Trabalho realizado no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
Não existiu qualquer tipo de financiamento de instituições públicas ou privadas na realização deste trabalho.
1. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.
2. Professor Adjunto do Departamento do Aparelho Locomotor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais; Doutor em Medicina.
Endereço para correspondência (Correspondence to): Hugo Machado Castelar de Brito, Rua Florentino Castelar, 70 - 38900-000 - Bambuí, MG. Tel.: (37) 3321-4044; fax: (37) 3431-1311; e-mail: Hugomcbrito@netbi.com.br

INTRODUÇÃO

A evolução da cirurgia ortopédica e a necessidade da fixação das partes moles ao osso ampliaram muito o uso das âncoras como método eficiente, rápido e de baixa morbidade(1,2). A desejada reabilitação precoce pós-reparo do manguito rotador está diretamente relacionada ao grau de lesão de sua estrutura, bem como à qualidade da fixação obtida nas interfaces osso-implante e sutura-tendão(3).

Segundo Sasaki et al, o tendão supra-espinhal a 30o de abdução transmite cerca de 300N de carga a sua inserção(4). France et al analisaram a força inicial suportada pelos reparos realizados com suturas em que os fios atravessavam túneis ósseos, encontrando valores máximos de resistência em torno de 200N(5).

Analisando o uso de âncoras, sua resistência e confiabilidade quanto à reabilitação precoce, Burkhart destaca a influência da angulação de inserção na resistência à fadiga do material de sutura, porém, não analisa esta força com relação à interface implante-osso e, sim, implante-sutura(6).

Este estudo tem como objetivo analisar a influência da resistência final suportada pela interface implante-osso, em diferentes graus de angulação de inserção de âncoras ósseas submetidas à tração contínua.

MATERIAIS E MÉTODOS

O preparo dos ossos de suínos ocorreu no Hospital das Clínicas da UFMG e a realização dos testes no Laboratório de Ensaios Especiais do Departamento de Engenharia de Materiais e Construção da Faculdade de Engenharia da UFMG.

Foram utilizados 21 úmeros frescos de 11 porcos da raça Landrace com idade variando entre três e quatro meses. Os mesmos foram abatidos e tiveram seus ossos coletados e preparados após a retirada das partes moles, seguindo-se a inserção das âncoras. Os ossos preparados permaneceram resfriados à temperatura de 8oC durante o intervalo de tempo de 12 horas até a realização dos ensaios na máquina de tração.

A escolha desses espécimes foi motivada pela grande semelhança constitucional entre seu osso e o osso humano e devido à pequena variação existente entre os espécimes de osso suíno(7,8).

Foram utilizadas âncoras do tipo rosqueado feitas de aço inoxidável, norma ASTM F138, com tamanho de 10 x 5mm, alma de 2,3mm e cabeça hexagonal de 2mm sextavada, fornecidas por fabricante nacional (Hexagon®) e utilizadas na prática clínica. Todo o instrumental bem como as recomendações técnicas de utilização eram seguidas como nas cirurgias de rotina, sendo a inserção da âncora realizada no local padronizado no estudo após a perfuração inicial com o punctor indicado. A angulação de inserção era orientada com a ajuda de um goniômetro especial que permitia a passagem de um fio de Steinmann 2,0mm que realizava a perfuração inicial seguida pelo uso do punctor usualmente utilizado (fig. 1).

Durante os testes, fios de aço (Aciflex® no 5) trançados foram escolhidos para fixação das âncoras à máquina de tração. Apesar de estes não serem de utilização clínica, o objetivo do ensaio era testar a força resistida pelo implante e não pela sutura, sendo, portanto, desejável uma sutura com menor risco de ruptura(9).

As medidas eram realizadas após a correta fixação do osso em uma base especialmente fabricada para realização do teste (figs. 1 e 2). Ganchos eram, em seguida, adaptados para tração. Essa base mantinha o osso fixo por meio de um parafuso cortical, com rosca de 6,5mm, e apresentava inclinação constante, na qual os fios de aço tangenciavam a cortical óssea superior do úmero simulando a inserção tendinosa do manguito rotador.

Após a adequada preparação dos ossos, as âncoras eram inseridas a 45o, 135o e 90o de angulação em relação à cortical óssea, conferidas com a ajuda de goniômetro junto à região da grande tuberosidade do úmero (fig. 3).

As âncoras foram aplicadas a uma distância constante de 3cm da superfície articular da cabeça umeral em direção à metáfise, sendo realizado apenas um ensaio em cada osso.

O teste de tração para cada implante isoladamente partia de zero newton a uma velocidade de 200mm/min até o momento de soltura registrando-se a carga máxima resistida.

Durante o procedimento foi utilizada uma máquina de tração universal da marca Instrom® modelo 5582 com célula de carga de 100KN.

