Trabalho realizado na Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba-FCMSPUC-SP.
1. Assistente Doutor, Departamento de Morfologia e Patologia, Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba-FCMS-PUC-SP.
2. Auxiliar de Ensino, Disciplina de Ortopedia e Traumatologia, Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba-FCMS-PUC-SP; Mestre em Medicina pela Unifesp.
3. Membro do Serviço de Cirurgia da Mão - Hospital Santa Lucinda; Mestre em Medicina pela Unifesp.
4. Professor Titular-Doutor, Disciplina de Ortopedia e Traumatologia, Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba-FCMS-PUC-SP.
5. Especialista em Diagnóstico por Imagem pelo Colégio Brasileiro de Radiologia; Coordenador do Centro de Estudos do Centro Médico de Sorocaba.
Endereço para correspondência (Correspondence to): João José Sabongi Neto, Rua Cônego Januário Barbosa, 99 - 18030-200 - Sorocaba, SP. Tel./fax: (15) 3212-9980.

INTRODUÇÃO

O estudo da mensuração do canal do carpo é uma linha de pesquisa em aberto, visto que não há uma descrição detalhada, bem como utilização de métodos de imagens recentes para sua avaliação.

A avaliação das dimensões do canal do carpo pode ser realizada através de radiografias obtidas por meio de determinadas incidências, como a descrita por Gartsman et al(1), em 1986. Outros métodos são a ultra-sonografia e a tomografia compu-tadorizada(2) e, mais recentemente, a ressonância magnética.

O fato de existirem poucos estudos utilizando a tomografia computadorizada do canal do carpo foi o motivo que despertou o interesse para a realização deste trabalho.

A importância deste estudo está no fato de ser o ponto inicial de uma linha de pesquisa, na qual será avaliada a mensuração do canal do carpo, em mulheres normais, com idade a partir da terceira década, através de imagens obtidas pela tomografia computadorizada do carpo.

Dekel et al(2), em 1980, utilizaram-se de várias tomografias computadorizadas em série, medindo os cortes proximais e distais do canal do carpo. Obtiveram imagens que foram mostradas em slides de 5 x 5cm e posteriormente conectadas a um computador, que indicava diretamente a área do canal do car-po, utilizando-se de um fator de correção determinado por processo radiográfico. A área de secção transversa proximal do canal do carpo dos pacientes com síndrome do canal do carpo era bem menor que a área das mulheres normais. A área distal, no entanto, não diferia significativamente.

Neste estudo, realizamos tomografias computadorizadas na região do carpo em mulheres que não apresentavam sintomas nesta região, para avaliar a distância proximal (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) e distal (entre o hâmulo do hamato e o tubérculo do trapézio) do canal. Atualmente, não existe uma normatização com relação aos parâmetros de mensuração, tanto radiologicamente quanto tomograficamente, sendo utilizados mais como auxílio no diagnóstico da síndrome do canal do carpo.

A do canal do carpo é a síndrome compressiva nervosa mais freqüente(3). Ocorre predominantemente em mulheres na terceira e quarta décadas, sendo causada por qualquer processo patológico que reduza o diâmetro do canal do carpo ou ocasione aumento do volume das estruturas nele contidas.

O objetivo deste estudo é analisar a distância proximal (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) e distal (entre o hâmulo do osso hamato e o tubérculo do trapézio) do canal do carpo, através da tomografia computadorizada, em mulheres na faixa etária acima de 35 anos, que não apresentem sintomatologia nesta região.

Para a documentação deste trabalho, foram feitas anotações e tomografias computadorizadas do carpo de mulheres normais, e a terminologia anatômica empregada seguiu a padronização da Nomina Anatomica.

MATERIAL E MÉTODO

Foram analisadas, na Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba-PUC-SP e no Centro de Estudos do Centro Médico de Sorocaba, 28 pacientes adultas - a partir da terceira década de vida - assintomáticas, avaliadas as dimensões do túnel carpal por meio da realização de tomografia computadorizada do punho.

