INTRODUÇÃO

A escoliose idiopática é uma doença freqüente na população em geral e de etiologia desconhecida(6,13,19). Alguns auto-res a consideram como resultado de alterações neuromuscu-

(1,2,10,12,14,20).

Um dos estigmas das doenças neurológicas evolutivas ou não evolutivas é a presença do pé cavo(8). Alguns dados da literatura mostram haver aumento da incidência do pé cavo associado à escoliose idiopática(1,5,7). Baseados nesses fatos, propusemos-nos a correlacionar neste trabalho a incidência de pé cavo com a de escoliose, mediante o estudo da impressão plantar de pacientes portadores desta doença.

MATERIAL E MÉTODOS
Estudamos dois grupos de pacientes, provenientes do Se-tor de Ortopedia e Traumatologia, no total de 96 indivíduos. Estes pacientes foram divididos em dois grupos. O primeiro grupo era constituído de 48 pacientes matriculados no Setor de Coluna Vertebral (relacionados de acordo com as iniciais, registro hospitalar, idade, sexo, impressão plantar dos pés direito e esquerdo, topografia da curva, seu valor e sua intensidade na tabela 1), portadores de escoliose idiopática. Eram sete (14,58%) homens e 41 (85,42%) mulheres (gráfico 1), com idade variando de dez a 23 anos (média de 16,5 anos).

Os pacientes com escoliose idiopática foram previamente examinados clinicamente, segundo os critérios de diagnóstico propostos pela Scoliosis Research Society(9), e submetidos a exames complementares, como a radiografia simples e ressonância magnética. Quando havia alteração no exame clínico, como manchas na pele e alterações neurológicas, entre outras, ou nos exames complementares, o paciente era excluído do trabalho. A escoliose dos pacientes do grupo I foi estudada mediante radiografia simples em posição ortostática nas incidências ântero-posterior, perfil e bending test (inclinações laterais). As curvas foram medidas pela técnica de Cobb (fig. 1). Com isso as curvas escolióticas foram classificadas em leves (até 30 graus), moderadas (30 a 60 graus) e graves (mais que 60 graus), segundo Gazioglu et al.(4).

No grupo I os pacientes portadores de escoliose idiopática tiveram seus pés analisados pela podografia, em pedígrafo com impressão plantar de tinta sobre papel quadriculado de 0,5cm. A técnica consiste em apoio unipodal durante a impressão sobre o pedígrafo, o que é feito para ambos os pés. A imagem impressa foi analisada segundo os critérios de Va-lenti(16) para pés cavos e Viladot(17) para pés planos e normalidade, como se segue:

Classificação de Valenti(16):
Pé cavo de 1º grau: há notável adelgaçamento do istmo que une o retropé e o antepé, adelgaçamento este que pode ser filiforme, com o estilóide do 5º metatarso evidente ao centro.

Pé cavo de 2ºgrau: o istmo aparece interrompido por extensão variável de um a vários centímetros.

Pé cavo de 3º grau: ocorre desaparecimento total do istmo.

Obs.: a impressão plantar não guarda relação com o exame clínico e radiográfico.

Classificação de Viladot(17):

Pé normal: é aquele no qual a largura mínima do istmo não chega à metade da largura máxima do antepé.

Pé plano de 1º grau: a largura mínima do istmo é maior ou igual à metade da largura máxima do antepé.

Pé plano de 2º grau: há contato da borda interna do pé com o solo, mas a abóbada é mantida. É como se o arco interno tivesse cedido, mas a abóbada não tivesse caído.

Pé plano de 3ºgrau: desaparecimento completo da abobada plantar.

Pé plano de 4º grau: corresponde ao pé em balanço. A largura do apoio é maior na parte central que na anterior e posterior.

Fig. 1 – Método de Cobb

O segundo grupo constituiu-se de 48 indivíduos (relacionados na tabela 2, seguindo os mesmos critérios usados para

o primeiro grupo). Eram dez (26,32%) homens e 38 (73,68%) mulheres (gráfico 1) com idade variando de nove a 23 anos (média de 16 anos), escolhidos aleatoriamente entre pacientes que procuraram o Serviço de Pronto Atendimento com queixas não correlatas à coluna ou membros inferiores. Esses indivíduos foram submetidos ao estudo radiológico da coluna vertebral com radiografia simples em posição ortostática, nas incidências ântero-posterior e perfil. Naqueles nos quais se diagnosticou a presença de escoliose de achado incidental, a curva era medida pela técnica de Cobb (fig. 1). A podografia, com o pedígrafo e impressão plantar em papel quadriculado de 0,5cm, foi realizada em ambos os pés de todos os pacientes deste grupo. A análise da podografia fez-se pelo mesmo padrão adotado para o grupo I.

