INTRODUÇÃO

O osteoma osteóide é um tumor ósseo benigno que se caracteriza muitas vezes por dor de exacerbação noturna, aliviada pelo uso de salicilatos e antiinflamatórios não esteróides e dolorimento leve sobre o local afetado.

Representa 11% dos tumores ósseos benignos(3), predomina na segunda década e no sexo masculino.

Tratando-se de lesões menores que dois centímetros de diâmetro, a idéia de poder ressecá-las com a menor morbidade possível sempre foi um desafio.

A radiografia e a tomografia linear sempre foram os recursos clássicos na investigação dessas lesões.

O método cirúrgico mais empregado é o da ressecção de uma ilhota óssea de cortical que contenha o nidus tumoral. Contudo, tal ressecção leva à fragilidade do osso e muitas vezes a fraturas patológicas.

O advento de novos meios de imagem, como a tomografia computadorizada (TC) e a cintilografia, propiciou o aparecimento de métodos de tratamento menos agressivos(5-8,10) e de alto índice de cura.

Baseados em experiências previamente descritas(4,8,9,12,16), desenvolvemos nossa própria rotina de ressecção, que exporemos a seguir.

CASUÍSTICA E MÉTODO

O estudo constou de nove pacientes portadores de osteoma osteóide, que foram tratados cirurgicamente no Serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre (Grupo de Tumores Ósseos), no período entre julho de 93 e dezembro de 95.

Todos os pacientes estudados eram do sexo masculino. A idade variou dos 13 aos 21 anos (média de 16,3 anos). Dos nove pacientes, oito são da raça branca e um da negra.

A queixa mais comum apresentada pelos pacientes era a dor, geralmente típica, de intensidade maior noturna e que obtinha alívio com salicilatos ou antiinflamatórios não esteróides (AINEs).

A localização mais freqüente foi a tíbia, com três casos (30,3%), seguida do fêmur, com dois casos (20,2%) e fíbula, também com dois casos (20,2%). Esses dados podem ser vistos na tabela 1.

O diagnóstico, na maioria, foi clínico com auxílio dos exames de imagem (radiografia e tomografia computadorizada). A biópsia óssea prévia não foi necessária, pois o método é excisional. Tivemos um caso raro de localização no ilíaco.

Nossa rotina de investigação consta do que segue:

1) Radiografia simples, que geralmente mostra a área de osso compacto com ou sem a presença de nidus evidente;

2) Realização de TC no dia da cirurgia;

3) Evidência do nidus pelo médico tomografista, que rea-liza no local afetado um orifício, sob anestesia local, com agulha de Ackermann (fig. 1);

4) O paciente vai ao bloco cirúrgico com a imagem tomográfica correspondente ao orifício realizado;

5) Abordagem cirúrgica dependendo do local afetado, reconhecimento do orifício realizado e ressecção de cilindro ósseo com trefina própria (8 ou 12 milímetros) (fig. 2);

6) Colocação do cilindro em recipiente de plástico em álcool 50% e realização de radiografia (fig. 3);

7) Reconhecimento do nidus na radiografia (contraste do osso compacto na presença de álcool a 50%) (fig. 4);

 



8) Em ressecções intralesionais cureta-se o restante do nidus, facilmente reconhecido, na parede do osso residual, devido a sua consistência amolecida;

9) Dependendo do osso afetado e da fragilidade do osso residual, suspende-se o apoio do membro afetado até a formação de osso no orifício provocado (fig. 5).

RESULTADOS

Todos os pacientes operados obtiveram alívio imediato dos sintomas relacionados com a patologia no período pós-ope-ratório imediato.

Quatro pacientes (40,4%), conforme o laudo anatomopatológico, obtiveram a ressecção total do nidus. Em outros quatro (40,4%) a ressecção foi parcial. Esses pacientes não apresentaram recidiva tumoral. Em um único paciente o bloco ósseo ressecado não continha nenhuma porção do nidus. Esse paciente também não apresentou sintomas pós-opera-tórios. O tempo de seguimento dos pacientes variou de um a 25 meses, com média de 13 meses.