A tomografia computadorizada simples foi realizada com a paciente em decúbito dorsal, o antebraço em pronação e dedos estendidos, sendo utilizada uma tala termoplástica, para assegurar a posição padrão do carpo, documentado em 10 cortes axiais sucessivos e contíguos de iguais incrementos e espessura. A espessura de corte utilizada foi de 5mm e a área estudada, de 5cm de extensão craniocaudal. Os parâmetros técnicos realizados foram de 130kv, 200mAs, abertura de 140mm, zoom igual a duas vezes; o tempo de corte foi de dois segundos.

Em todos os casos foram utilizadas reconstruções biplanares coronais e sagitais, além de duas reconstruções tridimensionais (3D) (figura 1), para cada caso. Como método, colo-cou-se o terceiro corte da tomografia computadorizada, na superfície articular medial da epífise distal do rádio, junto à articulação radioulnar distal. O túnel do carpo foi mensurado na distância proximal (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) (figura 2) e distal (entre o hâmulo do hamato e o tubérculo do trapézio) (figura 3), no ponto de maior proeminência desses ossos.

RESULTADOS

Os resultados obtidos provenientes da análise tomográfica computadorizada do carpo, onde foram mensuradas a distância proximal (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) e a distância distal (entre o tubérculo do trapézio e o hâmulo do hamato) serão representados a seguir (tabela 1):

A distância proximal média (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) foi de 30,5mm, sendo a menor distância de 26,9mm e a maior, de 34,5mm.

A distância distal média (entre o tubérculo do trapézio e o hâmulo do hamato) foi de 20,3mm, sendo a menor distância de 17,3mm e a maior, de 23,6mm.

A maioria (60,7%) das mulheres apresentou a distância proximal do canal do carpo (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) entre 28,7mm e 31,6mm; em 88,2%, a idade era de 36 a 45 anos (tabela 2).

A maioria (39,2%) das mulheres apresentou a distância distal do canal do carpo (entre o tubérculo do trapézio e o hâmulo do hamato) entre 19,2mm e 21,4mm; em todas (100%), a idade era de 30 a 45 anos (tabela 3).

DISCUSSÃO

O estudo da mensuração do canal do carpo é um campo em aberto, dentro da etiologia da síndrome do canal do carpo, assim como no resultado após seu tratamento cirúrgico, visto que existem poucos trabalhos publicados a respeito deste assunto.

Phalen(4) refere que qualquer condição que diminua o tamanho do canal do carpo ou que aumente o volume das estruturas nele contidas pode causar compressão do nervo media-no, mas não se reporta às medidas desse canal.

Robbins(5) relata que o ligamento transverso do carpo é firmemente preso em quatro proeminências ósseas do carpo, no osso pisiforme e no hâmulo do hamato, medialmente, e nos tubérculos do escafóide e do trapézio, radialmente. Em nosso estudo, foi mensurado o canal do carpo com a utilização da tomografia computadorizada, tomando-se os mesmos pontos de fixação do ligamento transverso relatados por Robbins(5). A mensuração do canal do carpo foi realizada entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme, denominada de distância proximal, e entre o tubérculo do trapézio e o hâmulo do hamato, denominada distância distal.

A distância proximal (entre o tubérculo do escafóide e o pisiforme) foi, em média, de 30,5mm, e a distância distal (entre o tubérculo do trapézio e o hâmulo do hamato), em média, de 20,3mm. Essa medida foi semelhante à encontrada por Kaplan et al(6) no estudo em que relatam que o ligamento trans-verso do carpo é uma faixa densa, espessa e transversa, medindo entre 22 e 32mm. Kaplan et al(6) não fazem referência a como foi realizada essa mensuração.

Em nosso estudo, foi mensurada a distância linear entre o tubérculo do escafóide e o osso pisiforme, que corresponde à linha anterior da área de secção transversa proximal, e a distância entre o hâmulo do hamato e o tubérculo do trapézio, que corresponde à linha anterior da área de secção transversa distal. Dekel et al(2) mediram a área de secção transversa proximal e distal do canal do carpo em mulheres normais e nas com síndrome do canal do carpo.

