O nervo ulnar é freqüentemente acometido por síndromes compressivas, especialmente na neuropatia produzida pela hanseníase(10,11). O tratamento de escolha dessa síndrome no estágio compressivo II é a neurólise ulnar externa(1,4,6,8,10,11,14). Esse procedimento pode ser realizado de maneira eficiente através de técnica ambulatorial sob anestesia local e sem faixa isquêmica(11).
Com o objetivo de verificar se a neurólise ulnar externa produziria algum efeito sobre a sensibilidade tátil, os autores avaliaram 20 pacientes submetidos a esse procedimento utilizando para tanto a técnica estesiométrica dos monofilamentos de Siemmens-Weistein(2,9).
CASUÍSTICA E MÉTODOS
No período de janeiro a setembro de 1996, 20 pacientes matriculados no Serviço de Ortopedia da Residência Integrada Bahiana de Ortopedia e Traumatologia-Ribot/Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública com diagnóstico clínico e anatomopatológico de hanseníase, portadores de sintomatologia característica da neuropatia ulnar, foram selecionados para o estudo após permissão consentida.
Todos os pacientes foram avaliados estesiometricamente no território do nervo ulnar da mão pelo método dos monofilamentos de náilon de Siemmens-Weistein(2,9). Esta técnica consiste em um método quantitativo para registrar a sensibilidade (ou a falta desta) em decorrência de neuropatia. Basicamente, faz-se pressionar monofilamentos de náilon de diversas espessuras contra a pele do paciente, sendo este toque identificado verbalmente por ele. Cada monofilamento cor-responde a uma dada pressão em gramas e a incapacidade de reconhecer o toque de um deles significa a insensibilidade àquela dada pressão. Assim, quando existe perda sensitiva, fica mais difícil reconhecer o toque dos filamentos mais finos. Os resultados são apresentados em uma escala de 0 (perda sensitiva total) a 5 (sem perda sensitiva), que pode ser conferida na tabela 1.
Essa avaliação foi feita pré-operatoriamente 15 dias antes da cirurgia e três meses após o procedimento da neurólise ulnar externa. Na tabela 2 encontram-se os dados sobre idade, sexo e forma clínica da hanseníase neste grupo de estudo.
Técnica cirúrgica - Utilizou-se para o procedimento de neurólise ulnar externa uma técnica ambulatorial sob anestesia local sem o uso de faixa isquêmica previamente descrita(7,11,14,15). Nesta técnica, o braço do paciente deve ser colocado em abdução e rotação externa para facilitar a abordagem. A anestesia é realizada com técnica de infiltração intraneural de 10ml do anestésico em região proximal à incisão e a seguir em toda a extensão utilizada para a via de acesso. O anestésico de escolha é a lidocaína, na concentração de 2% para infiltração intraneural em volume de 10ml, e de 1% para a infiltração local em volume de 10ml.

A seguir, faz-se uma incisão sobre a superfície pósteromedial do cotovelo, começando 7cm acima do epicôndilo medial, passando distalmente adiante do epicôndilo e prosseguindo ainda mais distalmente suprajacente ao trajeto do nervo. Procede-se à dissecção do tecido subcutâneo e identifica-se a origem do grupo flexor e o sulco do nervo ulnar ao nível do epicôndilo medial. Através de dissecção cortante cuidadosa, incisa-se esse sulco, identificando e liberando o nervo ulnar. Devem-se liberar seus ramos para o flexor profundo dos dedos e para o flexor ulnar do carpo a fim de obter melhor mobilização do tronco principal; também, todo e qualquer tecido adiposo e/ou cicatricial que possa ser responsabilizado pela compressão deve ser excisado.
Em seguida, procede-se à abertura do epineuro com tesoura curva delicada em toda a extensão do nervo comprometido. Feito isso, certifica-se de que o nervo está liberado e com a epineurotomia totalmente finalizada. Realizada a liberação do nervo ulnar, sutura-se seu canal em toda a extensão com fio não absorvível para evitar o reposicionamento intracompartimental do nervo. Sutura-se a pele com fio inabsorvível em pontos separados e aplica-se curativo compressivo suave.
RESULTADOS
Na avaliação estesiométrica pré-operatória, os 20 pacientes foram divididos em dois grupos. Aqueles cujos resultados variavam de 0 a 2 eram considerados como tendo perdido a sensibilidade protetora (deficitário) e aqueles cujo resultado dos monofilamentos variava entre 3 e 5 eram considerados como tendo sensibilidade protetora satisfatória (satisfatório). Para finalidade de apresentação dos resultados da neurólise ulnar externa, os pacientes foram classificados pósoperatoriamente em três grupos como ruim, regular e bom. Os resultados ruins consistiam do somatório de todos os pacientes que estavam no grupo deficitário e que não obtiveram melhora após o procedimento cirúrgico. Nos resultados regulares estão os pacientes que, participando do grupo satisfatório, não obtiveram melhora após a neurólise. Os resultados bons somavam os pacientes que, participando de ambos os grupos, obtiveram melhora após a cirurgia.
