INTRODUÇÃO

É de consenso, na literatura, que o reimplante é o melhor procedimento para as amputações digitais distais, por seus resultados estéticos e funcionais(5-7,10,18,20,25,31,36,37,41-43).

Os tipos de reconstruções propostas para essas amputações podem variar desde a simples cicatrização(1,24,27,33,34) até as transferências parciais por retalhos microcirúrgicos(4,16,19, 22,29).

Esse tipo específico de trauma apresenta alguns problemas bem definidos: diminuição do tamanho digital, polpa na maioria das vezes neuromatosa, e um estético, pela ausência do complexo ungueal.

Quando existe impossibilidade de reparação pela sutura microcirúrgica do pedículo vasculonervoso, seja pelo tipo de trauma, pelo diâmetro arterial ou até mesmo por não se encontrar um sistema venoso capaz de assegurar a viabilidade do segmento reimplantado, a reposição + retalho poderá ser uma boa opção terapêutica, quando desejarmos preservar o tamanho digital, o complexo ungueal e sensibilidade funcional.

MATERIAL E MÉTODOS

Realizamos 11 casos (6 masculinos) de reposição + retalho entre 1994 e 1997, com idade média de 30 anos (extremos: 18-50). O tempo de seguimento médio pós-operatório foi de 18 meses.

Quanto ao dígito envolvido, havia: 5 indicadores, 3 médios e 3 anulares. Na totalidade dos casos a amputação foi completa e em 9/11 dos pacientes o mecanismo de trauma foi o esmagamento.

 

A técnica utilizada é idêntica àquela descrita por Fou-cher(15): excisão do segmento palmar da parte amputada, reposição do complexo osso-leito-unha e fixação por síntese ungueal ou fio único de Kirschner. A reposição é completada por um retalho homodigital neurovascular. Nessa série os retalhos utilizados foram: ilha unipediculada homodigital (9), Tranquilli-Leali (2).

Joshi(27) propôs um retalho unipediculado homodigital de pele dorsal às PDS da polpa digital. Depois, vários autores(14, 17,21,35) o descreveram utilizando a pele contígua à PDS. A ilha de pele é demarcada proximalmente à amputação e a dissecção do pedículo é feita pela incisão clássica de Brun-ner(3) até a articulação metacarpofalângica (MF). A área doa-dora poderá ser coberta por enxerto de pele parcial ou total.

O retalho de Tranquilli-Leali(39), popularizado por Atasoy et al.(2), é planejado de forma triangular sobre a pele volar da terceira falange. A dissecção é realizada por descolamento da polpa remanescente da terceira falange, com conseqüente tração distal.

RESULTADO

Analisamos de maneira descritiva e retrospectiva os seguintes aspectos: qualidade do complexo ungueal, sensibilidade discriminativa - 2 PD(11,23,32), mobilidade articular (interfalangiana proximal - IFP, e interfalangiana distal - IFD), tamanho digital comparativamente ao lado contralateral e intolerância ao frio.

Não encontramos báscula ungueal, mas em dois casos foi observado crescimento inadequado da unha sobre borda do retalho avançado, mas indolor.

A sensibilidade foi geralmente satisfatória, tendo em vista tratar-se de retalho neurovascular em média de 9mm, independente do utilizado e da idade do paciente.

Não se observou diferença significativa do tamanho digital.

Em dois pacientes, 20º de déficit de extensão da IFP foi evidenciado. A mobilidade média na IFD foi de 60º.

Infelizmente, 64% (7/11) dos pacientes referiram intolerância ao frio.


DISCUSSÃO

Nas amputações digitais distais, principalmente aquelas distais à inserção do tendão flexor superficial, o reimplante é o procedimento de primeira escolha quando o fragmento amputado está em bom estado e bem conservado.

Infelizmente, muitas vezes essa amputação é distal à inserção do tendão flexor profundo, zona III de Foucher(20), e existe muita dificuldade de encontrar-se uma artéria e/ou veia que seja anastomosável, do ponto de vista de técnica microcirúrgica. Nessa impossibilidade, a reposição + retalho é uma boa opção terapêutica.

Mantero & Berlotti(30) propuseram a reposição em dois tempos cirúrgicos. Na urgência, a simples reposição e, posteriormente, excisando a pele palmar necrosada, realizando, então, um retalho de "dedo cruzado" à cobertura dessa PDS. Os resultados sensitivos desse retalho são inferiores àqueles (8,9,17,21,27,35,38). Associado a esse fato, três procedimentos e um tempo maior de imobilização serão necessários.

Douglas(12) referiu bons resultados da simples reposição em crianças, prática bastante utilizada atualmente. Nessa série não há pacientes com idade inferior a 18 anos.

Elliot et al.(13) realizaram um interessante estudo comparativo entre a regularização e o reimplante e os confrontaram com a literatura, concluindo que os resultados obtidos com a anastomose microcirúrgica eram superiores.

Foucher & Norris(20) relataram uma série de reimplantes distais à inserção do TFP, em que o mecanismo de trauma geralmente é o esmagamento, com taxa de insucesso significativa - 65%.

Mas em 1994, Foucher et al.(15) referiram bons resultados com essa técnica de reposição + retalho, utilizando uma variedade de retalhos homodigitais à cobertura da PDS volar.

Há preferência de nossa parte pela confecção do retalho em ilha unipediculado homodigital, pela qualidade do tecido e pelo avançamento que se pode alcançar.

Nesta série, não se observou osteíte do fragmento reposicionado, provavelmente, devido à boa qualidade circulatória do retalho utilizado.

O déficit de extensão - 20º - ao nível da IFP foi devido indubitavelmente a dissecção mais extensa - MF - e imobilização inadequada, diferente daquela de intrinsec plus.

A báscula ungueal não foi observada, mas, devido a mau posicionamento distal do retalho, essa apresentou crescimento inadequado em dois casos, coincidentemente naqueles em que foi utilizado o retalho de Tranquilli-Leali(39).

E, infelizmente, ocorreu intolerância ao frio em 64% dos pacientes e não houve melhora com o tempo de seguimento pós-operatório.

Evidentemente, trata-se de uma técnica de exceção, quando o reimplante não é possível, mas ela proporciona resultados interessantes, principalmente quando conseguimos devolver ao paciente uma pinça funcional e sensível.

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