O menisco discóide é condição rara, ocorrendo entre 2,2 e 4,2% na bibliografia consultada(1,3,19), mais freqüente no compartimento lateral do joelho. Com freqüência, é unilateral, mas há relatos de casos bilaterais, tanto mediais(17), como laterais(9). Há relativamente poucos casos descritos de menisco medial discóide(5,12,13,16,20,23). Não há predileção por sexo. É raramente diagnosticado na infância(1).
Smillie(19) atribuiu sua etiologia à falha no desenvolvimento embrionário, hipótese refutada por Kaplan(11) que, em seus estudos embrionários, provou não haver etapa no desenvolvimento do menisco humano em que haja forma discóide.
Kaplan(11) também demonstrou as alterações de inserção posterior e o papel de ligamento de Wrisberg na etiopatogenia.
Várias classificações foram propostas, baseadas em aspectos embriológicos (tipos primitivo, intermediário e infantil de Smillie(19)), artrográficos (os seis tipos de Hall(10)) e artroscópicos (completo, incompleto e ligamento de Wrisberg(21) e de Watanabe(22)). Dickhaut & DeLee(7) afirmaram ser subjetiva a distinção entre os tipos completo e incompleto, baseada na percentagem de superfície articular tibial coberta pelo menisco, e classificaram-no apenas em completo e ligamento de Wrisberg.
O objetivo deste trabalho é verificar a incidência e a natureza dos meniscos discóides encontrados em nossa prática, assim como avaliar o resultado de meniscoplastia como medida terapêutica.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
Nossa casuística compreende 17 meniscos discóides em 1.000 artroscopias realizadas no período de março de 1989 a abril de 1994.
Onze pacientes apresentavam dor na interlinha lateral resistente a tratamento conservador; um, a clássica síndrome do snapping knee. Em cinco pacientes não havia sintomatologia no compartimento lateral do joelho, sendo considerados portadores(14).
Como exames complementares ao diagnóstico, foram realizadas apenas radiografias simples da articulação em ânte-ro-posterior e perfil, porém a artrografia(10) e a ressonância magnética(18) têm-se mostrado bons auxiliares.
Todos os meniscos discóides eram laterais, 10 no joelho direito (58,8%) e 7 no esquerdo (41,1%). Onze pacientes eram do sexo masculino (64,7%) e 6 do feminino (35,7%). A maior parte situava-se após a terceira década de vida (83,3%).
Utilizando a classificação de Watanabe(21), 15 foram considerados completos, 88,2% (figura 1); um incompleto, 5,8% (figura 2) e um do tipo ligamento de Wrisberg (figura 3). Somente em um caso havia lesão na massa meniscal.
Os casos sintomáticos (dor, derrame articular e estalido) foram tratados com meniscoplastia artroscópica da massa meniscal, nos tipos completo e incompleto, conferindo-lhe forma semilunar. No caso do tipo ligamento de Wrisberg, foi realizada meniscectomia total por via artroscópica.
Nos pacientes em que foi realizada meniscoplastia (figura 4), utilizamos anestesia local do joelho associada à sedação do paciente. Quando se realizou meniscectomia total, a anestesia raquiana foi o método de escolha.
O pós-operatório não foi diferente de meniscectomia artroscópica para tratamento de lesão traumática. Preconizamos carga imediata, mobilização articular e retorno às atividades cotidianas de acordo com a tolerância do paciente (figuras 5A e 5B).
Dos 17 pacientes, 9 retornaram para revisão em agosto de 1994. Destes, 7 haviam sido submetidos à meniscoplastia, 1 à meniscectomia total, e 1, considerado achado operatório, foi mantido em observação.
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O critério de avaliação baseou-se em sintomas referidos pelo paciente, grau de atividade e exame físico (quadro 1).
O seguimento variou de 4 a 63 meses, com média de 25,5 meses.
RESULTADOS
Todos os pacientes avaliados referiram ausência de dor na interlinha lateral, assim como estalidos ou derrame articular.
Cinco pacientes apresentavam atrofia da coxa homolateral; dois deles queixavam-se de dor maldefinida na região anterior do joelho, relacionada à solicitação do mecanismo extensor (subir e descer escadas).
Não houve complicações relacionadas ao procedimento artroscópico.
Todos voltaram a suas atividades diárias e esportivas habituais.

DISCUSSÃO
O menisco discóide é condição pouco freqüente. Em nos-sa série de 1.000 artroscopias, a incidência foi de 1,7%, si-tuando-se no intervalo entre 1,3 e 4,2%, já verificado por outros autores(1,3,19). O menisco medial não foi encontrado nessa amostra, reafirmando sua raridade.
Em nossa estatística, houve concordância com alguns autores, em relação à predominância do sexo masculino(3,13,19) e à faixa etária, após a terceira década(3,19).
A dor na interlinha lateral foi o principal sintoma, concordando com a literatura pesquisada(1,19), em cujas séries a ordem de freqüência foi dor, seguida de estalido, derrame e limitação do arco de movimento do joelho.
Apenas em 4, dos 29 meniscos discóides de Smillie(19), havia a síndrome do snapping knee (13,7%). Em nossa série verificamo-la em apenas um caso (5,8%).
Na maioria dos trabalhos pesquisados, o tratamento de escolha foi a meniscectomia total(3,15,19). Considerando os efeitos adversos de tal procedimento a longo prazo(8), optamos, nos tipos incompleto e completo, por ressecção da porção central da massa meniscal, conferindo-lhe forma semilunar, seguindo tendência conservadora que, atualmente, norteia o tratamento das afecções meniscais(4,6).
No paciente com o tipo ligamento de Wrisberg, realizamos meniscectomia total devido às anomalias de inserção periféricas que, certamente, manteriam a subluxação do menisco remanescente, caso optássemos por meniscoplastia.
Nos casos com tipo incompleto e completo, realizamos protocolo de anestesia local do joelho associada à sedação do paciente, nosso método de escolha para realizar procedimentos de subtração em lesões meniscais(2). Todavia, no paciente com o tipo ligamento de Wrisberg, optamos por raquianestesia devido ao eventual aumento no tempo cirúrgico em razão da meniscectomia total.
Dos nove pacientes avaliados na revisão, cinco apresentavam atrofia da coxa homolateral, apesar de não manifestar dor na interlinha ou derrame articular; em dois deles havia sintomatologia relacionada com solicitação do mecanismo extensor. Acreditamos que reabilitação pós-operatória realizada de maneira mais adequada pode influir de maneira significativa nesse aspecto.
Consideramos a proposta de meniscoplastia como procedimento promissor e tem sido nossa primeira opção para os meniscos discóides de inserção periférica competente.
A melhoria clínica e funcional foi importante, a morbidade é pequena e não houve complicações associadas ao método.
O efeito protetor da cartilagem do joelho, quando se opta pela meniscoplastia, deverá ser avaliado no futuro, com tempo de seguimento maior.
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