As fraturas articulares do calcâneo apresentam elevada morbidade ao acometer pacientes numa faixa etária jovem e economicamente ativa. Causam grande incapacidade devido às complicações associadas, destacando: a dor e a rigidez articular crônica do retro e mediopé associadas à artrose das articulações subtalar, tornozelo e calcâneo-cubóide. Também podem ocorrer graves deformidades no retropé, que dificultam o uso de calçados convencionais devido ao alargamento e o varo do calcanhar, além do aplanamento do arco medial do pé(1).
Existem ainda controvérsias a respeito do método de tratamento das fraturas articulares desviadas do calcâneo. Os autores que defendem o tratamento incruento acreditam que o papel da articulação subtalar, como fonte principal de prognóstico, é superestimado, e que a longo prazo o resultado funcional é geralmente satisfatório(2-5).
O tratamento cirúrgico possibilita a restauração da anatomia óssea, porém os resultados funcionais dependem diretamente da qualidade da redução dos fragmentos ósseos desviados, do restabelecimento do formato do calcâneo e da correção dos desvios em varo do fragmento tuberositário. Tanto o abaulamento da parede lateral do calcâneo quanto os desvios das superfícies articulares subtalar e cal-câneo-cubóide devem ser reduzidos e fixados(6-9).
As possíveis complicações associadas ao tratamento cirúrgico devem ser levadas em conta. A deiscência de sutura associada ou não a necrose da pele pode provocar infecção cutânea e osteomielite do calcâneo, cujo resultado é muita vezes desastroso(10-13).
O objetivo deste trabalho é avaliar o resultado clínicofuncional da redução cruenta por via lateral única e fixação interna com placa e parafusos em pacientes com fratura articular desviada do calcâneo.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
No período compreendido entre janeiro de 1989 e julho de 1999, foram operados 160 pacientes (173 pés) portadores de fraturas articulares desviadas do calcâneo. De janeiro a julho de 1999, foram convocados para reavaliação 138 pacientes (149 pés), cujo tempo mínimo de seguimento pósoperatório foi de 18 meses.
Na admissão hospitalar, os pacientes foram imobilizados com goteira gessada suropodálica e submetidos à avaliação clínica e a exames por imagem.
No exame físico inicial, foram avaliadas as condições da pele com relação à presença de flictenas e abrasões, o grau de edema e a perfusão tecidual. Os pulsos pedioso e tibial posterior foram palpados e pesquisou-se a presença de sinais sugestivos de síndrome compartimental, tais como: alterações da sensibilidade e dor à extensão passiva dos dedos.
Foram realizadas radiografias de ambos os pés nas incidências dorsoplantar, perfil e axial de calcâneo. Os ângulos de Böhler e crucial de Gissane foram mensurados nas radiografias de perfil.
Sempre que possível, realizamos estudo tomográfico computadorizado do calcâneo. O paciente foi posicionado na mesa de exame de maneira convencional e realizaramse cortes coronais e axiais com 5mm de espessura.
As indicações para cirurgia basearam-se nos achados radiográficos e tomográficos. Na radiografia de perfil do pé, a ascensão do fragmento tuberositário, a diminuição da altura do calcâneo e dos ângulos de Böhler e crucial de Gissane foram consideradas como parâmetros a favor do tratamento cirúrgico. Na tomografia computadorizada, a presença de abaulamento lateral da parede do calcâneo, diminuição de sua altura e desvios das articulações subtalar e calcâneo-cubóide maiores do que 2mm foram indicativos de tratamento cirúrgico.
A cirurgia foi contra-indicada nos pacientes portadores de politraumatismo grave e traumatismo craniencefálico, em que havia comprometimento do estado geral. Alterações circulatórias periféricas (insuficiência arterial e/ou venosa), neuropatia diabética, idade avançada, más condições de pele e distúrbios psiquiátricos também foram contraindicações ao tratamento cirúrgico.