Os resultados obtidos foram analisados estatisticamente pelos testes do qui-quadrado(15) e de McNemar(11). Fixou-se em 0,05 ou 5% o nível de rejeição da hipótese de nulidade.

RESULTADOS
No grupo I, com 96 pés, encontramos três (3,13%) pés planos de 1º grau, 48 (50%) pés cavos de 1º grau, um (1,04%) pé cavo de 2º grau, oito (8,33%) pés cavos de 3º grau e 36 (37,5%) pés normais (gráfico 4).

E.B. PUERTAS, C.E.A.S. OLIVEIRA, C.A.S. NERY, M. CORTELAZO & A.A. AFFONSO Fº

Com relação à topografia da curva, a distribuição foi a seguinte: 27 (56,26%) curvas torácicas, sete (14,58%) cur-vas toracolombares, quatro (8,33%) curvas lombares e dez (20,83%) indivíduos apresentaram o padrão dupla curva.

Tomando-se em consideração a intensidade da curva, no grupo I, foram encontrados seis (12,50%) pacientes com cur-vas do tipo leve, dos quais cinco (83,30%) se associaram à presença de cavismo; 29 (60,40%) pacientes com curvas do tipo moderada, dos quais 20 (69,0%) se associaram à presença do cavismo e 13 (27,10%) pacientes com curvas do tipo grave, dos quais sete (53,8%) se associaram à presença do cavismo (gráficos 2 e 3).

   

ESTUDO DA ASSOCIAÇÃO PÉ CAVO-ESCOLIOSE IDIOPÁTICA

No grupo II, constituído também de 96 pés, encontramos a seguinte distribuição: dois (2,08%) pés planos de 1º grau, um (1,04%) pé plano de 2º grau e três (3,13%) pés planos de 3º grau. Foram observados, ainda, 39 (40,63%) pés cavos de 1º grau, quatro (4,17%) pés cavos de 2º grau, seis (6,25%) pés cavos de 3º grau e 41 (42,70%) pés normais (gráfico 4).

Com relação à topografia da curva deste grupo, dentre os 17 pacientes com escoliose, pudemos observar cinco (29,41%) curvas torácicas, oito (47,06%) curvas toracolombares e quatro (23,53%) curvas lombares.

Com relação à intensidade da curva, o grupo II apresentou 17 (100%) pacientes com curvas do tipo leve, dez (58,82%) destes associados à presença de cavismo.

Para fins de correlação de estatística, consideramos as variáveis presença de cavismo e associação com escoliose evidente ou não evidente (tabela 3).

Consideramos no grupo I a presença ou não de cavismo correlacionada com a intensidade da curva (tabela 4). E, por fim, correlacionamos a presença ou não de cavismo associado à presença ou não de escoliose (tabela 5).

Após a análise estatística, verificou-se que não houve associação significante entre a presença do pé cavo e a existência de escoliose evidente ou não (teste do qui-quadrado)(15).

Observou-se, ainda, que não houve associação significante entre a presença de pé cavo e o grau de escoliose (teste do qui-quadrado)(15) e também constatamos não haver associação significante entre a presença ou não de escoliose e a presença ou não de pé cavo (teste de McNemar)(11).

DISCUSSÃO
A escoliose idiopática é uma entidade clínica de etiologia desconhecida que, segundo alguns autores, como Herman(6), Sahlstrand(12) e Yamada(19), tem sua origem em distúrbios neurológicos. As doenças neurológicas evolutivas ou não evolutivas produzem alterações no arco plantar, gerando o pé cavo ou pé plano. Autores como Carpintero(1) e Hannon(5) relatam aumento de incidência de pés cavos em pacientes com escoliose idiopática.

A faixa etária estudada neste trabalho foi de nove a 23 anos, pois Volpon(18) e Engel & Staheli(3) afirmam que o desenvolvimento do arco plantar se dá nos primeiros quatro anos de vida e não há variação significante após os dez anos de idade.

A podografia sobre papel quadriculado de 0,5cm utilizada por nós é um método de baixo custo e fácil execução, apesar de não levar em consideração as alterações do retropé e de não quantificar a distribuição de cargas. Mesmo existindo outros métodos de avaliação do pé, devemos salientar que os

pacientes aqui estudados não apresentavam queixas relevantes a patologias dos pés. Por isso, este método, por nós usa-do, mostrou-se satisfatório.

As classificações de Viladot(17) e de Valenti(16) são aplicáveis às alterações do arco plantar. Devido a sua simplicidade, aplicaram-se bem ao método por nós adotado para avaliação dos pés.

