<DIV style="TEXT-ALIGN: justify; MARGIN-TOP: 10px; PADDING-LEFT: 10px; PADDING-RIGHT: 10px"> <DIV style="PADDING-RIGHT: 9px; FONT-FAMILY: 'Century Gothic', Arial; COLOR: #495e37; FONT-SIZE: 11px"> <P></P></DIV><BR> <DIV style="FONT-FAMILY: 'Century Gothic', Arial; COLOR: #495e37; FONT-SIZE: 14px; FONT-WEIGHT: bold; PADDING-TOP: 3px">INTRODUÇÃO</DIV> <DIV style="PADDING-RIGHT: 10px; FONT-FAMILY: 'Century Gothic', Arial; COLOR: #495e37; FONT-SIZE: 13px"></DIV> <DIV style="PADDING-RIGHT: 10px; FONT-FAMILY: 'Century Gothic', Arial; COLOR: #495e37; FONT-SIZE: 13px"> <P align=left>"O pinçamento do manguito rotador é patologia degenerativa e resulta de alterações intrínsecas e/ou decorrentes de microtraumatismos que os tendões sofrem contra a borda óssea do acrômio e ligamento coracoacromial, principalmente ao se realizar a elevação do braço(2). Outro fator que contribui é a existência de região hipovascularizada no tendão su-pra-espinhal, próximo de sua inserção no tubérculo maior, correspondendo exatamente à região de maior impacto mecânico, dificultando a reparação tecidual(4). Esses fatores predispõem ao desenvolvimento de quadro inflamatório progressivo com dor e limitação de movimento que pode terminar em rotura do tendão(8). </P> <P>Em termos de anatomia comparada da cintura escapular, os mamíferos desenvolveram várias modificações em relação aos outros animais, como clavícula bem desenvolvida e móvel, escápula alargada e processo coracóide maior. Essas alterações foram necessárias para possibilitar maior mobilidade do membro superior. No homem, novas alterações ocorreram por causa da posição ereta e da não utilização dos membros superiores para deambulação. Essas modificações podem ser reunidas como: achatamento ântero-posterior da caixa torácica, dorsalização e lateralização da escápula, aumento do acrômio e processo coracóide, aumento da fossa infraespinhal, migração distal do deltóide e diminuição da massa do supra-espinhal(3). </P> <P>Essas características tornam difícil encontrar um animal de laboratório não primata que possa ser usado como mode-lo para o estudo das patologias do ombro. Entretanto, recentemente, Soslowsky et al.(6,7) estudaram vários animais e verificaram que o rato tem o tendão do supra-espinhal posicionado diretamente abaixo do acrômio. Esses autores injetaram colagenase no tendão do músculo supra-espinhal do rato, implantaram um fragmento de tendão de Aquiles no espaço subacromial e observaram as alterações aí ocorridas. Verificaram que elas se assemelhavam àquelas encontradas em degenerações do manguito encontrado em seres humanos. Concluíram que o ombro do rato pode ser um modelo animal adequado para investigar processos fisiopatológicos envolvidos nas degenerações do manguito rotador. Entretanto, ressaltaram que havia necessidade de pesquisas adicionais. </P> <P>Em razão dessas ponderações, é proposta desta investigação explorar melhor esse modelo, estudando a vascularização tendínea do rato e tentando provocar lesões no manguito rotador no sentido de comparar as alterações vasculares com as encontradas no homem. <P><STRONG>MATERIAL E MÉTODOS</STRONG></P> <P>Foram utilizados 30 ratos da variedade Wistar, adultos e fêmeas, divididos em três grupos. Dez animais foram destinados ao estudo-piloto, dez para o estudo da vascularização normal do manguito rotador e dez para o estudo da vascularização após injeção de pancreatina no espaço subacromial. Em todos os animais os dois ombros foram aproveitados para estudo. </P> <P>Estudo-piloto - Esta fase do projeto objetivou padronizar a metodologia de pesquisa, avaliando a anatomia do ombro do rato, com a dissecação dos músculos e tendões envolvidos (supra-espinhal, infra-espinhal e subescapular), método de estudo da vascularização do manguito e método de diafanização desses músculos e tendões. A partir desses resultados padronizou-se a técnica para o estudo dos dois grupos seguintes e descrita a seguir. </P> <P>Técnica de injeção de vasos para o estudo da vascularização - O animal foi morto com inalação excessiva de éter sulfúrico, sendo realizada a abertura da cavidade abdominal e expostos os grandes vasos. A veia cava inferior foi seccionada e a aorta abdominal canulada no sentido ascendente e aí injetado soro fisiológico até que o líquido de refluxo pela veia se tornasse límpido. </P> <P>Em seguida, pela aorta abdominal foram injetados aproximadamente 100ml de solução composta de 70% de sulfato de bário e 30% de tinta nanquim(9). Tanto as injeções do soro como as do corante foram feitas manualmente com seringa comum e com cuidado para não exagerar na pressão, evitando o rompimento dos vasos. Esse treinamento foi feito na etapa-piloto. </P> <P>Em seguida, o animal foi imerso em