A pseudartrose congênita da tíbia vem sendo relatada des-de o início do século como afecção de difícil tratamento e muito mutilante. Apresenta-se como fratura patológica do terço distal da tíbia, geralmente secundária a osteodisplasia, com manutenção desta solução de continuidade através do preenchimento da falha por tecido fibroso ou hamartomatoso. Hipóteses como transtornos vasculares, nervosos, traumáticos e até metabólicos tentam sem êxito explicar a etio-logia(5). Sabe-se existir correlação do aparecimento dessa enfermidade em pacientes portadores de displasia fibrosa, neurofibromatose e mielodisplasia(1), porém observa-se a presença dessas lesões como sendo a única doença em muitos casos, o que distingue ainda hoje o caráter idiopático dessa entidade. Neste trabalho visamos a apresentação do resultado obtido no tratamento desta enfermidade pelo método de Ilizarov.
RELATO DO CASO
A.S.S., 19 anos, branco, brasileiro, natural do Rio Grande do Norte, procurou nosso serviço em janeiro de 1995, apresentando pseudartrose congênita da tíbia esquerda, já tendo sido submetido a várias tentativas de tratamento pelos métodos convencionais sem obter êxito (auto-enxertia + fixador externo, placa e parafusos, osteotomias + gesso, etc.). Nessa época possuía deformidade angular ântero-lateral grave e encurtamento de 11cm, medidos após correção proporcional com goniômetro (fig. 1).
Optamos por efetuar o tratamento pelo método de Ilizarov com osteotomia bifocal com instrumentação do pé, possibilitando a correção da deformidade e o alongamento, minimizando o risco de contraturas musculares secundárias (fig. 2, A e B).
O protocolo de alongamento iniciou-se no terceiro dia pósoperatório com 1mm ao dia dividido em 0,25mm de seis em seis horas. O período total de alongamento foi de 12 meses, permanecendo o paciente com o aparelho por mais seis meses até a maturação completa do regenerado e retirada sem a necessidade de contenção externa de nenhum tipo (fig. 3).
DISCUSSÃO E COMENTÁRIOS
Durante o alongamento observaram-se pequenas complicações, como dor moderada e infecção superficial, corrigidas com analgésicos e curativos, não sendo necessário o uso de antibióticos. Após o sétimo centímetro alongado, o paciente apresentou contratura leve em flexão do joelho, o que requereu acompanhamento intensivo do fisioterapeuta, sen-do controlada e não interferindo na continuidade do alongamento. Não observamos qualquer alteração vasculonervosa nesse paciente durante o tratamento.
Na literatura observa-se uma série de complicações associadas ao método(4), porém acreditamos que a maioria delas pode ser facilmente controlada ou tratada, necessitando para isso bom domínio da técnica e conhecimento do método. Neste caso, além de utilizarmos um protocolo rígido e definido de tratamento, contamos com a ajuda e compreensão do paciente, o que para nós foi fundamental no resultado final.
O paciente atualmente está assintomático e executando atividade laborativa sem a utilização de órtese de contenção. Não apresentou qualquer sinal de recidiva da deformidade e o acompanhamento radiológico, agora semestral, está normal. Sabe-se que existe alta percentagem de refratura, porém Aronzo(2) acredita que esta se deva à falta de completa correção da deformidade, o que não ocorreu neste caso.
Acreditamos ser o método bastante efetivo, pois corrige a deformidade, o encurtamento e a pseudartrose ao mesmo tempo e não determina nenhuma morbidade em regiões previa-mente sãs, o que ocorre em praticamente todas as outras modalidades de tratamento(3).
Fig. 3 - Resultado final após retirada do aparelho
Aegerter, E.E.: The possible relationship of neurofibromatosis, congenital pseudarthrosis and fibrous displasia. J Bone Joint Surg [Am] 32: 618, 1950.
Aronzo, J.: Treatment of tibial congenital pseudarthrosis using the Iliza-rov's method. Ortra internacional video-Merck. SBOT-RJ.
Bos, K.E., Besselaar, P.P., Vander Eyken, J.W. et al: Reconstruction of congenital tibial pseudarthrosis by revascularized fibular transplants. Microsurgery 14: 588-562, 1993.
Ilizarov, G.A.: "Problems of restorative surgery traumatology and ortopedics", in Sverdlovsk Voprosy Vosstanovit Khirurgii, 1ª ed., p. 52-220.
Moore, J.R.: Delayed autogenous bone graft in the treatment of congenital pseudarthrosis. J Bone Joint Surg [Am] 31: 23-39, 1948.