatas da técnica Minialif, não se propondo a discutir as vantagens ou desvantagens da artrodese circunferencial e/ou resultado, devido ao curto tempo de seguimento(1,6).

Na presente série foi utilizada a técnica Minialif associada à artrodese póstero-lateral com enxerto ósseo autólogo e instrumentação pedicular.
MATERIAL E MÉTODO
No período de maio a agosto de 1997, sete pacientes fo-ram submetidos à artrodese circunferencial da coluna lombossacra pela técnica Minialif desenvolvida por H.M. Mayer. Os pacientes eram portadores de espondilolistese degenerativa da coluna lombar e apenas um fora submetido a cirurgia prévia (laminectomia L5 associada à artrodese póstero-late-ral in situ L5-S1); os níveis variaram entre L4 e S1, sendo 3 pacientes em L5-S1 e 4 em L4-L5. A idade mínima foi de 42 anos e a máxima, de 56,3 anos; 6 pacientes eram do sexo feminino e 1 do masculino. O período de tratamento conservador variou entre 1 ano a 12 anos, sendo o período médio de 4 anos e 3 meses. A indicação cirúrgica foi devida à dor lombar associada à radiculalgia.

Foi utilizada artrodese póstero-lateral em todos os pacientes com fixação transpedicular e procedimento anterior combinado em 6; em apenas 1 paciente foi realizada com intervalo de 7 dias (1º caso, T.F.A.). O período médio de internação foi de 4,7 dias (tempo mínimo de 4 dias e máximo de 10 dias).
O tempo do ato cirúrgico variou entre 250 e 425 minutos, sendo a média para ambos os procedimentos de 332 minutos. A perda sanguínea peroperatória média foi de 840ml; a menor perda sanguínea foi de 400ml e a maior, de 1.100ml. A maior perda sanguínea foi devida à abordagem posterior. Em um paciente (A.M.G.S.P.) foi feita a minilaparotomia para o nível L5-S1; foi diagnosticado cisto de ovário volumoso que não permitia acesso à junção lombossacra, tendo sido necessária sua exérese (tabelas 1 e 2).
Descrição da técnica cirúrgica
As abordagens microcirúrgicas são diferenciadas em dois segmentos da coluna lombar: 1) abordagem microcirúrgica retroperitoneal para os níveis L2 a L5; e 2) abordagem microcirúrgica transperitoneal para o nível L5-S1.

1) Abordagem retroperitoneal
O paciente é posicionado em decúbito lateral direito. A mesa é ajustada para adquirir projeção paralela das placas terminais vertebrais. O tronco do paciente é inclinado para trás, de acordo com o nível a ser abordado: 20º para L4-L5; 30º para L3-L4; e 40º para L2-L3.
O controle radiológico é feito com intensificador de imagem dinâmica utilizando-se um fio de Kirschner para reparo do espaço discal alvo no plano sagital e coronal e mapeamento da incisão tomando-se como referência o ponto da intersecção das linhas. Marca-se a incisão oblíqua de 4cm. A incisão é realizada com auxílio de microscópio cirúrgico ou lupa e frontolux. São preservadas a musculatura e inervação da parede abdominal através de divulsão do: oblíquo externo, oblíquo interno e transverso.

O espaço ileocostal, retroperitoneal, que é virtual, é alargado com descolamento rombo com torunda. O músculo psoas é identificado e desinserido medialmente com microtesoura para seu afastamento e exposição vertebral.
A dissecção romba é completada para exposição de aproximadamente 5mm dos corpos vertebrais adjacentes para servir de ancoragem às valvas cranial e caudal nos dois parafusos de distração. É feita acoplagem da moldura e valva. Nesse momento inserimos uma microcâmara dorsal proximalmente à incisão (não descrito originalmente), passando pós-operatório que evidencia as cicatrizes da mi-Fig. 10 - Radiografia em perfil evidencia bom Fig. 10a -Radiografia em AP evidencia laminec-nilombotomia da área doadora de externo e acesposicionamento do enxerto ósseo tomia e enxertia óssea póstero-lateral. Obs.: VT. so para a microcâmara ao procedimento videoassistido. Procede-se à excisão do disco e preparo da área de artrodese, com paquímetro. A retirada de enxerto autólogo do ilíaco é feita com instrumental específico. Realiza-se impacção do enxerto ósseo e complementação de enxertia com osso esponjoso no espaço residual intervertebral. Faz-se cobertura da área cruenta da artrodese com surgicel.