Os casos em que havia múltipla cominuição da fratura com fragmentos ósseos muito pequenos, prevendo-se, portanto, reconstrução inviável, também foram fatores que contra-indicaram o tratamento cirúrgico.
Todas as cirurgias foram realizadas por abordagem lateral única. Foi criado um retalho único de pele e tecido celular subcutâneo, no qual todas as estruturas possíveis de ser lesadas foram rebatidas para proximal junto com o retalho. Após a redução, realizou-se fixação provisória com fios de Kirschner. Neste momento, foram realizadas radiografias e, se a redução foi satisfatória, efetuou-se a fixação interna com placa e parafusos.
Na presença de falha óssea significativa, segundo julgamento clínico, utilizou-se enxerto ósseo esponjoso autólogo. Rotineiramente fizemos uso do dreno aspirativo, que foi usualmente retirado no segundo dia pós-operatório.
Os pés foram imobilizados com tala gessada suropodálica. Após duas semanas, foram retirados os pontos e con-feccionou-se bota gessada suropodálica, que foi mantida por 12 semanas. A carga parcial foi permitida após seis semanas.
Quarenta e um pacientes responderam à convocação, totalizando 45 pés (quatro bilaterais). Trinta e cinco pacientes eram do sexo masculino e seis do feminino. A média de idade no momento do acidente era de 44 anos (variando de 11 a 75 anos). Em dois pés a fratura foi exposta (4,5%) e dois pacientes (4,9%) apresentaram lesões associadas (fratura da coluna lombar).
Com exceção de dois pacientes (dois pés), que tiveram como mecanismo de trauma acidente automobilístico, os demais foram vítimas de queda de altura, com média de três metros (variação de um a nove metros). Em trinta e dois pés (71,1%), houve necessidade da utilização de enxerto ósseo esponjoso autólogo. O tempo médio de seguimento foi de quatro anos e seis meses (variando de um ano e seis meses a sete anos e dez meses).
Para programação cirúrgica e avaliação prognóstica, utilizamos a classificação radiográfica de Essex-Lopresti(14) e a tomográfica de Sanders(15).
Avaliação clínica pós-operatória
A avaliação clínica pós-operatória foi realizada por meio de questionário respondido pelo paciente, exame físico detalhado e fotografias dos pés feitas nas projeções de frente, de perfil e posterior.
Os dados coletados consistiram na soma das informações fornecidas pelos pacientes e nos resultados observados e analisados por dois examinadores independentes.
A avaliação funcional do pé foi feita com base na escala de avaliação funcional para retropé da AOFAS.
O questionário e o exame físico abordaram os seguintes itens: presença de dor lateral no retropé ou anterior no tornozelo (sim/não) e sua intensidade (leve, moderada ou grave). Medimos a mobilidade das articulações do tornozelo e subtalar, empregando método convencional com goniômetro, e comparamos as aferições no lado afetado com o lado contralateral, utilizado como controle. Pesquisamos a presença de deformidades residuais, tais como: dedos em garra, pé plano, desvios em varo ou valgo do calcâneo e alargamento do retropé. Procuramos a presença de sinais e sintomas associados às complicações decorrentes da cirurgia, como cicatriz exuberante provocada pela deiscência da sutura e/ou necrose de pele e infecção (superficial ou profunda).
Avaliamos a presença ou não de neuroma e/ou hipoestesia no território do nervo sural, sinais e sintomas de síndrome do túnel do tarso e osteodistrofia simpático reflexa.
Os pacientes foram questionados quanto à satisfação com o resultado do tratamento cirúrgico, respondendo a três opções oferecidas: satisfeito, satisfeito com restrições ou insatisfeito.
Avaliamos o tempo transcorrido desde o trauma inicial até o retorno ao trabalho e se houve ou não necessidade de mudança na atividade profissional, após o tratamento. Também pesquisamos a necessidade ou não de o paciente utilizar calçados especiais, devido a possíveis deformidades residuais.
