O trapezóide é o menor osso da fileira distal do carpo. Articula-se com o escafóide, o trapézio, o capitato e o II metacarpo. Nas suas faces dorsal e palmar, encontramos inserções capsuloligamentares que permitem a penetração da vascularização através da artéria recorrente do arco palmar profundo, na face volar radial, e de ramo da artéria intercarpal dorsal, na face dorsal (2) . Existem abundantes anastomoses arteriais intra-ósseas dos ramos ventrais e dorsais, conferindo uma irrigação eficiente, verificada em estudos estereoscópicos por Grettve (1) .
RELATO DO CASO
Paciente L.B., 38 anos, sexo feminino, cor branca, lavradora, foi atendida no Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital e Maternidade Celso Pierro - PUCCAMP em março de 1992, com queixas de dor de intensidade progressiva e limitação funcional do punho direito, iniciada há dois anos e evoluindo para incapacidade ao trabalho. Em fevereiro de 1991, diante do quadro álgico limitacional do punho direito, com alterações radiográficas do osso trapezóide e insucesso do tratamento conservador (AINH, imobilização e fisioterapia), foi submetida à biópsia óssea. Após laudo anatomopatológico inconclusivo e não resolução da entidade patológica, foi transferida do serviço de origem para seguimento no HMCP/PUCCAMP.
Ao exame físico, apresentava cicatriz cirúrgica na face dorsal do punho direito em topografia da articulação carpometacarpo do segundo raio, referindo dor local à palpação óssea e nos últimos graus de flexoextensão do punho. Demonstrava ausência de tumoração ou sinais flogísticos carpometacarpianos. Na avaliação radiográfica, foi encontrado osso trapezóide colapsado, esclerótico, com áreas de fragmentação e degeneração articular trapézio-trapezóide e trapezóide com a base do segundo metacarpo.
Devido a permanência do quadro doloroso, foi submetida, em novembro de 1992, a nova biópsia. No mesmo ato cirúrgico, visibilizado o comprometimento artrósico regional, foi realizada artrodese seletiva entre trapézio-trapezóide e trapezóide com II metacarpo.
Desbridada a cartilagem degenerada com High Speed Burr até a presença de osso esponjoso, sendo fixado com fios de Kirschner cruzados (fig. 2A). O aspecto macroscópico do osso trapezóide era de consistência ebúrnea, não sangrante e com superfícies de corte amareladas.
Permaneceu com material de síntese e com imobilização gessada por seis semanas. Na oitava semana, em reavaliação clínico-radiográfica, foi constatada consolidação das artrodeses e alívio total da dor, sem prejuízo funcional do punho direito. Em avaliação tardia, 24 meses após cirurgia, apresentava-se sem queixas e com melhora radiográfica dos achados de necrose (fig. 2B).
Através do fragmento ósseo enviado para análise histopatológica, observou-se presença de sinais sugestivos de necrose do osso trapezóide (fig. 3), sustentado pelos achados clínicoradiográficos.
DISCUSSÃO
Nos ossos do carpo, a maior incidência de necrose avascular ocorre no escafóide e semilunar (1-3,5,7,8) e menos freqüentemente no capitato (4) e pisiforme (6) .
Kaplan(2) relaciona a necrose avascular dos ossos do carpo com a presença ou ausência de anastomoses intra-ósseas, tipo e localização de vasos nutrientes, distribuindo-os em grupos. No grupo I, encontramos o capitato, o semilunar e principalmente o ecafóide, o qual é considerado de grande risco para a necrose avascular após fratura, devido à entrada de vasos em direção retrógrada em apenas uma superfície, com grande área óssea dependente de único vaso intra-ósseo. No grupo II, inclui-se o osso trapezóide e o hamato, com entrada de vasos volares e dorsais, com significante anastomose intra-óssea, determinando remota probabilidade de necrose avascular. No grupo III, inclui-se o osso trapézio, o priramidal, o pisiforme e variações do semilunar, que devido a consistentes anastomoses intra-ósseas, apresentam pequena incidência de necrose avascular.
No caso relatado, a paciente não referiu antecedentes de trauma, tumor, infecção ou doenças metabólicas. Apesar do osso trapezóide apresentar remota possibilidade de necrose (2) , os achados clínico-radiográficos e sugestivos no estudo histopatológico corroboram o diagnóstico de necrose avascular do osso trapezóide.
A artrodese intercarpal e carpometacarpo propiciou neovascularização do osso trapezóide e mostrou-se eficente para resolução do quadro álgico-funcional. Possibilitando retorno às suas atividades habituais.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao Dr. José Ribeiro de Menezes Neto (USP), pela colaboração na análise hitopatológica e elucidação diagnóstica deste caso.
2. Kaplan, E.B.: Functional and surgical anatomy of the hand, 3rd ed., 1984.
3. Kauer, J.M.G. & Lange, A.: The carpal joint anatomy and function. Hand Clin 3: 23,198.
4. Lowry, W.E. & Cord, S.A.: Traumatic avascular necrosis of the capitate bone: case report. J Hand Surg 6: 245, 1981.
5. Marek, F.M.: Avascular necrosis of the carpal lunate. Clin Orthop 10: 96, 1957.
6. Match, R.M.: Nonspecific avascular necrosis of the pisiform bone: case report. J Hand Surg 5: 341, 1980.
7. Palmer, A.K., Shahen, J.R., Werner, F.W. & Glisson, R.R.: The extensor retinaculum of the wrist: an anatomic and biomechanical study. J Hand Surg [Br] 10: 11, 1985.
8. Taleisnik, J. & Kelly, P.J.: The extraosseous and intraosseous blood supply of the scaphoid bone. J Bone Joint Surg [Am] 48: 1125, 1966.