solução de formol tamponado a 10%, durante 24 horas. Depois, foi seccionado na região baixa do tórax, decapitado e mantida apenas a porção corpórea com a cintura escapular, para processamento nas etapas seguintes. </P> <P>Os ombros foram dissecados, a pele removida, o membro anterior amputado no terço médio do úmero e os músculos do manguito rotador cuidadosamente isolados e descolados de suas inserções na escápula, mantidas apenas as inserções nos tubérculos do úmero. A escápula e o restante do úmero foram desprezados. A peça resultante foi tratada com solução de ácido clorídrico 0,5N durante 24 horas para descalcificação da cabeça umeral, que depois foi recortada de modo a ter o tamanho reduzido, mas preservando-se as inserções tendíneas. Obteve-se, então, um conjunto composto pelo cor-po muscular do infra-espinhal, supra-espinhal, subescapular, juntamente com o manguito rotador e parte dos tubérculos umerais. </P> <P>O espécime foi preso pelas extremidades musculares em um suporte de papelão para impedir que se deformasse nas etapas subseqüentes. O processo de diafanização seguiu a técnica de Spalteholz, com as modificações propostas por Volpon &amp; Santos Neto(9), compreendendo desidratação progressiva em álcool, imersão em benzeno puro por sete dias e, depois, em solução de benzoato de benzila por dez dias. Nessa etapa, a peça já estava clareada e foi conservada, para análise, em solução meio a meio de benzoato de benzila e salicilato de metila. </P> <P>O exame da peça foi feito com esta mergulhada na solução conservante e com auxílio de microscópio estereoscópio. Todas as peças foram fotografadas em filmes ASA 400 em diapositivo de 35mm. </P> <P>Agrupamento dos animais - Os animais foram distribuídos em dois grupos: A - grupo tratado: composto de dez ratos, em que foi realizada uma injeção de pancreatina no espaço subacromial de cada ombro; B - grupo-controle: composto de dez ratos que receberam uma injeção de mesmo volume de soro fisiológico no espaço subacromial, nos dois ombros. </P> <P>A solução de pancreatina a 10% foi obtida a partir da diluição do pó desta substância em soro fisiológico, com filtragem em papel. Para as injeções os ratos foram anestesiados com éter sulfúrico por via inalatória e utilizado 1ml da solução de pancreatina, em seringa de insulina. O espaço subacromial foi abordado pela face posterior, inferiormente ao acrômio, em depressão aí existente e facilmente percebida pela palpação. </P> <P align=left>O sacrifício de todos os animais ocorreu após seis semanas. Tanto no grupo tratado, quanto no controle, o processamento do material ocorreu da forma já descrita no experi-mento-piloto. </P> <P align=center><BR><BR><IMG alt="" src="http://www.rbo.org.br/images/1997/09_set/set97075_img_21.jpg"></P> <P>No exame das peças atentou-se para os detalhes da vascularização normal e após tratamento com pancreatina, nas regiões dos corpos musculares, dos tendões do manguito rotador e das inserções ósseas. <P><STRONG>RESULTADOS</STRONG></P> <P>Vascularização normal - Todos os corpos musculares apresentaram grande vascularização, com vasos de diversos calibres realizando amplas anastomoses entre si. Cada músculo era vascularizado por pelo menos dois grandes troncos arteriais; um ou dois deles penetravam no músculo pela peri-feria do corpo muscular. Outro tronco penetrava pela extremidade distal do músculo, próximo da origem da porção tendínea. Este tronco, por sua vez, provinha de um tronco maior que se bifurcava e originava um ramo para cada músculo adjacente (fig. 1). </P> <P>A região tendínea do manguito apresentava-se relativamente avascular, principalmente na porção correspondente ao supra-espinhal. Vasos provenientes dos tubérculos do úmero anastomosavam-se com alguns vasos do manguito (fig. 2). </P> <P>Animais submetidos a injeção - À dissecção havia mais aderências entre os componentes do manguito e as estruturas adjacentes mas, macroscopicamente, não se encontrou lesão no músculo ou no manguito. </P> <P align=left>A vascularização, tanto do corpo muscular como dos tendões, no lado injetado, era bem maior que o controle e caracterizada pela proliferação de vasos de menor calibre, de for-mato mais irregular. A região do manguito manteve-se hipovascularizada (fig. 3). Entretanto, não foi visibilizada alteração que pudesse sugerir lesão localizada do tendão. </P> <P align=center><BR><BR><IMG alt="" src="http://www.rbo.org.br/images/1997/09_set/set97075_img_22.jpg"></P> <P><STRONG>DISCUSSÃO</STRONG></P> <P>Os fatores relacionados com a degeneração do manguito rotador são classificados como intrínsecos ou extrínsecos. Os primeiros seriam decorrentes diretamente da sobrecarga funcional, enquanto os segundos atuariam por meio de compressão externa, principalmente pelo atrito contra o arco coracoacromial. Quais desses fatores seriam primários ou os mais importantes ainda é motivo de discussão(7). O desenvolvimento de um modelo animal pode contribuir para esse esclarecimento. </P> <P>Soslowsky et al.