Quanto às complicações, um paciente (10,1%) com osteoma na fíbula proximal apresentou infecção da ferida operatória e paralisia do músculo extensor longo do hálux no período pós-operatório. Essa complicação estava completamente recuperada sete meses após a cirurgia. Dois pacientes (20,2%) apresentaram fratura patológica no local da ressecção tumoral. Uma fratura ocorreu cinco meses após a cirurgia na tíbia direita. Esta foi tratada através de osteotomia do perônio e gesso PTB, estando completamente consolidada em quatro meses. A outra fratura ocorreu no primeiro mês do pós-operatório da ressecção tumoral do fêmur direito. Esse paciente iniciou a marcha precoce sem a orientação médica.

Foi tratado através de haste intramedular de Küntscher, havendo consolidação total em quatro meses.

DISCUSSÃO

É já bem conhecido e aceito o conceito de que a associação do nidus no osteoma osteóide é suficiente para a cura da (6-8,10). A ossificação que se verifica na maioria dos ca-sos ao redor do nidus nada mais é do que a resposta do osso hospedeiro à agressão do nidus. Ressecando a ossificação, resolve-se espontaneamente.

Alguns casos intra-articulares respondem com sinovite, mais do que ossificação, e devem ser diferenciados de outros processos inflamatórios e infecciosos intra-articulares.

Acredita-se que o aumento de teor de prostaglandinas no nidus do osteoma osteóide seja o mecanismo que explique a dor do tipo inflamatório e o alívio com salicilatos e AINEs(11). Contudo, esse achado, bem como o alívio da dor, não ocorre em todos os pacientes.

Mesmo sabendo da prevalência do sexo masculino, é surpreendente que nenhum dos nossos casos seja do sexo feminino.

Os sinais e sintomas são dependentes da localização, sen-do os subperiosteais geralmente mais sensíveis que os endosteais. Os intra-articulares usualmente desenvolvem sinovite reacional, pouca ou nenhuma esclerose e muitas vezes esses pacientes visitam vários especialistas antes de ser feito o diagnóstico etiológico.

A localização femoral (especialmente a região trocantérica e colo) e as diafisárias da tíbia e úmero prevalecem(1). O ilíaco é de localização rara.

O diagnóstico diferencial faz-se principalmente com o abscesso de Brodie, osteomielite esclerosante de Garré e fraturas de estresse. As lesões articulares basicamente diferen-ciam-se da osteocondrite dissecante e artrite inflamatória(1).

Controvérsias seguem existindo sobre a origem inflamatória ou neoplásica da lesão(13,15).

Apesar de relatos de cura espontânea(15), o tratamento de escolha é o cirúrgico, por ser curativo.

A excisão completa do nidus é aceita como método definitivo de cura da lesão, pois a recorrência em ressecções incompletas é tão alto quanto 28%(14).

Curetagem simples é pouco aceita devido ao índice de recidiva. Ressecção em bloco também não é método bem tolerado, pois destrói boa parte de osso reacional que dá suporte estrutural à região e eleva o risco de fratura patológica.

A partir da premissa de que a excisão completa do nidus leva à cura da lesão, o desafio a seguir passou a ser o de fazêlo com o mínimo de ressecção.

Dois métodos surgiram, então, sendo um o que usa o princípio radiativo de cintilografia e um probe cintilográfico com detector intra-operatório do nidus, fortemente captador do tecnécio(2,5,10). Localizado o ponto ósseo mais radiativo, a excisão pode ser feita com o mínimo de ressecção óssea.

O outro método usa a TC para a localização exata do nidus e a partir daí várias formas de ressecção podem ser feitas, inclusive aquela durante a realização da TC, ou logo após, no bloco cirúrgico(4,6,8,9,12,16).

Nosso relato baseia-se em nove casos com pequenas modificações do método acima descrito. Não realizamos a ressecção do cilindro no local da TC, pois achamos que as condições anestésicas e de anti-sepsia do bloco cirúrgico são mais adequadas.

