Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
O osteoma osteóide é uma lesão osteoblástica benigna que constitui aproximadamente 11% de todos os tumores ósseos benignos e usualmente ocorrem em homens jovens. Essa neoplasia é encontrada na segunda ou na terceira década de vida. Entretanto, pode ser vista em outras faixas etárias.1 Qualquer osso pode ser envolvido. Contudo, há uma predilec¸ão pelas extremidades inferiores: a metade dos casos envolve o fêmur ou a tíbia.2 A escápula é umosso raramente acometido e poucos casos têm sido relatados na literatura. Mosheiff et al.,3 em uma revisão da literatura, relataram o envolvimento de 12 escápulas em 1.236 casos de osteoma osteóide.
Relato de caso
Paciente do sexo feminino, 46 anos, destra, queixava-se de dor no ombro direito havia três meses, principalmente no período noturno, com pioria durante as atividades físicas e melhoria com o uso de antiinflamatórios não hormonais. Negava história de trauma ou doenc¸as prévias na articulac¸ão. Foi diagnosticada, previamente, como portadora de síndrome do impacto e tratadacomduas infiltrac¸ões subacromiaiscomcorticosteroides e sessões de fisioterapia, com melhoria parcial dos sintomas.
Ao exame físico, os ombros não tinham deformidades, tumorac¸ões ou lesões cutâneas e o trofismo muscular estava preservado. O arco de movimento ativo do membro afetado era ligeiramente limitado pela dor e o passivo era normal. As manobras provocativas para a articulac¸ão acrômio-clavicular (O'Brien, aduc¸ão forc¸ada e dor à palpac¸ão) eram fortemente positivas e os demais testes para o avaliar o manguito rotador e instabilidade da articulac¸ão do ombro eram negativos. Aradiografia na incidência de Zanca evidenciava alterac¸ões na articulac¸ão acrômio-clavicular (fig. 1). As imagens de ressonância magnética mostravam uma artrose acrômioclavicular com intenso processo inflamatório na região da articulac¸ão, com um cisto no acrômio, inicialmente interpretado como um geodo. Entretanto, chamou a atenc¸ão o fato
Figura 1 - Radiografia do ombro direito, incidência
de Zanca, que mostra artrose da articulac¸ão
acrômio-clavicular.
de haver intenso processo inflamatório ao seu redor, de ser muito regular e maior do que o habitual, além do que as imagens sugeriam a existência de algum conteúdo sólido dentro do mesmo (figs. 2A-B).
Foi feita a hipótese diagnóstica de osteoma osteóide e, então, solicitada uma tomografia computadorizada para essa confirmac¸ão; o nidus no interior do cisto pôde ser facilmente constatado (fig. 3).
Os exames laboratoriais complementares eram todos normais.
Optou-se pelo tratamento cirúrgico artroscópico e foi feita a ressecc¸ão do nidus (fig. 4), complementada com uma acromioplastia mais ampla do que o habitual, até a retirada de todo o tumor, e ressecc¸ão da extremidade distal da clavícula (procedimento de Mumford) (fig. 5). O diagnóstico foi confirmado por meio do estudo anatomopatológico.
A paciente teve rápida regressão dos sintomas, com recuperac¸ão completa do arco de movimento de func¸ão do membro acometido, e permaneceu assintomática até o seu último retorno, quando do pós-operatório de sete anos.
Figura 2 - Imagens de ressonância magnética do ombro direito, corte coronal (a) e corte axial (b), que mostram artrose
acrômio-clavicular com intenso edema na articulac¸ão e cisto (nidus) no acrômio, junto à articulac¸ão.
Figura 3 - Imagem de tomografia computadorizada axial do
ombro direito que mostra o osteoma osteóide no acrômio,
junto à articulac¸ão acrômio-clavicular.