Os resultados obtidos eram agrupados e analisados de acordo com seu grupo específico de angulação (45o, 135o e 90o) sendo analisados separadamente e comparativamente entre eles. Estes eram automaticamente aproximados para a casa decimal mais próxima pelo processador da máquina de tração. Foram realizados sete testes com cada uma das diferentes angulações.

Foram considerados: a carga máxima suportada, o maior e menor valor máximo resistido entre as diversas âncoras e, finalmente, a média da carga máxima. A variação das forças resistidas também foi anotada.

Na análise estatística utilizamos software Epi-info® da OMS com o uso do teste F para análise das médias dos diferentes grupos (ANOVA - analysis of variance), considerando-se o valor de p menor ou igual a 0,05 como de significância estatística.

RESULTADOS

Neste estudo não foram registradas falhas na fixação sutu-ra-âncora, pois o objetivo do mesmo era analisar a interface âncora-osso e, portanto, a sutura era realizada com fios de aço, que não se romperam em nenhum dos ensaios.

No grupo com angulação de inserção de 135o (n = 7), a carga máxima média até a soltura foi de 230N, sendo a mínima de 170N e a máxima de 370N, com variação de 200N entre os dois extremos.

Com a angulação de 45o (n = 7), a carga máxima média foi de 200N, mínima de 150N e máxima de 290N, com variação de 140N. Finalmente, no grupo com inserção a 90o (n = 7), foi obtida a maior carga máxima média, sendo esta de 270N, com variação de 140N, sendo a mínima de 210N e a máxima de 350N (tabela 1).

A análise estatística demonstrou não haver diferença significativa entre as médias de cargas resistidas nos diferentes grupos de angulações de inserção das âncoras (p > 0,05) (tabela 2).

DISCUSSÃO

A praticidade e os bons resultados obtidos com o uso das ancoras ósseas vem consagrando-as na utilização rotineira em cirurgias do ombro e em outras situações em que se objetiva uma adequada reinserção das partes moles ao osso(4,7,10,11).

Acredita-se que o manguito rotador em atividades cotidianas suporta tração de cargas, que variam entre 140 e 200N em média em uma pessoa normal, sendo o supra-espinhal o tendão mais solicitado, chegando a suportar cerca de 300N a 30o de abdução e, em conseqüência, é o tendão mais freqüentemente lesado(1).

Nas intervenções reconstrutivas do manguito rotador raramente é possível o reparo tendão-tendão, necessi-tando-se na maioria das vezes do reparo tendão-osso(12,13,14).

O estudo biomecânico da resistência dos reparos tendinosos vem despertando o interesse de múltiplos pesquisadores visando à reabilitação precoce, que comprovadamente influencia no resultado final de uma cirurgia do ombro(2,3,4,7,8,15,16,17,18).

France et al, utilizando suturas transósseas, obtiveram o valor final resistido da sutura como sendo em torno de 200N, sinalizando para a importância de saber o quão confiável é o seu reparo com o objetivo de permitir a reabilitação precoxe(5).

Estudos com âncoras têm sido conduzidos e resultados importantes obtidos. Diferenças no desenho das âncoras bem como a identificação de um ponto fraco na interface suturaâncora na passagem do fio têm orientado a confecção e diver-sos modelos(2,8).

Em relação ao ângulo de inserção ideal da âncora preconi-za-se classicamente a inserção da mesma a cerca de 45-60o em relação à cortical óssea, acreditando-se que nesta angulação o reparo apresentará maior resistência(19). No ato cirúrgico nem sempre tal medida é tão facilmente exequível, justificando então este trabalho experimental.

O uso de osso de suínos neste trabalho deu-se devido à similaridade com o osso humano(7,8). O local de inserção dos implantes foi o osso metafisário e isso pode afetar o resultado final, embora se aproxime da prática clínica.

A qualidade e a quantidade das bordas do manguito rotador disponíveis para o reparo são provavelmente mais importantes que a força da ancoragem óssea em pessoas com o manguito degenerado. Entretanto, provavelmente em jovens com desordens traumáticas, a força máxima suportada pelos implantes tipo âncora é muito importante na reabilitação precoce.

CONCLUSÕES 

Após análise das médias das cargas resistidas nos diferentes ângulos de inserção (45o, 135o e 90o) em ensaio de tração, podemos observar semelhança na resistência final obtida. Entretanto, essas observações experimentais não podem ser superestimadas na prática clínica devido a outras situações que afetam o resultado final da resistência, não analisadas neste trabalho.


REFERÊNCIAS

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4. Sasaki S.U., Stuginski R.M., Mattar Jr. R., et al: Estudo biomecânico comparativo da resistência à tração entre dois tipos diferentes de miniâncoras de sutura. Rev Bras Ortop 35: 231-234, 2000.

5. France E.P., Paulos L.E., Harner C.D., Straight C.B.: Biomechanical evaluation of rotator cuff fixations methods. Am J Sports Med 17: 176-181, 1989.

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