Trabalho realizado no Departamento de Morfologia, da Faculdade de Odontologia de Araraquara/Unesp.

1. Estagiária da Disciplina de Anatomia da FOAr/Unesp.

2. Professor Doutor do Departamento de Morfologia da FOAr/Unesp.

3. Professor Doutor e Orientadora, Departamento de Morfologia da FOAr/Unesp.

Endereço para correspondência (Correspondence to): Rua Humaitá, 1.680 - 14801-903 - Araraquara, SP. Tels.: (16) 201-6490/201-6492. E-mail: anamaria@foar.
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INTRODUÇÃO

Os procedimentos cirúrgicos que envolvem a fixação de ossos nos casos de fraturas exigem materiais específicos e tornam-se complexos se a área for de difícil acesso, além de serem um método muito demorado. Com o propósito de amenizar essas dificuldades, muitas pesquisas têm sido realizadas no intuito de conseguir um substituto para os metais convencionais usados na reconstrução óssea e a cola poderia ser uma alternativa para as técnicas de fixação rígida convencional.

Os adesivos mais estudados compõem-se de metil, butil, isobutil e etil-cianoacrilato(1,2,3,4,5,6,7,8,9,10). Weber e Chapman(7), em 1984, revisaram resultados envolvendo o uso de cianoacrilato e descreveram que estes adesivos eram completamente biodegradáveis e permitiam a regeneração de fraturas com reação inflamatória mínima no tecido.

O efeito hemostático dos adesivos metil, etil, propril, butil, isobutil à base de cianoacrilato foi descrito por Bhaskar et (1); Greer(3); Haper e Ralston(6) e Bhaskar e Frisch(11). Sua ação bacteriostática foi observada por Leonard(12).

Os adesivos, em relação aos metais convencionais no uso da fixação óssea e posterior cicatrização deste tecido, demonstraram que são de mais fácil aplicação, apresentam custo reduzido e regeneração mais rápida(5,7,10). Além disso, possuem rápida polimerização na presença de umidade, segundo Serenson(13).

A toxicidade dos adesivos está relacionada com a velocidade de degradação e esta, ao tamanho da cadeia, ou seja, quanto maior for a cadeia, menor a velocidade de degradação, menor a histotoxicidade(6,7,10). Essa característica não é observada no metil-cianoacrilato, que apresenta grau de histotoxicidade maior que os do etil, butil e isobutil-cianocrilato, sendo que adesivos compostos por metil-cianoacrilato são adesivos mais tóxicos, causando edemas e necrose tecidual, portanto, contra-indicados para o uso clínico(1,13).

Segundo Weber e Chapman(7) e Shermak et al(10), essa toxicidade também seria devida à ionização dos adesivos à base de cianoacrilato, que na presença de água ou sangue degra-dar-se-iam para formar cianoacetato e formaldeído, com ligeira reação exotérmica. Além disso, Weber e Chapman(7) verificaram que a força adesiva diminui à medida que se aumenta a cadeia do adesivo e, conseqüentemente, a regeneração com adesivos de cadeia longa ocuparia um tempo maior, tornando seu uso impraticável na reconstrução óssea.

Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar histologicamente a compatibilidade biológica de uma cola à base de etil-cianoacrilato (Super Bonder®), de fácil disponibilidade no mercado brasileiro, após a realização de fissuras em tíbias de ratos, nos períodos de sete, 15 e 30 dias.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado no Departamento de Morfologia da Faculdade de Odontologia de Araraquara/Unesp. A amostra consistiu de 15 ratos Rattus norvegicus albinus da raça Holtzman, machos, pesando em média 200g, divididos em três grupos de cinco, segundo o cronograma de sacrifício dos animais. Após a anestesia intraperitoneal com hidrato de cloral a 10% (4ml/100g peso corporal), tricotomia e assepsia dos membros inferiores na região das pernas, foi realizada em cada membro inferior, na região anterior da tíbia, uma incisão com um bisturi e de lâmina no 23, com aproximadamente 1,5cm. Em seguida, os tecidos que envolvem o osso foram afastados e o osso exposto para a realização das fissuras. Em cada tíbia foi realizada uma fissura transversal de aproximadamente 1mm de profundidade e 3mm de comprimento, com motor de baixa rotação com resfriamento contínuo e disco de carborundum. No lado esquerdo - grupo tratado (GT) - foi aplicado como adesivo etil-cianoacrilato (Super Bonder®), com pincel no 0; na tíbia direita - grupo controle (GC) - não foi aplicado nenhum material; posteriormente, as incisões foram aproximadas e fixadas por sutura com fio de seda 4-0 (Ethicon® - Johnson & Johnson).