2) Abordagem transperitoneal
O paciente é posicionado na mesa cirúrgica em decúbito supino e Trendelenburg com a coluna lombar em hiperextensão e membros inferiores em máxima abdução. O cirurgião posiciona-se entre os membros inferiores do paciente, obtendo desse modo condição confortável para abordagem do espaço intervertebral L5-S1. Uma incisão de 4cm é feita medialmente centrada na união dos dois terços superiores com um terço inferior da linha média infra-umbilical.
As alças intestinais são afastadas com auxílio de compressas devidamente preparadas. O afastador auto-estático é posicionado para exposição do promontório. O peritônio parietal é incisado com microtesoura no sentido craniocaudal. Os vasos médio-sacrais são isolados e clipados. A artrodese é procedida de forma usual com osso autólogo de ilíaco.
DISCUSSÃO
Não apresentamos os resultados por não ser o objetivo proposto devido ao seguimento ser de apenas 100 dias. O questionamento de artrodese de 360º para o tratamento da instabilidade lombossacra será abordado em outra oportunidade, por não ser objetivo do presente trabalho.
A técnica cirúrgica originalmente descrita por H.M. Mayer foi indicada na 2ª etapa operatória da estabilização da coluna lombossacra em pacientes portadores de instabilidade degenerativa. Mantivemos a mesma indicação cirúrgica e o mesmo perfil do paciente do autor original. A primeira variação introduzida foi o ato operatório combinado ser realizado na mesma sessão cirúrgica. O primeiro paciente opera-do foi de acordo com o proposto por Mayer, porém nos casos subseqüentes verificamos que a baixa morbidade associada com o baixo risco de acidente operatório nos incentivou à realização combinada do acesso posterior e anterior. Não houve registro de complicações pós-operatórias devidas a esse procedimento e consideramos perda sanguínea média de 140ml e ato anestésico prologado em média de 120 minutos com baixo trauma cirúrgico como fatores que não impediriam o procedimento combinado e avaliamos as vantagens de um pós-operatório único.
A segunda modificação introduzida foi a utilização de microcâmera de 30º instalada dorsal e proximalmente à ferida cirúrgica (VAM - videoassistida Minialif). Com isso obtivemos magnificação do campo cirúrgico, melhor participação da equipe cirúrgica, menor perda sanguínea devido à facilidade de hemostasia. Dessa forma, passamos a utilizar esse recurso em todos os procedimentos.
Reportamos uma intercorrência peroperatória ao abordarmos o nível L5-S1. Havia volumoso cisto de ovário e fez-se necessária sua exérese, para ter acesso à junção lombossacra. Sugerimos avaliação por ressonância nuclear magnética prévia para planificar melhor o ato cirúrgico e, na impossibilidade desta, realização de ultra-sonografia abdominal.
Reconhecemos que a proposta da nota preliminar objetiva apenas avaliar essa nova técnica cirúrgica sem discutir suas indicações.
CONCLUSÃO
A minimamente invasiva artrodese anterior lombar (Minialif) é uma nova técnica microcirúrgica para abordagem retroperineal e transperineal para os níveis L2-L3, L3-L4, L4-L5 e L5-S1, respectivamente.
Os resultados apresentados por seu autor e a praticidade de seu instrumental motivaram-nos para utilização do método.
Preliminarmente, avaliam-se o trauma cirúrgico, índice de complicações e morbidade pós-operatória.
Nossa experiência pessoal com essa técnica na série dos primeiros sete casos tem demonstrado que os resultados estão em consonância com os apresentados pelo autor original.
Os autores agregaram dois procedimentos ao método:
- a videoassistida Minialif (VAM), que otimiza o método com a magnificação e iluminação adequada do campo operatório, maior segurança e, conseqüentemente, redução do potencial de complicação e monitoração do ato operatório pelos demais membros da equipe;
- realização da artrodese circunferencial combinada na mesma sessão cirúrgica.
A Minialif está associada à minimização do trauma cirúrgico, preservando a musculatura e inervação da parede abdominal, baixa perda sanguínea e diminuição da morbidade pós-operatória; seu efeito cosmético não deve ser subestimado quando comparado com a abordagem convencional.
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