Na tabela 3 encontram-se discriminados os resultados cirúrgicos obtidos nos grupos deficitário e satisfatório. A avaliação final dos resultados estesiométricos da neurólise ulnar externa encontra-se na tabela 4.
DISCUSSÃO
A hanseníase é uma doença neuroectodérmica com graves conseqüências no aparelho locomotor, cuja cura ou mesmo erradicação não significa o desaparecimento de lesados e seqüelados, pois calcula-se que seriam necessárias aproximadamente 2.400.000 cirurgias no tratamento e correção dos pacientes acometidos(10).
A neurite hanseniana é um processo inflamatório causado direta ou indiretamente pelo M. leprae, cujo nervo mais freqüentemente acometido é o ulnar. Esse processo dá origem à compressão neural intrínseca e extrínseca. Esta neurite apre-senta-se em três estágios básicos, a saber: irritativo (estágio I), caracterizado por dor, parestesia e hiperestesia; compressivo (estágio II), caracterizado por hipoestesia e parestesia; e deficitário (estágio III), caracterizado por anestesia, paralisia e atrofia(3,6,10,11).
Nos estágios II e III acredita-se que o tratamento cirúrgico (neurólise ulnar externa) seja a alternativa que fornece os resultados mais promissores, especialmente no estágio II, em que o paciente pode recuperar total ou parcialmente sua perda sensório-motora. Já no estágio III a neurólise externa inibe o processo degenerativo intraneural; contudo, a regressão clínica dificilmente ocorrerá, tornando necessário associar a neurólise a cirurgias de cunho reabilitativo(4,6,10,12).

Utilizando-se dos monofilamentos de náilon de Siemmens-Weistein, apresentam-se dados quantitativos para a avaliação dos resultados cirúrgicos da neurólise ulnar externa no aspecto sensitivo. A quantificação da neuropatia sensitiva (perda da sensibilidade) através do método dos monofilamentos é satisfatória, simples e de baixo custo, mostrandose tão eficiente quanto os testes de sensibilidade vibratória e térmica(2,5,9). Adotou-se como perda da sensibilidade protetora a incapacidade de o paciente perceber o toque do monofilamento de 4g, o que o qualificava como "deficitário", ou seja, com neuropatia sensitiva importante. Os pacientes capazes de sentir o toque do monofilamento de 4g ou mais finos eram considerados "satisfatórios", ou seja, normais ou com perda sensitiva de pequena monta.
A neurólise ulnar externa feita em nível ambulatorial sob anestesia local e sem o uso de faixa isquêmica é um procedimento eficiente, simples, rápido e de baixo custo(10). Possivelmente, esse procedimento (especialmente no estágio II) resulta na recuperação total ou parcial do déficit sensóriomotor do paciente. Neste estudo, evidenciou-se que dos 11 pacientes tidos como "deficitários" submetidos à neurólise ulnar, 10 apresentaram melhora sensitiva (91%). Entre os 9 pacientes tidos como "satisfatórios", 6 (67%) obtiveram melhora. Entre os 20 pacientes operados, apenas 4 (20%) não obtiveram melhora, sendo que apenas 1 (5%) evoluiu com piora do quadro sensitivo. Esses dados apontam no sentido de que a neurólise ulnar tanto pode produzir melhora neurológica como também poderá impedir mais degeneração neural quando esta já for significativa. Finalmente, conclui-se que tal procedimento cirúrgico apresenta bons resultados em 80% dos pacientes, resultados regulares em 15% e resultados ruins apenas em 5% dos casos. Esses dados podem ser conferidos nas tabelas 3 e 4.
Ramarorazana et al.(13), em um estudo que totalizou 466 descompressões (neurólises) em 123 pacientes, incluindo os nervos ulnar, mediano, fibular e tibial posterior, obtiveram 97% de melhora ou recuperação da sensibilidade e um índice de 62% para a motricidade. No que diz respeito à sensibilidade, 3% de seus pacientes não modificaram seu quadro, 10% obtiveram melhora e 87% recuperaram a sensibilidade. Esse raro trabalho da literatura sobre o assunto apresenta uma coincidência apreciável com os dados apresentados aqui. Há que relatar que, entretanto, os autores citados não apresentaram nenhum método quantitativo para o registro da sensibilidade antes e após o procedimento cirúrgico, supondo-se que se valeram da subjetividade clínica, enquanto no presente trabalho a sensibilidade foi testada e quantificada por um método plenamente aceito na literatura científica para que se chegasse a tais dados.
Acredita-se que vários autores possam utilizar método semelhante em futuros relatos sobre o tema no sentido de fornecer maior consistência a esses dados, mas sobretudo acre-dita-se que este trabalho colabore no despertar dos cirurgiões ortopedistas para o fato de que ainda há muito que contribuir no tratamento da hanseníase, não só tratando das seqüelas, mas também dando esperanças de que as intervenções precoces sejam capazes de mudar o curso devastador desta doença.
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