a Departamento de Ortopedia, Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP,Brasil
c Instituto de Ortopedia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
d Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil


Introdução

As luxações esternoclaviculares representam menos de 5% detodas as luxações da cintura escapular. A maioria dos casosde luxação anterior da articulação esternoclavicular (AEC)não apresenta sintomas. Entretanto, alguns pacientes podemdesenvolver instabilidade anterior crônica e permanecer sin-tomáticos. Nesses casos é indicado o tratamento cirúrgico.

A AEC é mais comumente luxada anteriormente, já quea força necessária para deslocar a clavícula posteriormenteé 50% maior devido à maior resistência da cápsula articularposterior. Inúmeras técnicas são descritas para reconstruira articulação esternoclavicular, como a sutura intramedu-lar, a ressecção medial da clavícula, a fixação com placa,o reforço com o tendão subclávio e reforço com o tendãosemitendinoso.

A literatura é escassa em relação à reconstrução com usodo tendão palmar longo nos casos de instabilidade anteriortraumática. Embora raras, essas lesões merecem diagnósticorápido e tratamento eficaz para evitar complicações futuras.

O objetivo deste trabalho foi relatar um caso de um atletade motocross que evoluiu com instabilidade anterior traumá-tica crônica da articulação esternoclavicular e foi submetidoa reconstrução cirúrgica com o uso do tendão palmar longoautógeno.

Relato de caso

Paciente masculino, 33 anos de idade, com história de luxaçãoanterior da AEC após queda durante manobra em um campe-onato de motocross. O mecanismo de trauma foi uma quedade aproximadamente dois metros de altura com o braço emabdução e extensão. Inicialmente foi empregado o tratamentoconservador, com uso de tipoia funcional por três semanas,e sintomático, além da reabilitação com fisioterapia por trêsmeses. No entanto o paciente evoluiu com dor, desconfortoe instabilidade da AEC ao elevar o membro superior acimada cabeça, além de dificuldade de deglutição quando fletiaa coluna cervical anteriormente. Não apresentava limitaçãoda amplitude de movimento. Durante o exame físico eravisível a luxação anterior com as manobras de abdução eextensão e também ao manipular a extremidade proximalda clavícula (fig. 1). Os exames de imagem mostraram umdeslocamento anterior da clavícula e pequenos fragmentosósseos periarticulares

Técnica cirúrgica

Optamos por usar uma modificação da técnica do "oito",7baseados nos estudos de Spencer et al.,8,9que fizeram umestudo com cadáveres a fim de comparar a resistência detrês diferentes técnicas de reconstrução: reconstrução com otendão semitendinoso em "oito", o reforço com o uso do ten-dão subclávio e a reconstrução do ligamento intramedular.Concluíram que a reconstrução em "oito" foi a técnica maisresistente para deslocamentos esternoclaviculares anteriores.

A anestesia geral foi induzida com o paciente na posição dedecúbito dorsal com o tronco inclinado a 40?. A incisão longi-tudinal de 10 cm foi feita no nível da AEC. A articulação foicompletamente luxada anteriormente para separar o disco daclavícula. O espaço articular e os tecidos adjacentes estavampreenchidos com tecido cicatricial e os ligamentos esterno-claviculares anterior e posterior e o costoclavicular estavamrompidos. O tecido da cicatriz foi removido e a dissecção sub-periosteal e sutil da clavícula proximal foi feita a fim de evitardanos ao tronco braquiocefálico e outras estruturas posteri-ores, o que restaurou a mobilidade da clavícula e permitiu aredução. Retiramos o tendão palmar longo ipsilateral de 20 cm(fig. 6) e o reparamos com sutura tipo Krakow com fios depolietileno de alta resistência. Dois túneis anterossuperior eanteroinfeiror de 3,5 mm foram feitos na extremidade proxi-mal da clavícula e esterno a 15 mm da face articular. Os furoseram comunicados na intramedular e exteriorizados pela facearticular de ambos os lados. O enxerto foi passado pelos orifí-cios em forma de oito modificado e suas extremidades foramsuturadas conjuntamente (figs. 7 e 8). A estabilidade da AECfoi então testada com os movimentos do ombro e se evitou aextensão máxima.

Pós-operatório

O paciente foi imobilizado com tipoia americana por quatrosemanas. Após esse período a tipoia foi removida e movi-mentos ativos foram permitidos. Em oito semanas foi iniciadoum programa de fortalecimento muscular e exercícios contraresistência.

No fim de seis meses de seguimento o paciente não apre-sentava dor ou instabilidade quando solicitada a AEC (fig. 9).Um discreto desconforto e uma ligeira saliência da AEC perma-neceram, mas não afetaram suas atividades, o que permitiu avolta às pistas de corrida com seis meses de pós-operatório.