A escolha da trefina maior ou menor baseia-se no tamanho do nidus.

Às vezes, devido às condições de localização do nidus, a ressecção de duas corticais se faz necessária, mas, em geral, isso não ocorre.

Algumas vezes verificamos que o cilindro excisou somente parte do nidus. Complementamos, então, com curetagem e cauterização local.

Nos dois casos em que houve fratura patológica, uma ocorreu por apoio precoce sem a autorização médica e a outra em paciente muito pesado, que também deambulou precocemente.

CONCLUSÕES

A ausência completa de recidiva em nossos casos revela ser este um método eficaz no tratamento do osteoma osteóide.

Nos casos de ressecção de duas corticais é aconselhável retardar um pouco mais o apoio do segmento.

É provável que o calor desenvolvido pela trefina tenha ação dupla sobre o osso afetado: uma, favorável, que é o aumento da margem de ressecção pela necrose térmica causada e outra, desfavorável, que é a demora no preenchimento do cilindro pelo osso hospedeiro.

REFERÊNCIAS


1. Cohen, M.D., Harrington, T.M. & Ginsberg, W.W.: Osteoid osteoma: 95 cases and a review of the literature. Semin Arthritis Rheum 12: 265, 1983.

2. Colton, C.L. & Hardy, J.A.: Evaluation of a sterilizable radiation probe as an aid to the surgical treatment of osteoid osteoma. J Bone Joint Surg 65: 1019-1022, 1983.

3. Dahlin, D.C.: Bone tumors, 3rd ed., Springfield, Illinois, Charles Thomas, 1967.

4. Doyle, T. & King, K.: Percutaneous removal of osteoid osteoma using CT control. Clin Radiol 40: 514-517, 1989.

5. Ghelman, B., Thompson, F.M. & Arnold, W.D.: Intraoperative radioactive localization of an osteoid-osteoma. J Bone Joint Surg [Am] 63: 826, 1981.

6. Graham, H.K., Laverick, M.D., Cosgrove, A.P. et al: Minimally invasive surgery for osteoid osteoma of the proximal femur. J Bone Joint Surg [Br] 75: 115-118, 1993.

7. Healey, J.H. & Ghelman, B.: Osteoid osteoma and osteoblastoma. Cur- rent concepts and recent advances. Clin Orthop 204: 76-85, 1988.

8. Koheler, R. & Joffre, P.: Treatment of osteoid osteoma by percutaneous drill resection with computed tomography control: a study of 12 cases. J Pediatr Orthop 2: 78-82, 1993.

9. Koheler, R., Mazoyer, J.F., Besse, J.L. et al: Treatment of osteoid osteo- ma by computer guided drill biopsy. Fr J Orthop 4: 251-254, 1990.

10. Kumar, S.J., Harcke, H.T., MacEwen, G.D. et al: Osteoid osteoma of the proximal femur: new techniques in diagnosis and treatment. J Pediatr Orthop 4: 669-672, 1984.

11. Makely, J.: Prostaglandins - a mechanism for pain mediation in osteoid osteoma. Orthop Trans 6: 72, 1982.

12. Mazoyer, J.F., Kohler, R. & Brossard, D.: Osteoid osteoma: CT guided percutaneous treatment. Radiology 181: 269-271, 1991.

13. Schajowicz, F. & Lemos, C.: Osteoid osteoma and osteoblastoma. Clo- sely related entities of osteoblastic derivation. Acta Orthop Scand 41: 272, 1970.

14. Schulman, L. & Dorfman, H.D.: Nerve fibers in osteoid osteoma. J Bone Joint Surg [Am] 52: 1351, 1970.

15. Vickers, C.W., Pugh, P.C. & Ivins, J.C.: Osteoid osteoma: a 15 year fol- low-up of an untreated patient. J Bone Joint Surg [Am] 41: 357, 1959.

16. Voto, S.J., Cook, A.J., Weiner, D.S. et al: Treatment of osteoid osteoma by computed tomography guided excision in the pediatric patient. J Pediatr Orthop 10: 510-513, 1990.