INTRODUÇÃO

Calcâneo bífido é uma entidade cuja incidência é extremamente rara(4) . Poucos casos têm sido publicados na literatura médica mundial(3) . O propósito deste trabalho é chamar a atenção para esta entidade, de grande importância clínica, que não deve ser confundida com um processo patológico nem com uma fratura (4) . Sever, em 1930, quando publicou o primeiro caso na literatura médica, suspeitou tratar-se de caso pouco comum de fratura do calcâneo em criança. Em seu artigo, descreve três casos, sendo que num deles reporta o resultado do exame histopatológico de paciente que apresentava calcâneo bífido e que havia falecido por ser portador de leucemia.

RELATO DO CASO

Paciente de dois anos e dois meses, de idade aparente compatível com a cronológica, do sexo masculino, sem apresentar dados de maior interesse clínico na história fisiológica, patológica pregressa e familiar. No exame físico, observamos marcha normal, sem claudicação. Os pés eram planos, com desabamento da borda medial, desequilíbrio das colunas e com o primeiro raio em ligeira adução. O paciente foi submetido a exame radiológico de rotina para os pés, nas incidências em ântero-posterior e perfil com carga. O exame revelou presença de linha de separação do calcâneo que dividia em duas metades. A conduta para o caso foi observar o desenvolvimento dos calcâneos e o crescimento dos pés do paciente.

DISCUSSÃO

De acordo com Gray, o núcleo primário do corpo do calcâneo aparece ao redor do sexto mês de vida fetal e o núcleo para a tuberosidade posterior, por volta do décimo ano de vida. Não é mencionada a existência de núcleo duplo do calcâneo(4) .

Keibel & Mall, em seu livro Embriologia Humana, também sustentaram o ponto de vista de que o principal núcleo do calcâneo desenvolve-se no sexto mês de vida fetal. Levantam a hipótese de que o núcleo principal é endocondral (4) .

Porstman(3) apresenta caso de calcâneo bífido com dois núcleos bem individualizados, separados por uma fenda. Revela o autor que o conhecimento dos ossos acessórios do pé é de valor significativo para o diagnóstico diferencial, além de proporcionar interessante visão da ossificação do esqueleto do pé humano.

O calcâneo secundário, respectivamente acessório, é universalmente conhecido e foi encontrado por Pfitzner em 2% e por Marti em 0,57% dos pacientes analisados (3) . Em fetos, encontra-se predisposição de aproximadamente 50% de calcâneo duplo, segundo Hasselwander (3) . O primeiro núcleo, pouco comum, aparece do quarto ao sexto mês; o segundo, quando precoce, aparece no quinto mês, mas em geral, é observado a partir do sétimo mês de vida fetal. A fusão pode iniciar-se já a partir do sexto mês (3) .

O calcâneo bífido pode ser confundido com uma fratura ou qualquer tipo de lesão que acomete o osso (4) . Constatando-se a lesão em um dos calcâneos, deve-se radiografar ambos os pés.

Keats chama a atenção para o fato de que a entidade pode ser encontrada também em displasias ósseas (1) . No livro de Köhler & Zimmer, referente a limites entre o normal e o patológico, os autores reportam que o termo calcâneo bífido é devido a transtornos durante o desenvolvimento, que se retarda em crianças pequenas (2) . Nesse livro, a entidade foi também mencionada por Schlüter, em 1953.

Uhrbrand cita o caso de uma criança de cinco anos que apresentava dor à pressão na borda lateral do pé ao usar sapatos. O autor efetuou a exérese do osso acessório, devido ao desconforto apresentado pela paciente, e definiu o caso como sendo de calcâneo acessório (5) .

No trabalho de Sever, o autor cita detalhes da biópsia macro e microscópica do calcâneo bífido. Relata, como resultado do exame histopatológico, que os dois núcleos eram bem individualizados e separados por um septo composto de tecido cartilaginoso (4). As porções ossificadas do osso continham poucas e bem formadas espículas ósseas, assim como abundante medula óssea ativa. O aspecto histológico revelava núcleos anormais de ossificação compatíveis, porém como condição congênita e não como processo de doença. Refere o autor que a anormalidade provavelmente desaparece ao redor dos três anos de idade e que pode ser devida a um retarde de ossificação.

Concluindo, o importante é que a alteração tem que ser reconhecida e distinguida de fratura ou qualquer outra entidade patológica.

REFERÊNCIAS

1. Keats, T.E.:Atlas of normal roentgen variants that may simulate disease, Chicago, Year Book Medical Publishers, 1974.

2. Köhler,A. & Zimmer, R.A.:Roentgenologia; limites entre lo normal y lo patológico en las imágenes roentgenológicas del esqueleto, Barcelona, Editorial Labor, 1959. p. 305-306.

3. Porstman,W. & Arenz, J.:Fortschritte Rontgenstrahlen Rontgenpraxis, 81 Band. Stutgart, Georg Thieme Verlag, 1954.

4. Sever, J.W.:Surg Gynecol Obstet50: 1012-1013, 1930.

5. Uhrbrand, B. & Jensen, T.T.:Acta Orthop Scand57: 455, 1986.