Discussão

Este estudo procurou mostrar uma modificação da técnicade reconstrução em "oito" para as luxações anteriores daAEC. A reconstrução usa o palmar longo e evita o tendão dosemitendineo e, consequentemente, uma morbidade maior.O paciente apresentou excelente estabilidade da AEC apósdois anos de seguimento com a restauração completa daamplitude de movimento e melhoria dos sintomas, inclusiveda incomum dificuldade de deglutição que apresentava.

A maioria dos casos de luxação anterior da AEC aguda étratada conservadoramente. No entanto, essas lesões, muitas

vezes, podem evoluir para instabilidade crônica. Nenhum tra-tamento adicional deve ser aplicado se o paciente não referirdor ou desconforto (raro nas luxações anteriores).10,11Deve--se avaliar criteriosamente cada caso, a fim de diferenciarluxação crônica de instabilidade crônica. Intervenções cirúr-gicas podem ser benéficas para os pacientes com luxaçãoanterior crônica da AEC que apresentam instabilidade, des-conforto ou dor.

Estudos mostram bons resultados funcionais com o uso deenxertos autólogos do tendão palmar longo para reconstruçãoda AEC.12-14Essa técnica é biológica e, portanto, sujeita amenos complicações se comparada com o uso de placas eoutros implantes. Mesmo com bons resultados, as placaspodem causar complicações inerentes aos implantes não bio-lógicos, bem como a necessidade de retirada. Os usos dealoenxertos ainda traz o risco de infecção. Optamos pelo usoFigura 5 - Imagem de tomografia computadorizadacom reconstrução 3 D (visão inferior) que mostra odeslocamento da AEC.do palmar longo por apresentar baixa morbidade no sitio doa-dor, além de fácil retirada. Sabemos que em torno de 30% daspessoas o palmar longo é ausente e nossa segunda escolhaseria o semitendíneo.

Várias técnicas para reconstrução da AEC foram introdu-zidas, incluindo fixação com placas, fixação com âncoras,fixação da cápsula e do disco articular, reconstrução em"oito" com enxerto de tendão autólogo e reconstrução comenxerto da fáscia esternocleidomastóidea.1,4,15Ressecções daporção medial da clavícula também foram relatadas. O tra-tamento ideal permanece desconhecido, já que há poucosestudos com resultados em longo prazo. Friedrich et al.15rela-taram bons resultados clínicos com o tendão do grácil autólogocomo enxerto na reconstrução em "oito" para um caso deluxação esternoclavicular anterossuperior crônica. Bae et al.1relataram boa estabilização em nove pacientes que foramFigura

submetidos a reconstrução da AEC com o enxerto entrelaçadoem "oito" através de túneis pré-perfurados. Poucos estudosrelataram vantagem na reconstrução em "oito" relacionadaa estabilidade primária. Spencer e Kuhn9fizeram um estudocom cadáveres a fim de comparar a resistência de trêsdiferentes técnicas de reconstrução: reconstrução com o ten-dão semitendinoso em "oito", reforço com o uso do tendão

subclávio e reconstrução do ligamento intramedular. Con-cluíram que a reconstrução em "oito" foi a técnica maisresistente para deslocamentos esternoclaviculares anteriores.Além disso, uma recente revisão sistemática de relatórios clí-nicos mostrou que a técnica de reconstrução que envolveenxerto de tendão em "oito" foi mais resistente do que outrastécnicas para o tratamento da instabilidade crônica da AEC.

Enxertos autólogos comumente usados nas reconstruçõesda AEC são o grácil, o semitendíneo, o palmar longo e os ten-dões plantares.12,14,15Enxertos autólogos são usados a fimde evitar o riscos de infecção e para facilitar a integraçãodo tecido, com o objetivo de um resultado positivo emlongo prazo. Entre enxertos autólogos, acreditamos que o ten-dão do grácil e o do palmar longo, como por nós usado, sejamos ideais, pois o seu diâmetro resulta em menor morbidade.Os resultados em médio prazo do nosso paciente confirmaramesses achados, já que não houve morbidade à área doadora.

Um passo potencialmente perigoso na nossa técnica é aperfuração de túneis no esterno e na clavícula, devido aorisco de lesão das estruturas nobres posteriores.10Portanto, assaídas dos orifícios no esterno e na clavícula devem ser prote-gidas com o uso de um afastador, a fim de evitar esse tipo delesão.

Conclusão

Nosso estudo apresentou um caso de luxação anterior crônicada articulação esternoclavicular (AEC) tratado com sucessocom o uso de uma modificação da reconstrução em "oito". Essatécnica mostrou ser segura e eficaz e permitiu um retorno totalàs atividades esportivas do paciente.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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