(7) investigaram a anatomia do ombro de inúmeros animais e verificaram que somente o rato apresenta um grande tendão supra-espinhal passando sob um arco. Observaram, também, que durante a locomoção desse animal, ocorre o atrito do tendão contra o acrômio. Esses mesmos autores constataram que o ombro de primatas é o que mais se assemelha morfológica e funcionalmente ao humano. Entretanto, a dificuldade de obtenção e o custo de trabalhar com esses animais inviabilizam seu uso rotineiro em laboratório. Essen et al.(1) estudaram a anatomia, histologia e função do ombro de cangurus, pois estes animais não usam os membros superiores para carga. Encontraram que, embora pudessem ser adequados para o estudo da anatomopatologia, apresentam diferença de cinemática com o homem e ausência de ligamento coracoacromial, não se tornando um bom modelo. Além disso, só seriam facilmente acessíveis na Austrália, terra dos autores. </P> <P>Assim, o rato, até o presente, parece ser o melhor animal para estudo de patologias do manguito rotador. Recentemente, Schneeberger et al.(5) também utilizaram o rato em mode-lo de lesão extrínseca de manguito e produziram roturas maciças de manguito. </P> <P>Nossos resultados mostraram que, quanto à vascularização, há semelhança do manguito do rato e do homem: ambos apresentam área avascular mais localizada na região do tendão do supra-espinhal. Esse achado reforça a impressão de Soslowsky et al.(6,7). Entretanto, nossa tentativa de provocar lesões do manguito não foi bem-sucedida, pois apenas obtivemos uma reação fibrótica inespecífica. Ressalte-se que, diferentemente daqueles autores, não injetamos a enzima dentro do tendão, mas no espaço subacromial e, talvez, esta tenha sido a razão da falta de resposta. Nossa opção pela injeção no espaço subacromial objetivou não provocar agressão muito grande ao tendão e obter respostas mais específicas. Cremos que o uso de outras enzimas possa dar melhores resultados e este assunto já está sendo motivo de investigação. </P> <P>A partir da avaliação dos dados obtidos concluímos que: </P> <P>1) a vascularização arterial do manguito rotador de rato é rica e proveniente de vários troncos; </P> <P>2) há regiões de hipovascularização nas inserções tendíneas desses músculos, mais evidentes no músculo supra-es-pinhal, assemelhando-se ao que ocorre no homem; </P> <P>3) o ombro injetado com pancreatina desenvolveu aumento difuso da vascularização nos músculos do manguito rotador, sem apresentar lesões que se assemelhassem com as observadas no homem. <BR></P></DIV> <DIV style="FONT-FAMILY: 'Century Gothic', Arial; COLOR: #495e37; FONT-SIZE: 14px; FONT-WEIGHT: bold; PADDING-TOP: 3px">REFERÊNCIAS</DIV><BR> <DIV style="PADDING-RIGHT: 9px; FONT-FAMILY: 'Century Gothic', Arial; COLOR: #495e37; FONT-SIZE: 11px"> <P>Essen van, J., Krisnan, J. &amp; Rozenbilds, M.: The kangaroo shoulder: a comparative study with the human shoulder. Resumos do Encontro Científico Anual da Sociedade de Ombro e Cotovelo da Austrália. J Shoulder Elbow Surg 6: 187, 1997. </P> <P>Neer, C.S.: Impingement lesions. Clin Orthop 173: 70-77, 1983. </P> <P>O'Brien, S.J., Arnoczky, S.P., Warren, R.F. et al: "Developmental anatomy of the shoulder and anatomy of the glenohumeral joint", in Rock-wood, C.A. &amp; Matsen III, F.A. (eds.): The shoulder, Philadelphia, W.B. Saunders, 1990. Cap. 1, p. 1-51. </P> <P>Rathburn, J.B. &amp; Macnab, I.: The microvascular pattern of the rotator cuff. J Bone Joint Surg [Br] 52: 540-553, 1970. </P> <P>Schneeberger, A.G., Nyfeller, R.W. &amp; Gerber, C.: Structural changes of the rotator cuff caused by experimental subacromial impingement. Resumos do 9º Congresso da Sociedade Européia da Cirurgia do Ombro e Cotovelo. J Shoulder Elbow Surg 6: 193, 1997. </P> <P>Soslowsky, L.J., Carpenter, J.E., Banerji, I. et al: Development of an animal model for investigation on rotator cuff disease. Proc. 62nd Ann. Meet. Am. Acad. Orthop. Surg., p. 193, 1995. </P> <P>Soslowsky, L.J., Carpenter, J.E., DeBano, C.M. et al: Development and use of an animal model for investigation on rotator cuff disease. J Shoulder Elbow Surg 5: 383-392, 1996. </P> <P>Volpon, J.B., Erdman, K., Nisiyama, C.Y. et al: Ruptura do manguito rotador do ombro em pacientes com pinçamento crônico. Rev Bras Ortop </P> <P>24: 111-114, 1989. <BR>Volpon, J.B. &amp; Santos Neto, F.L.: Injeção de corantes nos vasos ósseos. Algumas considerações práticas. Rev Bras Ortop 18: 205-207, 1983. </P></DIV></DIV>