Discussão A escápula é umsítio raro de localizac¸ão do osteoma osteóide e, por isso,muitas vezes não é incluído como diagnóstico diferencial de dor crônica no ombro.4 O paciente que tem um osteoma osteóide tem como característica uma dor que é predominantemente noturna e é aliviada pelo uso de aspirina ou anti-inflamatórios.5 A dor noturna é atribuída, muitas vezes, a doenc¸as do manguito rotador. No entanto, a faixa etária dos
Figura 4 - Imagem cirúrgica artroscópica, visão
subacromial, que mostra a ressecc¸ão do tumor com cureta.
Figura 5 - Imagem de ressonância magnética, ombro
direito, corte sagital, que mostra ressecc¸ão completa da
lesão (acromioplastia) e ressecc¸ão da extremidade lateral
da clavícula.
pacientes com osteoma osteóide faria com que a doenc¸a do manguito rotador fosse menos provável.
Múltiplas opc¸ões de tratamento para esse tumor estão disponíveis: terapia farmacológica, ablac¸ão percutânea por radiofrequência e procedimentos cirúrgicos que consistem na remoc¸ão completa do nidus, que pode ser conseguida por curetagem, ressecc¸ão em bloco e, mais recentemente, por via artroscópica, com bons resultados.6,7 Se os sintomas do paciente são adequadamente controlados, a medicac¸ão antiinflamatória pode ser usada como tratamento definitivo. Os doentes tratados dessa maneira geralmente experimentam a cura espontânea da lesão em três a quatro anos.8
Degreef et al.7 descreveram pela primeira vez a ocorrência de um osteoma osteóide no acrômio em uma paciente do sexo feminino de 56 anos, cujo tratamento foi a ressecc¸ão aberta da lesão. Kelly et al.6 descreveram um caso de ressecc¸ão artroscópica de um osteoma osteóide localizado na borda anterior da glenoide deumpaciente do sexo masculino de 30 anos, que havia sido submetido a duas cirurgias para tratamento de uma lesão SLAP. Os autores também relataram uma ressecc¸ão por via artroscópica de um osteoma osteóide localizado na base do processo coracoide de um paciente do sexo masculino de 12 anos.
Optamos pelo tratamento artroscópico, assim como nos casos descritos acima, por ser uma lesão benigna e pela possibilidade de podermos ressecar toda a lesão com mínimo dano tecidual. Essa opc¸ão mostrou-se eficaz e pode ser aplicada em casos semelhantes.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
1. Lee BG, Cho NS, Rhee YG. Unusual shoulder synovitis
secondary to an osteoid osteoma without a nidus in the
coracoid process: delayed appearance of a nidus. J Orthop Sci.
2010;15(6):825-8.
2. Mitsui Y, Gotoh M, Yoshida T, Hirai Y, Shinozaki T, Nakama K,
et al. Osteoid osteoma of the proximal humerus: a misleading
case. J Shoulder Elbow Surg. 2008;17(1):e13-5.
3. Mosheiff R, Liebergall M, Ziv I, Amir G, Segal D. Osteoid
osteoma of the scapula. A case report and review of the
literature. Clin Orthop Relat Res. 1991;262:129-31.
4. Glanzmann MC, Hinterwimmer S, Woertler K, Imhoff AB.
Osteoid osteoma of the coracoid masked as localized capsulitis
of the shoulder. J Shoulder Elbow Surg. 2011;20(8):
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5. Gracia IA, Itarte JI, Majo JB, Salo GB, Proubasta IR. Osteoid
osteoma of the coracoid process. J Southern Orthop Assoc.
2001;10(1):49-52.
6. Kelly AM, Selby RM, Lumsden E, O'Brien SJ, Drakos MC.
Arthroscopic removal of an osteoid osteoma of the shoulder.
Arthroscopy. 2002;18(7):801-6.
7. Degreef I, Verduyckt J, Debeer P, De Smet L. An unusual cause
of shoulder pain: osteoid osteoma of the acromion - a case
report. J Shoulder Elbow Surg. 2005;14(6):
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8. Heck Jr RK. Bone-forming tumors. In: Canale T, Beaty JH,
editors. Campbell's operative orthopaedics. 11th ed
Philadelphia: Saunders Elsevier; 2007.
p. 855-7.