Somente após a criação da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão em 1959 é que esta especialidade realmente se desenvolveu no país. Antes disso ela era praticada por cirurgiões plásticos ou cirurgiões gerais, que cuidavam principal-mente dos defeitos congênitos e lesões de partes moles e suas seqüelas, ou por cirurgiões ortopédicos, que cuidavam principalmente das lesões osteoarticulares. Nessa ocasião a maior influência na formação destes cirurgiões vinha da Europa, principalmente França e Inglaterra.
PIONEIROS DA CIRURGIA DA MÃO NO BRASIL
Na primeira metade do século, alguns homens desempenharam papel decisivo na evolução da Cirurgia da Mão no Brasil e foram eles os pilares e responsáveis pelo aparecimento da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão.
Em São Paulo, no Pavilhão Fernandinho Simonsen da Santa Casa de Misericórdia, no Departamento de Ortopedia, sob a chefia do Professor Domingos Define, foi criado o primeiro Serviço de Cirurgia da Mão no Brasil, em 1945. Este Serviço foi organizado e dirigido por Orlando Graner durante 23 anos; ele treinou dezenas de cirurgiões de mão. Mais tarde Graner ajudou a organizar mais dois Serviços de Cirurgia da Mão: um no Hospital dos Servidores Públicos do Estado e outro na Escola Paulista de Medicina, onde, em 1972, Walter Albertoni, seu discípulo e por ele treinado, organizou o Serviço de Cirurgia da Mão. Graças aos esforços de Albertoni, a Escola Paulista de Medicina foi a primeira instituição médica brasileira a incluir no currículo a disciplina de Cirurgia da Mão. Graner sempre foi um trabalhador incansável, sério e produtivo, tendo publicado vários trabalhos no Brasil e no exterior. Dotado de grande inteligência e curiosidade científica, foi praticamente um autodidata, não tendo recebido qualquer influência direta de outros centros avançados. Ele foi sucedido na Santa Casa por Edmur I. Lopes, que ainda dirige o Serviço de Cirurgia da Mão, e Heitor J.R. Ulson, hoje no Hospital Samaritano de São Paulo e no Hospital Universitário da Unicamp, em Campinas.
Em 1952 o Professor Godoy Moreira, chefe do Departamento de Ortopedia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, criou o segundo Serviço Especializado de Cirurgia da Mão no Brasil, que foi organizado e dirigido por Lauro Barros Abreu até 1978. Após seu afastamento (aposentado), foi substituído por Ronaldo J. Azze, que juntamente com Marcos C. Ferreira (em 1974) criou o primeiro Serviço Organizado de Microcirurgia na América do Sul. Foi no Serviço do Hospital das Clínicas de São Paulo, onde se realizaram os primeiros reimplantes de membros, em 1965.
Abreu, ortopedista, desejando mais treinamento em lesões cutâneas de mão, solicitou e obteve uma bolsa de estudos através do Conselho Britânico. Em 1944 saiu do país através de Buenos Aires-Argentina, pois o Brasil participava da Segunda Guerra Mundial junto com os aliados. Após 28 dias de viagem em um navio misto britânico, chegou a Liverpool. Seu contato inicial foi com H. Gillies, que muito o ajudou, a ponto de querer que ele aprendesse técnicas de correção de orelhas, o que não o interessava. Após três meses, visitou por igual período Watson-Jones (Londres). Visitou também Robert Jones e Agnes Hunt Hospital (em Oswestry), o serviço de lesões de nervos periféricos de Seddon (em Oxford) e mais tarde o Centro de Reabilitação da RAF. A partir de 1959, Abreu organizou mais de 20 Cursos de Pós-graduação em Cirurgia da Mão e publicou mais de 40 trabalhos científicos sobre a especialidade.
Ainda em São Paulo, outro homem que desempenhou importante papel na Cirurgia da Mão no Brasil foi Alípio Per-net. Ele foi médico da Força Aérea Brasileira. Inicialmente, como cirurgião geral, chefiou a Clínica Cirúrgica do Hospital da Aeronáutica em Recife. De 1944 a 1952 Pernet exerceu a Cirurgia Plástica. Foi enviado aos Estados Unidos para treinar em Cirurgia da Mão, no serviço de Mason, Kock e Allen em Chicago e posteriormente visitou W. Littler em Nova York. Regressando ao Brasil, trabalhou intensamente pela divulgação da Cirurgia da Mão no país e em 1953 criou o Serviço de Cirurgia da Mão no Hospital do Servidores Públicos Municipais de São Paulo. Pernet publicou três livros e 49 trabalhos referentes à Cirurgia da Mão.
