O tumor glômico é uma lesão neoplásica benigna, geralmente única, que se forma no glomo terminal(1). Esta estrutura é uma anastomose arteriovenosa subcutânea distribuída por toda a superfície corporal, em particular nos leitos ungueais, polpas digitais, palmas das mãos e plantas dos pés(2).
O tumor relaciona-se com a regulação de temperatura corpórea e com a circulação sanguínea periférica(3).
O tumor é constituído por uma arteríola aferente, um vaso anastomótico chamado canal de Soucquet-Hoyer, envolto por fibras musculares lisas, uma veia eferente, fibras nervosas e cápsula periférica(2).
Histopatologicamente, o tumor está rodeado por cápsula fibrosa com numerosos espaços vasculares circundados por células endoteliais aplanadas e algumas camadas de células glômicas. Estas são de citoplasma eosinófilo, com grandes núcleos ovais ou cubóides, que se assemelham a células epiteliais(4,5).
A primeira descrição deste tumor ocorreu em 1812, por William Wood, que o descreveu como um nódulo subcutâneo doloroso(6). Em 1878, Kolaczek descreveu uma lesão nos dedos da mão com localização subungueal, acreditando que fosse uma variação do angiossarcoma(2). Masson, em 1924, fez uma descrição completa do tumor, que proporcionou a sua correta interpretação anatomopatológica(5).
Trata-se de uma lesão rara, mais freqüente em mulheres dos 20 aos 40 anos, e de etiologia desconhecida, que acomete principalmente o primeiro e segundo dedos da mão na região subungueal.
O aspecto do tumor é bastante característico: quando superficial, manifesta-se por um pequeno nódulo elástico e firme. A pele neste nível tem coloração roxo-escura ou púrpura. Se for mais profundo, é endurecido e com estas mesmas tonalidades(1).
Clinicamente, caracteriza-se por hiperestesia e dor, geralmente bem localizada e que se acentua quando há exposição ao frio(6).
O diagnóstico pode ser confirmado através do estudo radiográfico, ressonância magnética e pelo método de transiluminação. O diagnóstico diferencial deve ser feito com o hemangiopericitoma e neuroma.
Basicamente, o tratamento desta lesão é feito pela excisão cirúrgica da mesma, sendo que a maior complicação é a recidiva(7).
Nosso objetivo é apresentar a retrospectiva de nove pacientes com tumor glômico operados, com confirmação histopatológica.
CASUÍSTICA E MÉTODO
Nossa casuística é constituída por nove pacientes com diagnóstico de tumor glômico, confirmados histologicamente, tratados no período entre outubro de 1994 e maio de 1999.
Em relação ao sexo, seis eram do feminino (66,7%) e três do masculino (33,3%), com idade entre 29 e 63 anos, com média de 40,5 anos.
No tocante à cor da pele, houve apenas um caso de pele não branca.
A profissão dos pacientes estudados foi bastante variável: duas que se dedicavam a prendas domésticas, uma professora, uma cozinheira, uma atendente de enfermagem, um mecânico, um representante comercial, um aposentado e uma cirurgiã-dentista.
No que diz respeito à sintomatologia, o período de dor relatado pelos pacientes variou de oito meses a seis anos (média de dois anos e dois meses).
Os dados relatados foram agrupados na tabela 1, conforme número de ordem, iniciais do nome, sexo, idade, cor da pele, profissão e tempo de dor.
Todos os tumores estavam localizados nas falanges distais, sendo seis no polegar (66,7%), dois no quarto quirodáctilo (22,2%) e um no hálux (11,1%). Quanto à posição do tumor, sete eram subungueais (77,8%), um lateral (11,1%) e um na polpa digital (11,1%).



A avaliação clínica baseou-se na queixa de dor localizada na extremidade do dedo acometido, que piorava com a digitopressão e com a exposição ao frio. Apenas um paciente (11,1%) não referiu piora da dor quando exposto ao frio.
No estudo radiográfico foram encontradas alterações em dois pacientes: o de nº de ordem 2 apresentava uma depressão óssea na radiografia em incidência lateral; no paciente nº 7 observou-se uma área lítica na radiografia em incidência ântero-posterior.
Foram solicitadas tomografias computadorizadas para dois pacientes, as quais não revelaram alterações.
Esses itens foram dispostos na tabela 2, conforme número de ordem, dedo acometido, localização, dor ao frio, exame radiográfico, tomografia computadorizada e complicação pós-operatória.
Técnica cirúrgica
Os sete pacientes que apresentavam tumor com localização subungueal foram operados com acesso longitudinal duplo de 0,5cm de comprimento para exposição da matriz ungueal. Realizada "janela" na matriz sobre o tumor. Após ressecado o tumor e realizada curetagem da cortical da falange, procedeu-se a cuidadosa cauterização do leito tumoral com bisturi bipolar, evitando-se lesão do leito ungueal neste procedimento, seguido de sutura da matriz ungueal com fio categute 5,0 com agulha atraumática. A "janela" realizada na matriz foi fixada com fio de mononáilon 5,0. A sutura da pele realizada também com fio mononáilon 5,0.