Após sete, 15 e 30 dias os animais foram sacrificados, as tíbias removidas e fixadas em solução de Bouin por 48 horas e processadas segundo técnica rotineira para inclusão em parafina, onde foram realizados os cortes semi-seriados de 6µm, no sentido longitudinal do osso e posteriormente corados em HE. Os cortes foram analisados e fotografados no fotomicroscópio Jenaval-Zeiss, pertencente ao Departamento de Morfologia da Faculdade de Odontologia de Araraquara/Unesp.

RESULTADOS

Grupo tratado (GT)

Aos sete e 15 dias (figuras 1 e 2) não foram observadas células inflamatórias; aos 30 dias, a cavidade se apresentou reparada por tecido ósseo neoformado (figura 3), sendo que este osso se formou da periferia para o interior da cavidade, englobando o adesivo. Observou-se na figura 4 uma proliferação angioblástica, osteoblastos na linha de formação óssea junto ao material e osteócitos.

Grupo controle (GC)

Aos sete dias (figura 5), não se observou formação óssea ou presença de células inflamatórias, sendo que, aos 15 dias (figura 6), a reparação ocorreu normalmente, com presença de osteoblastos e osteócitos preenchendo o local da fissura. Aos 30 dias, é nítida a neoformação óssea (figura 7) preenchendo toda a cavidade, onde se observam, na figura 8, osteoblastos, osteócitos, proliferação angioblástica e ausência de células inflamatórias.

DISCUSSÃO

Os adesivos à base de cianoacrilato foram extensamente estudados como usados em reparação tecidual(1,8,9,11,14,15,16). Sua possível utilidade em fraturas tem sido tema de poucos estudos(6,7,10,17).

A razão pela qual elegemos um adesivo à base de etil-cianoacrilato (éster de cianoacrilato - Super Bonder®) foi de que, comparado com os demais da família dos cianoacrilatos, poderia favorecer melhor reparação óssea, devido ao tamanho de sua cadeia, pois, segundo Weber e Chapman(7), quanto menor a cadeia, maior a força adesiva. Relatos do seu emprego em tecido epitelial e conjuntivo não mencionam reação inflamatória(9,14,15,18). O mesmo ocorre em relação ao tecido ósseo(19,20). Outros fatores que levamos em consideração é que esse material é de fácil aplicação e fácil disponibilidade no mercado brasileiro, apesar de não ser indicado para fins médicos.

Segundo os resultados obtidos por Bonnette(17), o isobutilcianoacrilato não estabilizou segmentos de fratura grande e instável e só estabilizou os enxertos ósseos pequenos, o que foi obtido com pouca quantidade de adesivo. Isso pode confirmar o que Weber e Chapman(7) concluíram revendo a literatura: "quanto maior a cadeia, menor a força adesiva e estabilização do fragmento".

Tal afirmativa corrobora os dados obtidos por Shermak et al(10) de que o butil-cianoacrilato não só fornece adesão ao fragmento de osso, mas também incentiva a produção de novas células osteoprogenitoras. Yaremchuk(21) observou que os adesivos podem segurar uma fixação rígida mais simples e, nas fixações como fraturas e osteotomias complicadas, podem servir como um suplemento para o uso de placas e parafusos. Portanto, vimos a oportunidade de testar um adesivo da mesma família, mas de cadeia menor, o etilcianoacrilato, com objetivo de obter resultados semelhantes.

O adesivo etil-cianoacrilato (Super Bonder®) pode proporcionar esses resultados, pois, por meio dos dados obtidos, observamos que não houve reação inflamatória nos períodos analisados, confirmando o relatado por Caroli et al(19) e Gonzalez et al(20).

Segundo a compatibilidade biológica, Shermak et al(10) observaram resultados similares aos do butil-cianoacrilato. O mesmo também foi verificado por Haper e Ralston(6) quando compararam o etil com o isobutil-cianoacrilato.

A reparação óssea apresentou retarde nas cavidades con-tendo o adesivo. Mas isso não nos induz a pensar que o adesivo será um fator no retarde em processo de reparação óssea, visto que o grupo controle não continha nenhum material no interior da cavidade e por isso a reparação desenvolveu-se mais rapidamente.