O maior incentivador da criação da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão foi Danilo C. Gonçalves, do Rio de Janeiro. Ortopedista de formação britânica, insatisfeito com seus resultados da cirurgia de tendões flexores, decidiu fazer treinamento com Guy Pulvertaft na Inglaterra. Casado com uma inglesa, estabeleceu excelente relacionamento social com seu mestre. No Hospital Souza Aguiar, do Rio de Janeiro, um Serviço de Pronto-Socorro, chefiou o Serviço de Ortopedia e teve a oportunidade de tratar um número elevado de mãos traumatizadas. Gonçalves criou o Serviço de Cirurgia da Mão do Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, onde problemas relativos à artrite reumatóide eram freqüentes. Além de Derby, manteve contatos com vários serviços de Cirurgia da Mão na Inglaterra, como no Royal National Orthopaedic Hospital (Londres), Accident Hospital (Birmingham), Royal Infirmary (Manchester) e Royal Infirmary (Edimburgo). Seu discípulo e colaborador dedicado foi José Raul Chiconelli, que continuou sua obra, principalmente no treinamento e formação de novos especialistas.
Graças aos esforços de Danilo Gonçalves foi fundada no Rio de Janeiro, em 17 de junho de 1959, a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, que constou inicialmente de 44 fundadores entre ortopedistas e cirurgiões plásticos. Muito justamente ele foi eleito seu primeiro presidente.
Em 1965, sob a presidência de Henrique Bulcão de Moraes, do Rio de Janeiro, foi organizado o 1º Congresso Internacional de Cirurgia da Mão. Este evento foi marcante na história da Cirurgia da Mão no Brasil e estimulou muitos cirurgiões a se dedicarem à especialidade. Neste Congresso compareceram como convidados Erik Moberg, Kauko Vainio, B. O'Brien, J. Boyes, G. Stack, Conway, G. Loda, Fir-po, Luiz G.Correa e outras expressões mundiais. Bulcão de Moraes, que era cirurgião geral no Rio de Janeiro, observou que a maioria das cirurgias abdominais era eminentemente extrativa, o que contrariava sua personalidade de reconstrutor. Em 1951 foi para os Estados Unidos como fellow em Cirurgia Geral. Ficou seis meses no Massachusetts General Hospital e a seguir no Baltimore City Hospital, onde estagiou na Ortopedia. Nesta época conheceu Raymond Curtis, que procurava um hospital de emergência para desenvolver sua experiência. O interesse dos residentes na ocasião era direcionado à Cirurgia Vascular e Torácica e assim Bulcão de Moraes tornou-se "voluntário", colaborando com Curtis. Foi criado um ambulatório e todas as emergências ficaram a cargo de Bulcão. Curtis exigiu que Bulcão fizesse dois anos de treinamento em Cirurgia Plástica e após este período o aceitou como "fellow voluntário". Em 1957, retornando ao Brasil, trabalhou no Hospital das Forças Armadas e na Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro. Em 1972 inaugurou seu Serviço de Cirurgia da Mão na Enfermaria 11 da Santa Casa, de onde se afastou em 1996. Seu colaborador dedicado foi Jacy C. Alvarenga.
HISTÓRIA RECENTE DA CIRURGIA DA MÃO NO BRASIL
A partir da experiência de São Paulo e Rio de Janeiro novos Centros de Cirurgia da Mão começaram a surgir em outros Estados do Brasil. Em Curitiba, Estado do Paraná, Luiz Carlos Sobania, sob a influência do Professor Heinz Rücker, do Departamento de Ortopedia do Hospital das Clínicas, criou o seu Serviço de Cirurgia da Mão, formando especialistas e exercendo grande importância para o Sul do País. Em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, região central do Brasil, Arlindo Pardini, após treinamento com Adrian Flatt em Iowa City, com Alfred Swanson em Grand Rapids, Michigan, e com Campbell-Reid em Sheffield, Inglaterra, criou em 1972 um Serviço de Treinamento em Cirurgia da Mão, formando até hoje 50 especialistas para o Centro, Norte e Nordeste do País e América Latina. Como presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, Pardini organizou a Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade e conseguiu o reconhecimento da Cirurgia da Mão como uma especialidade, pelo Conselho Federal de Medicina, no Brasil. Pardini publicou dois livros em colaboração com todos os chefes de Serviços de Cirurgia da Mão no Brasil: um sobre Lesões Traumáticas e outro sobre Lesões Não-Traumáticas da Mão.
No Brasil, para um serviço de Cirurgia da Mão treinar especialistas é necessário que a Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, após vis-toriá-lo, o credencie como Centro de Treinamento na especialidade, para um programa de um ano de Residência. Um dos critérios para o candidato ser aceito é que tenha feito previamente três anos de residência em Ortopedia ou Cirurgia Plástica. Após um ano de residência em um Serviço credenciado pela Sociedade, o cirurgião pode fazer um concurso nacional e obter assim o título de Especialista em Cirurgia da Mão, reconhecido pela Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina.