Avaliação radiográfica pós-operatória
A avaliação radiográfica pós-operatória foi realizada a partir da análise das radiografias de ambos os pés nas incidências dorsoplantar, perfil e ântero-posterior do tornozelo e axial de calcâneo, todas com apoio.
Para avaliação do grau de correção das deformidades do calcâneo no pós-operatório, consideramos os ângulos de Böhler, crucial de Gissane, declinação do tálus e calcâneosolo. Para avaliação do grau de correção do abaulamento lateral da parede do calcâneo foi medida, em milímetros, a distância entre a fíbula e o calcâneo, a partir de uma radiografia na incidência ântero-posterior da articulação do tornozelo, posicionando-se o membro inferior em 20 graus de rotação interna.
O alargamento residual do calcâneo foi medido na incidência radiográfica axial de calcâneo a partir de um ponto situado a 4cm da extremidade distal deste osso. Mensurou-se a distância entre as paredes lateral e medial do calcâneo, que comparamos com o lado contralateral não fraturado, utilizado como controle. A quantidade de alargamento do lado afetado foi expressa em percentagem com relação ao lado controle.
Foi também estudada a presença ou não de artrose subtalar, tibiotalar e calcâneo-cubóide, assim como a presença ou não de osteoporose, osteonecrose, pseudartrose e seqüestro ósseo associado à infecção. Avaliamos ainda a presença ou não de deformidade em varo ou valgo do retropé. Esta avaliação foi realizada por dois observadores independentes, que por meio das radiografias descritas acima definiram a presença ou não de qualquer alteração. A artrose foi subdividida em leve (discreta presença de osteófitos e manutenção do espaço articular), moderada (presença de osteófitos e diminuição do espaço articular) e grave (grande presença de osteófitos e perda do espaço articular). A osteoporose foi subdividida em localizada ou generalizada.
RESULTADOS
No período de janeiro a julho de 1999, avaliamos 41 pacientes (45 pés) operados para corrigir fratura articular desviada do calcâneo. O acompanhamento mínimo foi de 18 meses. O tempo médio para início da carga foi de 5,2 meses (variando de dois a 12 meses) (tabela 1).
O tempo médio transcorrido desde trauma até o retorno ao trabalho foi de 7,9 meses (variando de três meses a três anos). Seis pacientes (casos 10, 24, 32, 33, 35 e 37) não retornaram ao trabalho e quatro tiveram que trocar a atividade original por outra mais leve (casos 3, 5, 12 e 38).


Todos os pacientes foram avaliados segundo a escala funcional da AOFAS para retropé. Foi encontrada média pósoperatória de 84,7 pontos (variando de 30 a 100 pontos).
Vinte e três pacientes (51,1%) apresentaram algum ti-po de dor pós-operatória: a maioria leve. Onze pacientes (24,4%) apresentaram marcha com alguma claudicação: a maioria discreta. Dezessete pacientes (37,7%) apresentaram limitação nas atividades diárias. Quatro pacientes (8,8%) caminhavam menos do que seis quarteirões. Vinte e dois pacientes (48,8%) apresentaram dificuldade para andar em terrenos irregulares. Trinta e cinco pacientes (94,6%) apresentaram alguma restrição à movimentação do retropé quando foi comparado o lado fraturado com o contralateral (tabela 2). Dois pacientes (5,4%) apresentaram restrição da movimentação articular do tornozelo. Um paciente (2,7%) apresentou consolidação viciosa em varo do retropé. Nenhum paciente apresentou instabilidade das articulações do tornozelo ou subtalar.



Com relação à satisfação pessoal com o resultado no tratamento, quatro pacientes (9,8%) ficaram insatisfeitos e 37 satisfeitos (91,2%) (tabela 1).


