INTRODUÇÃO

Jaffe (6), em 1935, é o primeiro autor a usar a denominação osteoma osteóide, relatando cinco casos em pacientes jovens (entre 11 e 22 anos), apresentando dor, com piora noturna, revelando o raio X lesão localizada em zona esponjosa, às vezes invadindo cortical, não excedendo a dois centímetros de diâmetro.

Em 1941, Bado & Ibarz(1), em análise clínica e radiográfica, destacam que o osteoma osteóide apresenta três zonas distintas com: 1) pequena area de rarefação circular, perfeitamente limitada; 2) zona com seqüestro circular central e osso maduro; 3) zona hipercondensante com osso reativo externo, localizando-se na cortical.

Em 1948, Jaffe & Liechtenstein(7) relatam a descrição do fibroma condromixóide em oito casos, todos localizados nos membros inferiores, com predileção para a tíbia, em pacientes de 20 a 30 anos de idade, com dores leves e massa palpável no local, sem história de trauma. Apontam as lesões nas radiografias como metafisárias, excêntricas, com osteocondensação na borda interna e cortical afilada.

APRESENTAÇÃO DO CASO

O caso teve seguimento no Grupo de Tumores Mús-culo-esqueléticos do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

M.O.P., 18 anos e cinco meses de idade, sexo feminino, cor branca, apresentava quadro clínico com dor na face ântero-medial da perna esquerda há quatro meses, que piorava à noite; às vezes, apresentava melhora espontânea, sem antecedentes traumáticos, acompanhada de edema no local.

Ao exame físico geral, não foi encontrada nenhuma alteração. No exame ortopédico, a paciente apresentava tumor no terço distal da tíbia esquerda, doloroso à palpação, sem processos inflamatórios no local e sem circulação colateral.

Ao raio X simples nas posições ântero-posterior e lateral(fig. 1),visualizava-se imagem radioluscente justametafisária no terço distal da tíbia na porção pósteromedial, de aproximadamente 1,5 centímetros de diâmetro, acompanhada de levantamento periosteal e esclerose ao redor.

A planigrafia (fig. 2) mostrava com maior precisão a imagem de um nidus com grande reação de esclerose comprometendo a cortical e a medular.

Na época foi feito o diagnóstico clínico de osteoma osteóide, baseado nos dados de história e radiográficos. Os exames laboratoriais encontravam-se todos normais. Foi submetida a intervenção cirúrgica em novembro de 1988, com ressecção do nidus e de toda a esclerose ao redor (fig. 3), e enviado o material para exame anatomopatológico.

No pós-operatório, foi deixada sem deambular por aproximadamente 30 dias. Apresenta-se atualmente sem dor e sem qualquer alteração funcional, com exame físico normal.

EXAME ANATOMOPATOLÓGICO

Descrição macroscópica - Espécime representado por dois fragmentos, medindo 1,0 e 1,5 centímetros de comprimento. São constituídos por cortical óssea muito espessada, no seio da qual observa-se área de 0,8 centímetros de diâmetro, de coloração esbranquiçada, brilhante e de consistência elástica. Foram feitos três blocos e todo o espécime foi submetido ao exame histológico, após descalcificação prévia.

Descrição microscópica - O exame histológico mostra nítido aspecto pseudolobulado do tecido neoplásico. O centro dos lóbulos é constituído por células fusiformes ou estrelares no seio de matriz mixóide. Na periferia dos lóbulos, as células neoplásicas estão densamente dispostas, com algumas células neoplásicas pleomórficas. As células gigantes de variedade osteoclástica são muito raras.

Diagnóstico anatomopatológico - Fibroma condromixóide.

COMENTÁRIOS

O diagnóstico clínico-radiográfico de suspeita dos tumores ósseos primários muitas vezes é dificultado pela sobreposição de sinais, sintomas e imagens, encontrados em várias patologias.

A dor, que em outra época era considerada nos tu-mores como presente quase que exclusivamente nas neoplasias malignas(4,5), em vários levantamentos realizados em nosso grupo, ocorreu também nas neoplasias benignas não agressivas e agressivas, sendo ainda relatada na maioria dos casos de osteoma osteóide e de fibroma condromixóide (2-5).

Nesta paciente, a dor esteve presente no período noturno, com melhora espontânea, e a constatação de pequeno edema local, que é muito comum em tumores em que o segmento ósseo apresenta-se muito superficial, como a face anterior da tíbia, pequenos ossos das mãos e dos péS, levava à suspeita diagnóstica de osteoma osteóide(4).

A imagem radiográfica com visualização do nidus também levou à suspeita do diagnóstico de osteoma osteóide, pois não excedia a dois centímetros de diâmetro, apresentava reação de esclerose da cortical e medular, ao contrário da maioria dos casos de fibroma condromixóide, que mostra reação de esclerose apenas na porção justamedular. O uso da planigrafia foi indicado exatamente pela dificuldade de se visualizar o nidus nas radiografias simples, dado o grau de esclerose reacional, encontrado também na maioria dos osteomas osteóide s(5).

A ressecção cirúrgica foi realizada com a retirada de parte da reação de esclerose, não como critério oncológico, mas apenas como via de acesso ao nidus. A mesma ressecção também estaria indicada no caso do fibroma condromixóide, já que houve boa margem de segurança oncológica. A simples curetagem utilizada no osteoma osteóide as vezes não estaria indicada no fibroma condromixóide, sem a aplicação de um tratamento adjuvante (metilmetacrilato), sob o risco de recidiva local, por ser este um tumor benigno agressivo(2).

Até o presente momento, o caso teve boa evolução, sem recidiva local, não apresentando qualquer queixa clínica e sem déficits funcionais.

REFERÊNCIAS

Bado, J.L. & Ibarz, P.L.: A propósito del osteoma osteóide de Jaffe. Rev Bras Ortop Traumatol 2:139-173, 1941.

Campos F°, R.: Fibroma condromxóide: estudo baseado em 18 ca-sos, dissertação de Mestrado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1991.

Campos F°, R., Camargo, O.P., Croci, A.T. & Oliveira, N.R.B.: Chondromyxoid fibroma: a study based on 18 cases. Rev Paul Med 110:59-62, 1992.

Croci, A.T.: Osteomo osteóide: estudo baseado em 41 casos, dissertação de Mestrado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1990.

Croci, A.T., Camargo, O.P., Campos F°, R. & Oliveira, N.R.B.: Osteoma osteóide: estudo baseado em 41 casos. Rev Bras Ortop 25:349-353, 1990.

Jaffe, H.L.: Osteoid osteoma: a benign osteoblastic tumor composed of osteoid and atypical bone. Arch Surg 31: 709-728, 1935.

Jaffe, H.L. & Liechtenstein, L.: Chondromyxoid fibroma of bone. A distinctive benign tumor likely to mistaken especially chondrosarcoma. Arch Pathol 54: 541-551, 1948.