CONCLUSÃO

A análise dos resultados permitiu-nos elaborar a seguinte conclusão:

O adesivo etil-cianoacrilato (Super Bonder®) não provocou reação tecidual na região operada, nos animais estudados, no período de sete a 30 dias após sua aplicação. Isto é, o GT não apresentou células inflamatórias ou áreas de necrose, apesar de ter ocasionado retarde na reparação óssea.


REFERÊNCIAS

1. Bhaskar S.N., Jacoway J.R., Margetis P.M., Leonard F., Pani K.C.I.: Oral tissue response to chemical adhesives (cyanoacrylates). Oral Surg Oral Med Oral Pathol 22: 394-404, 1966.

2. Bhaskar S.N., Cutright D.E.: Healing of skin wounds with butyl cyanoacry- late. J Dent Res 48: 294-297, 1969.

3. Greer R.O.: Studies concerning the histotoxicity isobutyl-2-cyanoacrylate tissue adhesive when employed as an oral hemostat. Oral Surg Oral Med Oral Pathol 40: 659-669, 1975.

4. Eriksson L.: Cyanoacrylate for closure of wounds in the oral mucosa in dogs. Odontol Rev 27: 19-24, 1976.

5. Hunter K.M.: Cyanoacrylate tissue adhesives in osseous repair. Br J Oral Surg 14: 80-86, 1976.

6. Haper M.C., Ralston M.: Isobutyl-2-cyanoacrylate as an osseous adhesive in the repair of osteochondral fractures. J Biomed Mater Res 17: 167-177, 1983.

7. Weber S.C., Chapman M.W.: Adhesives in orthopaedic surgery: a review of the literature and in vitro bonding strengths of bone-bonding agents. Clin Orthop 191: 249-246, 1984.

8. Lacaz Netto R., Santos G.M., Macedo N.L., Lima F.R., Santos L.M., Oka- moto T.: Uso do cianoacrilato na proteção das incisões. Estudo histopatoló- gico comparativo da reparação tecidual em incisões realizadas na pele de ratos, após o uso do metil, do isobutil e do etil-cianoacrilatos (Super Bon- der). RGO 39: 243-248, 1991.

9. Caldas Jr. A.F., Gusmão E.S.: Estudo clínico comparativo da coaptação dos tecidos gengivais, após cirurgia a retalho, utilizando etil-cianoacrilato (Super Bonder) e fio de sutura. Rev Periodontia 7: 35-42, 1998.

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11. Bhaskar S.N., Frisch J.: Use of cyanoacrylate adhesives in dentistry. J Am Dent Assoc 77: 831-837, 1968.

12. Leonard F.: "Hemostatic application of alpha cyanocrylates. Bonding mechanism and physicological degradation of bonds". In: Manly R.S., Baier R.E.: Adhesive in biological systems. New York, Academic Press, 1970.

13. Serenson J.A.: Bond strength data eases choice of higher performance adhesives. Modern Plastics Mid: f3-f5, 1998.

14. Tagliavini R.L., Garcia V.G., Sampaio L.A., Toledo B.E.C.: Reparação clí- nica do retalho periodontal em cães, sob a ação de um adesivo plástico (cia- noacrilato). O M 8: 6-10, 1981.

15. Lacaz Netto R., Macedo N.L.: Estudo clínico da reparação do enxerto livre de gengiva. Rev Assoc Paul Cirurg Dent 40: 164-170, 1986.

16. Santos G.M., Lacaz Netto R., Santos L.M., Okamoto T., Rocha R.F.: Uso do Super Bonder no reparo das feridas cirúrgicas (Estudo histopatológico comparativo da reparação tecidual em incisões realizadas em ratos após o uso da sutura e de um adesivo à base de cianoacrilato - Super Bonder). R G O 38: 435-439, 1990.

17. Bonnette G.H.: Experimental fractures of the mandible. J Oral Surg 27: 568-571, 1969.

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19. Caroli A., Marcuzzi A., Limontini S., Maiorana A.: An experimental study of a cyanoacrylate biological adhesive in view of its use in the fixation of various fractures of the fingers. Ann Chir Main Memb Super 16: 138-145, 1997.

20. Gonzalez E., Orta J., Niemshik L., Galera R., Onay R., Rojas O.: Ethyl-2- cyanoacrylate fixation of the cranial bone flap after craniotomy. Surg Neurol 53: 288-289, 2000.

21. Yaremchuk M.J.: Experimental studies addressing fixation in craniofacial surgery. Clin Plast Surg 21: 517-524, 1994.