Nos pacientes que apresentavam localização lateral do tumor e na polpa digital, foram utilizados acessos volares, fazendo-se a incisão na transição dorsovolar nas faces laterais do dedo e subungueal na parte distal do mesmo.
No pós-operatório foi realizado curativo local com gaze úmida e oclusão com algodão ortopédico seguida de enfaixamento.
Em relação à análise macroscópica intra-operatória, os tumores variaram de 2 a 8mm de diâmetro.
Todos os tumores ressecados foram encaminhados para exame anatomopatológico.



A documentação completa de um caso de tumor glômico, referente ao pacientes sob nº de ordem 5, encontra-se na fig. 3.
RESULTADOS
Os nove tumores ressecados enviados para exame anatomopatológico apresentaram confirmação histológica de tumor glômico.
No pós-operatório, a única complicação foi um defeito ungueal no paciente nº de ordem 9.
DISCUSSÃO
O tumor glômico é lesão tumoral benigna, mais freqüentemente localizado na polpa digital e região subungueal. A literatura também cita localizações mais raras, como sistema nervoso central, estômago, fígado, mediastino, traquéia, pulmões, ossos, articulações e órgãos genitais(2).
Corresponde a cerca de 1 a 5% dos tumores de mão. A incidência em relação a sexo e idade dos pacientes estudados em nossos trabalho está condizente com a literatura(6-8). A sintomatologia é muito típica e o diagnóstico é aparentemente simples, mas, por vezes, a falta de diagnóstico correto permite um quadro prolongado de dor e incapacidade funcional. A queixa de dor bem localizada, que piora com a digitopressão e com a exposição ao frio, é a sintomatologia mais exuberante dentre os casos estudados. Trata-se de uma patologia bem conhecida por cirurgiões da mão, mas geralmente não é diagnosticada por outros especialistas.
O estudo radiográfico pode revelar alterações, como erosão na falange acometida, ou apresentar-se inalterado. Outros métodos diagnósticos são a tomografia computadori-zada(3), a ressonância magnética(7) e o método de transiluminação, não empregados neste trabalho pelo alto custo para sua execução e falta de disponibilidade em nossa região.
A única forma de tratamento é a excisão cirúrgica do tumor e a via de acesso para sua abordagem deve levar em conta sua localização.
Neste trabalho houve pacientes com tumores glômicos situados na região subungueal, lateral e na polpa digital, sendo, portanto, utilizadas vias transungueais e também vias de acesso na transição dorsovolar.
Segundo Cornell, a persistência de sintomatologia nos três meses iniciais de pós-operatório seria indicação para nova exploração, pois um tumor retirado apenas parcialmente voltaria a produzir dor.
Os casos de dor após um ano de cirurgia seriam provavelmente explicados por uma nova lesão tumoral, e não recidiva.
Concordantes com trabalhos publicados previamente, os pacientes deste estudo relataram melhora completa da sintomatologia.
As complicações pós-operatórias descritas em literatura especializada são distrofia simpático-reflexa, infecção e seqüela ungueal; apenas o paciente nº de ordem 9 evoluiu com deformidade ungueal, sem causar alterações funcionais.
A técnica cirúrgica utilizada com o uso de lupa, a não ressecção da unha, sutura da matriz ungueal com fio absorvível e agulha atraumática, tem como objetivo minimizar as complicações pós-operatórias como defeito ungueal e cicatrização exuberante. A utilização de pequenas curetas e cuidadosa cauterização do leito tumoral com bisturi elétrico bipolar diminuem as probabilidades de recidiva.
CONCLUSÃO
O tumor glômico é lesão bastante incapacitante pela limitação álgica. Seu diagnóstico é simples, não necessitando de exames subsidiários de elevado custo. A técnica cirúrgica para a exérese do tumor não impõe dificuldades. Os resultados cirúrgicos são excelentes e a satisfação do paciente é plena, com baixos índices de complicações pósoperatórias.
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