Os pacientes insatisfeitos tiveram média de 59,5 pontos (variando de 30 a 75 pontos) na escala funcional da AOFAS. As fraturas articulares do calcâneo destes pacientes foram agrupadas pela classificação radiográfica de Essex-Lopresti como grau IIB nos casos 13 e 33 e grau III nos casos 4 e 35. Pela classificação tomográfica de Sanders, foram agrupadas como grau IIA no caso 13 e IIC no caso 33. Os casos 4 e 35 não realizaram tomografias pré-operatória.
Avaliação radiográfica
O ângulo de Böhler no pré-operatório teve o valor médio de 0,87º (variando de -30º a 28º) e, no pós-operatório, de 22,8º (variando de -10º a 42º). Após o tratamento cirúrgico, o ângulo de Böhler sofreu correção media de 21,73º (variando de 0 a 48º) e ao comparar com o pé contralateral, houve correção percentual média deste ângulo de 62,8% (variando de 20 a 100%) (gráfico 1).
O ângulo crucial de Gissane, no pré-operatório, teve o valor médio de 96,5º (variando de 54º a 130º) e no pósoperatório de 106,4º (variando de 80º a 130º). O ângulo crucial de Gissane sofreu correção média de 7,93º (variando de -20 a 42º). Ao comparar com o pé contralateral, houve correção percentual média deste ângulo de 90,1% (variando de 72,7 a 100%) (gráfico 1).
Os ângulos calcâneo-solo e de declinação do tálus, me-didos somente no pós-operatório, tiveram valor médio de 17,3º (variando de 6º a 28º) e 18,3º (variando de 7º a 26º), respectivamente. Ao comparar com o pé contralateral, houve correção percentual média destes ângulos de 84,9% (variando de 50 a 100%) e 88,8% (variando de 44,4 a 100%), respectivamente (gráfico 1).


A diferença da distância entre a fíbula e o calcâneo teve valor médio de 1,8mm (variando de 0 a 10mm) e o alargamento do calcâneo teve valor médio de 13,3% (variando de 0 a 37,5%).
Em 42 pés (93,3%), foi observada a presença de artrose da articulação subtalar, sendo 18 (42,9%) leve, 13 (30,9%) moderada e 11 (26,2%) grave. Em 36 pés (80%), obser-vou-se artrose da articulação calcâneo-cubóide em 26 pés (71,1%), classificada como leve, em oito pés (22,9%), como moderada e, em dois pés (5,7%), como grave.
Osteoporose foi evidenciada em 16 pés (35,6%). Em cinco pés (31,3%), foi considerada como sendo localizada e, em 11 pés (68,7%), como generalizada.
Deformidade residual em varo do retropé foi encontrada em sete pés (15,5%).
Em nenhum pé foi observada osteonecrose, seqüestro ósseo ou pseudartrose.
Complicações pós-operatórias imediatas
Deiscência da sutura ocorreu em 18 pés (40%). Necrose da pele no local da incisão cirúrgica ocorreu em seis pés (13,3%). Infecção pós-operatória foi observada em seis pés (13,3%). Cinco infecções foram superficiais e evoluíram para cura após desbridamento local e antibioticoterapia sistêmica. Um paciente (caso 33) evoluiu com osteomielite crônica e foi tratado com retirada do material de síntese e desbridamento.
Complicações pós-operatórias tardias
Cinco pés (11,1%) apresentaram problemas relacionados à cicatriz exuberante, devido à necrose da pele e infecção local. Estes pacientes foram tratados com desbridamento, retirada de material de síntese e antibioticoterapia sistêmica.


A presença de dor lateral no retropé, associada aos tendões fibulares, foi observada em seis pés (13,2%). Dor anterior na articulação do tornozelo ocorreu em nove pés (20%). Dor na região do seio do tarso ocorreu em 28 pés (62,2%). Sinais e sintomas compatíveis com síndrome do túnel tarsal foram observados em um pé (2,2%). Parestesia no território do nervo sural ocorreu em 14 pés (31,1%) e hipoestesia em 35 pés (77,7%). Edema crônico esteve pre-sente em um pé (2,2%) e deformidades sugestivas de síndrome compartimental não diagnosticada, em um pé (2,2%) (tabela 3).