Neste estudo encontramos incidência de 59,37% de pés cavos em pacientes com escoliose evidente e 51,05% de pés cavos em pacientes do grupo-controle, dentre os quais al-guns (17 ou 35,41%) tinham escoliose não evidente e apenas dez (20,83%) destes apresentavam pé cavo. A análise estatística não revelou significância quanto ao aumento de incidência de pés cavos em pacientes portadores de escoliose, seja ela evidente ou não. Isto discorda dos achados de Carpintero et al.(1), que afirmam em seu trabalho haver associação significativa entre a incidência de pés cavos e escoliose. Contudo, seu grupo-controle era formado de número significativo de indivíduos, escolhidos aleatoriamente, excluindo curvas abaixo de dez graus Cobb. O mesmo podemos referir quanto ao trabalho de Hannon(5), que tinha um grupo-contro-le de 540 indivíduos, em que a incidência de pés cavos na população de pacientes com escoliose foi significativa. Não observamos nível de significância por termos incluído neste trabalho curvas acima de um grau Cobb, o que, provavel-

mente, aumentou o número de pacientes portadores de escoliose não evidente.
A população analisada entre os grupos se equivaleu em relação a idade e sexo, o que tornou estatisticamente viável o trabalho. Não encontramos significância entre a intensidade da curva e pés cavos, fato já relatado por Carpintero et al.(1).

Assim, pudemos concluir que não houve correlação estatisticamente significante entre aumento da incidência de pés cavos em pacientes com escoliose, seja ela evidente ou não. Nem há relação significante entre a presença do pé cavo e a magnitude da curva.

REFERÊNCIAS
Carpintero, P. et al: The relationship between pes cavus and idiopathic scoliosis. Spine 19: 1260-1263, 1994.

Dretakis, E.K., Paraskevaidis, C.H., Zarkadoulas, V. et al: Electroencephalographic study of school children with adolescent idiopathic scoliosis. Spine 13: 143-145, 1988.

Engel, G.M. & Staheli, L.T.: The natural history of torsion and other factors influencing gait in childhood. Clin Orthop 99: 12-17, 1974.

Gazioglu, K., Goldstein, L.A., Femi-Pearse, D. et al: Pulmonary function in idiopathic scoliosis. J Bone Joint Surg [Am] 50: 1391-1399, 1968.

Hannon, K.: Pes cavus in patients with idiopathic scoliosis. J Bone Joint Surg [Am] 54: 200, 1972.

Herman, R.: Idiopathic scoliosis and the central nervous system: a motor control problem. Spine 10: 1-14, 1985.

Hoppenfeld, S., Lopez, R.A. & Molnar, G.: Plantar weight-bearing pattern in idiopathic scoliosis. Spine 16: 757-760, 1991.

James, H.E., McLaurin, R.L. & Watkins, W.T.: Remission of pes cavus in surgically treated spinal dysraphysm. J Bone Joint Surg [Am] 61: 1096-1098, 1979.

Moe, J.H., Winter, R.B., Bradford, D.S. et al: Scoliosis and other spinal deformities, Philadelphia, W.B. Saunders, 1982. p. 209-212.

ESTUDO DA ASSOCIAÇÃO PÉ CAVO-ESCOLIOSE IDIOPÁTICA

10. Pincott Jr. & Taffs, L.F.: Experimental scoliosis in primates: a neurolo- gical cause. J Bone Joint Surg [Br] 64: 503-507, 1982.

11. Remington, R.D. & Schork, M.A.: Statistics with applications to biological and health sciences, Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice-Hall, 1970. p. 418.

12. Sahlstrand, T.: Equilibrium factors as predictors of the prognosis in ado- lescent idiopathic scoliosis. Clin Orthop 152: 232-236, 1980.

13. Sahlstrand, T., Onegren, R. & Nachemson, A.: Postural equilibrium in adolescent idiopathic scoliosis. Acta Orthop Scand 49: 354-365, 1978.

14. Sahlstrand, T., Petruson, B. & Onegren, R.: Vestibulo-spinal reflex ac- tivity in patients with idiopathic scoliosis. Acta Orthop Scand 50: 275- 281, 1979.

15. Siegel, S.: Estadistica no parametrica, Mexico, Ed. Trillas, 1975. p. 346.

16. Valenti, V.: Ortesis del pie, Madrid, Medicina Panamericana, 1979. p. 104-106.

17. Viladot, A.P.: Dez lições de patologia do pé, 2ª ed., 1984 (trad. 1986) Livraria Roca, p. 65-66.

18. Volpon, J.B.: Footprint analysis during the growth period. J Pediatr Orthop 14: 83-85, 1994.

19. Yamada, K.: Etiology of idiopathic scoliosis. Clin Orthop 184: 50-57, 1984.

20. Zetteberg, C., Aniansson, A. & Grimby, G.: Morphology of the paraver- tebral muscles in adolescent idiopathic scoliosis. Spine 8: 457-462, 1983.