a Departamento de Ortopedia, Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP,Brasil
c Instituto de Ortopedia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
d Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil
Introdução
A fratura avulsão do ligamento cruzado posterior (LCP) é con-siderada uma lesão rara.1A localização não usual dessa lesão,bem como o fato de ter ocorrido simultaneamente com a avul-são distal do ligamento patelar ipsilateral, torna esse casoainda mais incomum.
O objetivo desta pesquisa foi apresentar o primeiro caso defratura avulsão do LCP em uma localização não usual associ-ada a ruptura distal do ligamento patelar ipsilateral.
Relato de caso
Um adolescente do sexo masculino de 17 anos, saudável, quesofreu um trauma devido a um acidente de motocicleta, evo-luiu imediatamente com dor, hemartrose e incapacidade dedeambular. O paciente foi levado à emergência de um hospi-tal e transferido para o nosso instituto após uma semana delesão. O exame físico revelou edema duas cruzes em quatrono joelho direito e arco de movimento de 30 a 700.
A radiografia do joelho direito evidenciou um fragmentoósseo tibial localizado no intercôndilo com uma altura patelarpreservada (fig. 1). Foi feita uma ressonância (RM) do joelhodireito com o objetivo de esclarecer melhor a lesão e planejara abordagem cirúrgica, considerando que o exame clínico foiprejudicado pela presença de hemartrose e limitação articu-lar. A RM do joelho direito evidenciou uma ruptura distal doligamento patelar, bem como uma fratura avulsão do LCP como fragmento ósseo localizado no intercôndilo (fig. 2).
A cirurgia ocorreu dois dias após a internação com o paci-ente em decúbito dorsal. Foi usado torniquete e feita umaincisão reta anterior no joelho para abordagem do ligamentopatelar e outra posteromedial na posição de quatro do joelhopara a abordagem da fratura avulsão do LCP. A técnica cirúrgicaempregada foi a redução cruenta e osteossíntese com parafusocanulado de 3,5 mm rosca total para a fratura avulsão do LCP(fig. 3). A osteossíntese foi testada com uma flexão cuidadosada articulação do joelho. Em relação ao ligamento patelar foiobservada uma ruptura distal suturada com furos transósseose fio ethibond 2,0.
No pós-operatório foi usado um imobilizador longo do joe-lho por seis semanas que era removido para exercícios dereabilitação ativa a fim de evitar atrofia do quadríceps. O arcode movimento foi de zero a 1200e a função total do joelho foiobtida em seis meses.
O paciente foi reavaliado com uma semana, 15 dias, ummês, 45 dias, dois meses e mensalmente até o sexto mês deevolução, quando as consultas passaram a ser trimestrais. Foifeito seguimento do paciente, que retornou às suas ativida-des habituais, durante um ano por meio de controle clínico eradiográfico. Essas atividades habituais consistiam em deam-bular sem queixas álgicas e futebol recreacional duas vezes nasemana. Na avaliação funcional do joelho usamos o sistemade Lysholm modificado.2Na análise pré-operatória foi obtido
o conceito ruim. Em contrapartida, no pós-operatório obtive-mos a média de 95 pontos, considerada uma média excelentesegundo o mesmo sistema de avaliação (figs. 4 e 5A-B).
Discussão
Entre as lesões isoladas do LCP, a lesão por avulsão óssea tibialé a que apresenta o maior consenso na literatura quanto àindicação cirúrgica e à precocidade da intervenção,3pensa-mento com que concordamos e que defendemos.
A lesão isolada por avulsão da inserção tibial do LCPapresenta-se com maior frequência em jovens e é de naturezaessencialmente traumática.4Os acidentes motociclísticos sãoa maior causa desse tipo de lesão.4Nosso relato de caso corro-bora essas afirmações. Segundo Trickey,5o mecanismo usualda fratura avulsão do LCP é um trauma anterior na tíbia com ojoelho fletido. Acreditamos que esse tenha sido o mecanismode lesão sofrido pelo paciente. Na literatura encontramos ape-nas um artigo que cita a localização incomum do fragmentoavulsionado do LCP no intercôndilo.6Em razão disso, observa-mos a raridade do nosso caso e a relevância da publicação.
A controvérsia no tratamento da lesão da fratura avul-são do LCP situa-se na via de acesso escolhida. Em funçãodisso, optamos pela abordagem cirúrgica posteromedial dojoelho.7Optamos pela abordagem com duas incisões devido àpresença simultânea de lesão da inserção distal do ligamentopatelar e fratura avulsão do LCP. Além disso, o acesso pos-teromedial evita o posicionamento do paciente em decúbitoventral e não há necessidade de anestesia geral.
A avaliação clínica é essencial, porém o exame de imagem écomplementar e de fundamental importância na localização eavaliação da dimensão do fragmento. As radiografias do joelhosão os primeiros exames complementares a serem solicitados.O exame radiográfico evidenciou a patela em sua altura nor-mal. Lembramos que a lesão isolada do LCP é rara e com a RMpodemos observar a presença de lesões associadas. Em nossorelato de caso, a ressonância magnética do joelho confirmouo fragmento avulsionado do LCP no intercôndilo, bem como alesão distal do ligamento patelar. A RM foi fundamental paraevitar que a lesão do ligamento patelar fosse negligenciada.
Outra controvérsia é o tipo de fixação no fragmento avul-sionado do LCP.7Em função disso, optamos sempre por usarexames de imagens de melhor detalhamento do fragmentoósseo quando comparados com as radiografias convencionais.Achamos que a RM ou a tomografia computadorizada nos aju-dam no planejamento cirúrgico. No momento da cirurgia nãoé raro termos dois tipos de dispositivos e no intraoperatóriooptarmos por parafuso ou âncoras.
No pós-operatório há a controvérsia entre manter ou nãoo joelho imobilizado por causa da associação das lesões.Devemos lembrar que esse tipo de lesão ocorreu em um ado-lescente. Nos pacientes dessa faixa etária as ordens médicastêm maior risco de ser desrespeitadas.8O esqueleto ima-turo apresenta um menor risco de rigidez articular quandocomparado com o da população adulta.8Em função disso,defendemos o uso de brace por seis semanas, com retirada diá-ria para exercícios de ganho de arco de movimento e reforçomuscular.
Os principais objetivos de um bom tratamento são o diag-nóstico correto e o reparo precoce das lesões com vistas a obterum melhor resultado funcional.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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