DISCUSSÃO
As fraturas articulares do calcâneo são lesões graves e costumam causar seqüelas permanentes e incapacitantes. Geralmente acometem indivíduos jovens, numa faixa etária em que são economicamente ativos, e podem determinar grave prejuízo socioeconômico, uma vez que os pacientes permanecem em recuperação por longo período de tempo e correm o risco de não retornar à sua atividade pro-fissional.
O tratamento das fraturas do calcâneo ainda é controverso. Os autores que defendem o tratamento incruento acreditam na obtenção de bom resultado funcional a longo prazo, evitando assim as complicações decorrentes do tratamento cirúrgico(2-5). Os que advogam o tratamento cruento crêem que o restabelecimento da forma e da congruência articular do calcâneo pode evitar complicações tardias(6-9).
Na grande maioria, as fraturas, na nossa casuística, eram graves. Noventa e dois por cento dos 26 pés submetidos ao exame de tomografia computadorizada apresentaram fraturas graus II e III da classificação tomográfica de San-ders(15). Utilizando a classificação radiográfica de Essex-Lopresti(14), obtivemos na nossa série três pés com fratura em lingüeta (6,6%), 23 pés com fratura com depressão articular (51,1%) e 19 pés com extensa cominuição das fraturas (42,2%).
Apesar da gravidade das fraturas operadas, observamos que a cirurgia possibilitou a restauração significativa do formato e da congruência articular do calcâneo. Isto pode ser evidenciado no estudo das radiografias pré e pós-operatórias. O valor médio do ângulo de Böhler no pré-opera-tório foi de 0,87º e no pós-operatório aumentou para 22,8º.
A cirurgia possibilitou a correção do ângulo de Böhler em 21,73º, em média. Ao compararmos o valor médio pósoperatório do ângulo de Böhler no lado afetado com o valor médio deste mesmo ângulo medido no pé contralateral normal, observamos que a cirurgia possibilitou uma correção média de 62,8%. O valor médio do ângulo de Gissane no pré-operatório foi de 96,5º e no pós-operatório aumentou para 106,4º, em média. A cirurgia possibilitou a correção média do ângulo de Gissane em 7,93º. Ao compararmos o valor médio pós-operatório do ângulo de Gissane no lado afetado com o valor médio deste mesmo ângulo, medido no pé contralateral normal, observamos que a cirurgia possibilitou correção média de 90,1% (gráfico 1).
Na avaliação pós-operatória dos ângulos calcâneo-solo e de declinação do tálus, realizamos a mensuração tanto dos pés fraturados quanto dos contralaterais. O valor médio do ângulo calcâneo-solo foi de 17,3º no lado fraturado, enquanto o valor médio do ângulo de declinação do tálus foi de 18,3º. Ao compararmos o lado afetado com o contralateral, observamos que a cirurgia propiciou correção percentual média de 84,9% no calcâneo-solo e 88,2% no de declinação do tálus (gráfico 1).
Utilizando a escala da AOFAS (retropé e tornozelo) para avaliação funcional pós-operatória, obtivemos pontuação média de 84,7 pontos. Considerando, arbitrariamente, o valor de 70 pontos como limite mínimo para considerar o resultado satisfatório, encontramos cinco pacientes (cinco pés) com pontuação inferior a 70 (11,1%). Em três destes pacientes, a fratura do calcâneo foi classificada radiograficamente como sendo do tipo depressão articular (grau IIB), enquanto os outros dois apresentaram fraturas com grande cominuição (grau III). Apesar da baixa pontuação na escala AOFAS, dois destes pacientes (casos 12 e 15) estavam satisfeitos com o resultado do tratamento e três insatisfeitos (casos 13, 33 e 35).