A área de secção transversa proximal nas mulheres com síndrome do canal do carpo era de 142,8 ± 4,6mm2 e significativamente menor do que a das mulheres de controle, que era de 193,8 ± 8,3mm2, que, por sua vez, era menor que a área de secção transversa proximal dos homens de controle, que era de 239,8 ± 12,3mm2.

A área de secção transversa distal das mulheres com síndrome do canal do carpo era, em média, de 162,5 ± 12,4mm2 e não diferia significativamente da das mulheres normais, que era de 182,9 ± 9,2mm2, mas era significativamente diferente com relação à dos homens de controle, que era de 216 ± 11,0mm2. A comparação entre as medidas obtidas em mulheres assintomáticas e as de portadoras da síndrome do canal do carpo será objetivo da continuidade do nosso estudo.

Gartsman et al(1) realizaram a mensuração do diâmetro trans-verso do arco carpal, através de radiografia com incidência preconizada por Garstman, tomando como ponto de referência o ponto mais proeminente do trapézio e do hâmulo do hamato. A distância média do diâmetro transverso do arco carpal foi de 23,98 ± 2,47mm, na mão dominante, e de 23,86 ± 2,50mm na mão não dominante, sem diferença significante entre os lados. Pedrinelli et al(7) realizaram a mensuração do diâmetro transverso do arco carpal em 38 pacientes, com síndrome do túnel do carpo, em 26 carpos contralaterais assintomáticos e em 40 pacientes normais, utilizando radiografias com a incidência proposta por Gartsman. A distância média obtida no lado sintomático foi de 23,77mm; nos carpos contralaterais foi, em média, de 27,12mm e, no grupo controle, em média, de 28,26mm(7). A inclusão de 25% de homens no grupo de pacientes normais pode ser o motivo por que esses autores obtiveram medida maior da mensuração dessa distância quando comparada com o nosso estudo.

Kubota et al(8) referem que a tomografia computadorizada é de uso limitado no diagnóstico da síndrome do canal do carpo, devido à semelhança dos valores de atenuação das estruturas que o compõem.

CONCLUSÕES

1) A distância proximal do canal do carpo, entre o tubérculo do escafóide e o osso pisiforme, quando medida pela tomografia axial computadorizada, foi, em média, de 30,5mm, sendo a menor distância de 26,9mm e a maior, de 34,5mm.

2) A distância distal do canal do carpo, entre o tubérculo do trapézio e o hâmulo do hamato, quando medida pela tomografia axial computadorizada, foi, em média, de 20,3mm, sendo a menor distância de 17,3mm e a maior, de 23,6mm.


REFERÊNCIAS

1. Garstman G.M., Kovach J.C., Crouch C., Noble P.C., Bennett J.B.: Carpal arch alteration after carpal tunnel release. J Hand Surg [Am] 11: 372-374, 1986.
2. Dekel S., Papaioannou T., Rushworth G., Coates R.: Idiopathic carpal tunnel syndrome caused by carpal stenosis. Br Med J 280: 1297-1299, 1980.
Skie M., Zeiss J., Ebraheim N.A., Jackson W.T.: Carpal tunnel changes and median nerve compression during wrist flexion and extension seen by magnetic resonance imaging. J Hand Surg [Am] 15: 934-939, 1990.
3. Phalen G.S.: Spontaneous compression of the median nerve at the wrist. JAMA 145: 1128-1133, 1951.
4. Robbins H.: Anatomical study of the median nerve in the carpal tunnel and etiologies of the carpal-tunnel syndrome. J Bone Joint Surg [Am] 45: 953966, 1964.
5. Kaplan E.B., Spinner M., et al: Kaplan's Functional and Surgical Anatomy of the Hand. 3rd ed. Philadelphia, Lippincott, 1984.
6. Pedrinelli R., Santa A.J.A., Ribak S., et al: Mensuração do túnel do carpo: sua importância no estudo da fisiopatologia de sua síndrome. Rev Bras Ortop 27: 705-708, 1992.
7. Kubota E.S., Turrini E., Fernandes A.R.C., Natour J.: Diagnóstico por imagem na síndrome do túnel do carpo. Rev Bras Reumatol 37: 287-288, 1997.