Existem no Brasil 15 Centros de Treinamento reconhecidos pela Sociedade Brasileira para formação de Especialistas em Cirurgia da Mão:
Em São Paulo: Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (chefe: Ronaldo J. Azze), Escola Paulista de Medicina (chefe: Walter M. Albertoni), Santa Casa de São Paulo (chefe: Edimur I. Lopes), Hospital das Clínicas, Departamento de Cirurgia Plástica (chefe: Marcos C. Ferreira), Hospital do Servidor Público Municipal (chefe: Luiz C. Angelini), Hospital da Polícia Militar (chefe: Gilberto H. Ohara).
Em Campinas-SP: Hospital Universitário da Unicamp (che-fe: Heitor J.R. Ulson), Hospital Universitário da PUC (che-fe: Nelson M. Leite).
Em Sorocaba-SP: Conjunto Hospitalar Sorocaba (chefe: Edie B. Caetano).
Em Ribeirão Preto-SP: Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (chefe: Claudio H. Barbieri).
No Rio de Janeiro: Santa Casa do Rio de Janeiro (chefe: Henrique Bulcão de Moraes), Hospital de Tráumato-Ortope-dia (chefe: Fernando A.R. Barros), Hospital Universitário Pedro Ernesto (chefe: José Maurício do Carmo).
Em Curitiba-PR: Clínica de Fraturas e Ortopedia XV (che-fe: Luiz C. Sobania).
Em Belo Horizonte-MG: Hospital Ortopédico (chefe: Arlindo G. Pardini).
A Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão tem atualmente 180 Membros Titulares (Especialistas) e 180 Membros Associados. Até 1996 os Congressos Nacionais da especialidade eram realizados a cada dois anos, mas a partir de 1997 os Congressos serão anuais. Até hoje já foram realizados 16 congressos nacionais que foram sempre presididos pelo Presidente da Sociedade:

Além destes Congressos Nacionais, foram realizados dois Congressos Internacionais: em 1965 sob a presidência de Henrique Bulcão de Moraes e em 1993 o IV Congresso Sul-Americano de Cirurgia da Mão sob a presidência de Arlindo Pardini.
A SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA DA MÃO E A SOCIEDADE SUL-AMERICANA DE CIRURGIA DA MÃO
A Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão tem contribuído muito para o desenvolvimento da especialidade na América do Sul. Em 1992 colaborou decididamente na reorganização da Sociedade Sul-Americana de Cirurgia da Mão. Neste ano, Arlindo Pardini foi eleito seu presidente. Ele, junta-mente com Walter Albertoni, Eduardo Zancolli e Guillermo Loda, elaborou um novo estatuto para aquela Sociedade, que permitiu o grande desenvolvimento que ela teve a seguir. Em 1993 Pardini organizou o IV Congresso Sul-Americano de Cirurgia da Mão, em Belo Horizonte, junto com o Congresso da Sociedade Brasileira de Terapeutas da Mão. A este Congresso compareceu Robert MacFarlane, presidente da Federação Internacional da Sociedade de Cirurgia da Mão, além de Ronald Linscheid, Philipe Saffar, Tatsuya Tajima, Eduardo Zancolli, G. Allende, Brunicardi, Camarillo, Contreras, Loda e cerca de 400 cirurgiões de mão e terapeutas de mão brasileiros e sul-americanos. Em 1995, sob a presidência de Rocolfo Contreras, no V Congresso Sul-Americano em Caracas-Venezuela, a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão teve importante papel na programação científica daquele evento e, em 1996, organizou e ministrou juntamente com a Sociedade Argentina um curso de Mão em Santiago do Chile. Este curso foi a semente para a futura criação da Sociedade Chilena de Cirurgia da Mão. Em novembro de 1997 Eduardo R. Zancolli, atual presidente da Sociedade Sul-Americana de Cirurgia da Mão, realizará o VI Congresso Sul-Americano em Buenos Aires e em 1999, Walter Albertoni, o presidente eleito para o período 98-99, organizará em São Paulo o VII Congresso daquela Sociedade.
A Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão foi uma das primeiras sociedades desta especialidade a ser criada no mundo. Foi uma das sociedades fundadoras da Federação Internacional de Sociedades de Cirurgia da Mão (IFSSM). A SBCM tem como patronos: Sterling Bunnell, Guy Pulvertaft e Marc Iselin para homenagear os pais da Cirurgia da Mão que exerceram grande influência na sua criação.
Como uma especialidade médica própria, a Cirurgia da Mão no Brasil tem progredido extraordinariamente nas últimas décadas e, com base na sua estrutura de ensino, treinamento e educação continuada, pode-se prever um futuro de mais progresso e brilhantismo para a Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão.
1. Abreu, L.B.: O desenvolvimento da cirurgia da mão no Brasil, Trabalho apresentado em Cerimônia de Abertura do IX Congresso Brasileiro de Cirurgia da Mão, em Belo Horizonte-MG, 7 de setembro de 1983.
2. Maia, A.B.S.: História da ortopedia brasileira, publicada pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, 1986.
3. Moraes, H.B.: Comunicação pessoal, dezembro 1996.