Neste grupo de pacientes cujo resultado clínico-funcio-nal foi considerado insatisfatório, a análise da capacidade de correção do formato do calcâneo, com base na mensuração angular de suas radiografias, mostrou que a média de correção dos valores dos ângulos de Böhler, Gissane, calcâneo-solo e declinação do tálus não apresentou diferença estatisticamente significante, segundo o teste t de Student, quando comparada com os valores médios encontrados no restante da nossa casuística. Segundo esses valores, observamos que a obtenção de boa qualidade na redução das fraturas articulares do calcâneo nem sempre constitui a garantia de resultado funcional satisfatório. A lesão das partes moles e da cartilagem articular, no momento do trauma, pode ser fator decisivo na evolução e no aparecimento de complicações tardias(10,15); acreditamos que talvez seja a causa da má evolução clínica destes pacientes.
A principal queixa no grupo de pacientes com resultado funcional insatisfatório foi a dor que limitava a realização das atividades diárias. A média na escala de dor destes pacientes foi de 16 pontos em 40 possíveis, enquanto no restante dos pacientes desta casuística essa média foi de 33,7 pontos. Esta diferença de valores foi estatisticamente significativa segundo o teste t de Student. A localização mais freqüente da dor foi na região do seio do tarso, presente em todos os cinco pacientes com resultado insatisfatório. Dois destes pacientes também apresentavam dor lateral submaleolar relacionada com os tendões fibulares (casos 15 e 33) e um deles, dor anterior no tornozelo (caso 12), decorrente do impacto do tálus de encontro à porção anterior da tíbia. Levando em conta o total de pacientes na nos-sa casuística, observamos ocorrência de dor no seio do tar-so em 28 pés (62,2%). A dor foi classificada como sendo leve em 17 pés (60,7%), moderada em nove pés (32,1%) e grave em dois pés (7,2%). Estes dados estão de acordo com a alta incidência de dor residual no seio do tarso após as fraturas no calcâneo(1,3,12,17,18). Considerando o total de pacientes da nossa casuística, encontramos a presença de dor lateral submaleolar em seis pés (13,3%) e dor anterior no tornozelo em nove pés (20%).
A análise radiográfica pós-operatória mostrou presença de sinais de artrose subtalar em 42 pés (93,3%). O grau de artrose classificado como leve foi o mais encontrado, assim como na literatura(18). Na nossa casuística, o grau de artrose foi classificado como leve em 17 pés (37,8%), moderado em 13 pés (28,9%) e grave em 12 pés (26,6%).
Dos 28 pés com sintoma doloroso no seio do tarso, apenas dois não apresentavam sinais de artrose radiográfica. Vinte e seis (62%) dos 42 pés com artrose tinham algum sintoma doloroso no seio do tarso. Os 16 restantes (38%), apesar de apresentarem sinais radiográficos de artrose, eram assintomáticos. Comparando os resultados da avaliação clínica com a radiográfica, observamos que nem sempre os sinais radiográficos de artrose se traduzem por dor e, quando presente, esta costuma ser de intensidade leve, na maioria dos casos.
Todos os cinco pacientes (cinco pés) com resultado funcional insatisfatório, segundo a escala da AOFAS, apresentavam sinais radiográficos de artrose subtalar. Dois pacientes apresentavam artrose leve, dois moderada e um grave.
Destes, três (casos 12, 13 e 15) apresentavam dor de moderada intensidade na região do seio do tarso e dois (casos 33 e 35) de grave intensidade.
Todos os cinco pacientes com resultado funcional insatisfatório apresentaram rigidez da articulação subtalar. Em comparação com o total de nossa casuística, observamos que 26 pacientes (70,2%) apresentavam limitação de 50% ou mais da mobilidade desta articulação. Acreditamos, com base nestes resultados, que as fraturas do calcâneo evoluem na sua grande maioria para perda variável da mobilidade da articulação subtalar. Isto, provavelmente, é decor-rente da lesão causada à cartilagem articular no momento do trauma e da fibrose cicatricial periarticular. Na literatura, os resultados diferiram quanto à mobilidade subtalar(3,19,20).
Artrose na articulação calcâneo-cubóide foi observada em 36 pés (80%). Não constatamos sinais radiográficos de artrose do tornozelo em nenhum dos pés operados. Artrose leve na articulação calcâneo-cubóide foi verificada em quatro dos cinco pacientes com resultado insatisfatório.
Ao analisarmos as complicações pós-operatórias imediatas e sua influência no resultado final, observamos que a deiscência de sutura e a necrose da pele nas bordas da incisão ocorreram em 18 pacientes (18 pés/40%). Destes, apenas três pacientes (três pés/16,6%) evoluíram com resultado insatisfatório. Acreditamos, baseados nestes resultados, que a deiscência e a necrose da pele, ocorrendo como complicação isolada, não influenciaram o resultado final. Oitenta e três por cento dos pacientes que apresentaram tais complicações evoluíram com resultado final satisfatório.
Zwipp et al.(13), Stephenson et al.(20) e Santin et al.(21) concordam que a deiscência e a necrose da pele não comprometeram o resultado final do tratamento.
Dos seis pacientes (seis pés/13,3%) que evoluíram com infecção da pele no local da incisão, cinco apresentaram boa evolução. Somente um paciente (caso 33) desenvolveu osteomielite crônica do calcâneo e apresentou resultado final insatisfatório. Acreditamos que os cuidados locais com a ferida e a antibioticoterapia sistêmica foram eficazes no controle das complicações pós-operatórias imediatas.
A cirurgia foi importante para reintegrar o paciente mais rapidamente ao seu trabalho. Trinta e três pacientes (73,3%) retornaram ao trabalho original após média de 7,9 meses de afastamento, desde o trauma inicial. Dos cinco pacientes com resultado insatisfatório, dois não conseguiram retornar ao trabalho (casos 33 e 35). Um paciente retornou realizando atividade mais leve (caso 12) e outro voltou à sua atividade original após 12 meses (caso 13).
O tratamento cirúrgico das fraturas articulares do calcâneo mostrou resultado clínico-funcional satisfatório em 89% dos pés operados. A média de tempo de seguimento pós-operatório foi de quatro anos e seis meses. Acreditamos que esse período de acompanhamento seja curto para permitir conclusões mais detalhadas sobre o prognóstico dessas fraturas. Algumas questões permanecem sem resposta, sendo a principal delas relacionada à evolução clínica da artrose, quando presente na radiografia pós-operató-ria. Quanto tempo passará até que a artrose radiográfica possa tornar-se sintomática? Outros sintomas poderão surgir nos anos subseqüentes? As respostas necessitarão de uma reavaliação a longo prazo, porém, com base nos resultados obtidos, acreditamos que a cirurgia possa ter melhorado o prognóstico do tratamento dessa difícil fratura.
CONCLUSÕES
A médio prazo, o tratamento cirúrgico das fraturas articulares do calcâneo mostrou resultado clínico-funcional satisfatório em 89% dos pés operados.
O tratamento cirúrgico das fraturas articulares desviadas do calcâneo permite correção considerável das deformidades provocadas pela fratura.
A dor pós-operatória foi a principal queixa referida e se mostrou mais intensa nos pacientes com resultado clínicofuncional insatisfatório.
Após o tratamento cirúrgico das fraturas articulares do calcâneo, sinais radiográficos de artrose subtalar são freqüentes, porém, na maioria das vezes, não estão associados com sintomas clínicos significativos.
As complicações pós-operatórias imediatas como a necrose e deiscência da pele podem ser tratadas satisfatoriamente e não significam, necessariamente, prenúncio de mau resultado.
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