INTRODUÇÃO

O alinhamento dos joelhos no plano frontal sofre variações fisiológicas durante o crescimento(2-9,11). Numerosas vezes esse fato torna-se motivo de dúvida por parte dos pais e dos profissionais que atuam na área da Educação Física com crianças e adolescentes, motivando consultas com o ortopedista e o pediatra.

Compete ao especialista, conhecedor das variações normais, diferenciar os desvios em valgo ou em varo fisiológicos daqueles patológicos, como os da enfermidade de Blount(1), ou das seqüelas traumáticas ou dos distúrbios metabólicos(10).

O questionamento, por técnicos de futebol, sobre as contraindicações para iniciantes apresentando graus variáveis de desvios dos membros inferiores, motivou a realização do pre-sente estudo transversal de levantamento populacional do alinhamento dos joelhos no plano frontal.

MATERIAL E MÉTODOS

Sujeitos da pesquisa

Foram aferidas as distâncias intercondilar ou intermaleolar, (UNI-RIO). na posição ortostática, de 412 indivíduos, na idade de 12 a 17 anos, independente do sexo, peso ou altura, distribuídos em três grupos distintos.

O primeiro grupo foi composto por 258 atletas masculinos, praticantes de futebol competitivo, oriundos de quatro clubes de futebol do Estado do Rio de Janeiro.

O segundo grupo, inserido para controle, foi composto por 69 adolescentes masculinos internos de um orfanato, que não se dedicavam à prática de futebol.

O terceiro grupo, também para controle, foi composto de 85 adolescentes do sexo feminino, oriundos de escola pública.

Material

O material utilizado consistiu apenas de um compasso com trava manual de suas pernas, de uma régua milimetrada e de tabela para anotação dos valores encontrados.

Métodos

As distâncias intercondilar ou intermaleolar foram aferidas sempre pelo mesmo examinador, com os examinados colocados em ortostatismo, descalços e em solo plano e rígido.

Foi solicitado aos examinados que aduzissem os membros inferiores até que se tocassem levemente os côndilos femorais internos ou os maléolos tibiais, dependente do que primeiro ocorresse.

Quando se tocarem as faces internas dos joelhos, foi medida a distância entre os maléolos tibiais. Da mesma forma foi aferida a distância intercondilar, quando os maléolos tibiais se tocavam primeiro.

Quando côndilos internos e maléolos se encontravam simultaneamente, considerou-se DIC/DIM igual a zero.

Para efeito de cálculos estatísticos visando diferenciar DIC/ DIM, convencionou-se que as distâncias intercondilares assumiriam valores negativos e as distâncias intermaleolares assumiriam valores positivos, seguindo os parâmetros utilizados por Volpon(11).

Cadastraram-se os valores obtidos em tabela própria, por faixa etária anual entre 12 e 17 anos; os intervalos das DIC/ DIM foram definidos em um centímetro (cm).

RESULTADOS

A distribuição numérica e percentual por faixa etária, por sexo e atividade desportiva está apresentada na tabela 1. Eram 79,3% do sexo masculino e do feminino, 20,6%.

Na tabela 2, apresenta-se a distribuição numérica e percentual de acordo com o alinhamento dos membros inferiores, nos três grupos distintos. Ocorreram 229 alinhamentos em varo, 106 em valgo e 77 eram neutros ou retos.

O gráfico 1 representa a distribuição percentual dos 412 examinados de acordo com o alinhamento dos membros inferiores no plano frontal, evidenciando o alinhamento marcante em varo nos jogadores de futebol com diminuição do varo no grupo masculino de não atletas e mais ainda no grupo feminino. Em contrapartida, foi baixo o índice de alinhamento em valgo nos jogadores de futebol, crescendo nos não atletas, tornandose ainda maior no grupo feminino.

Os gráficos 2, 3 e 4 mostram a curva das médias das DIC/ DIM de 12 a 17 anos respectivamente no grupo de jogadores de futebol do sexo masculino, de não jogadores do sexo masculino e no grupo feminino, com variação de dois desviospadrões a mais que a média e dois a menos, abrangendo 95% da população estudada.

Na tabela 3 podem ser observados os valores obtidos por análise de variância (teste F) entre as médias de DIC/DIM das diversas faixas etárias de cada grupo, a correlação de p com o nível de significância (maior ou menor que 0,05) e a conclusão sobre a igualdade estatística das médias avaliadas. A mesma análise (teste F) também foi feita para se comparar as médias das faixas etárias semelhantes dos diversos grupos (tabela 3).

 

Verificou-se que há diferença estatisticamente significante entre as médias de DIC/DIM quando analisadas as várias faixas etárias de cada grupo masculino e que no grupo feminino estas médias não apresentam tal diferença (tabela 3).

Verificou-se também que não há diferença estatisticamente significante quando avaliadas as médias de DIC/DIM dos três grupos na faixa etária de 12 anos. Nas demais faixas etárias, as médias de DIC/DIM não são iguais estatisticamente (tabela 3).

A utilização do teste de Tukey nas situações em que houve diferença estatísticamente significante entre as médias de DIC/DIM, avaliadas pelo teste de Fisher, evidenciou que no grupo de atletas havia diferença quando comparada as médias da faixa etária de 12 anos com todas as outras, exceto com 14 anos. A comparação entre as médias de DIC/DIM do restante das faixas etárias, duas a duas, não evidenciou diferença (tabela 4).

O mesmo teste, quando empregado no grupo masculino não atleta, mostrou haver diferença estatísticamente significante quando comparadas entre si apenas as médias das DIC/ DIM das faixas etárias de 13 a 16 anos, não havendo tal diferença na comparação, duas a duas, das demais médias de DIC/DIM deste grupo (tabela 5).

Para as médias das DIC/DIM do grupo feminino, bem como para a faixa etária de 12 anos dos três grupos, o teste de Tukey foi dispensado, pois a análise da variância das médias de DIC/DIM, nestes casos, mostrou que não havia diferença estatisticamente significante.

Quando comparadas as médias das DIC/DIM das diversas faixas etárias do grupo de atletas com o controle masculino, pelo teste de Tukey, evidenciou-se que houve diferença estatisticamente significante em quase todas, exceto aos 12 e 14 anos.

Quando comparadas as médias das DIC/DIM das diversas faixas etárias dos atletas com o grupo-controle feminino, ficou evidenciado que houve diferença estatísticamente significante em quase todas, exceto aos 12 anos.

Quando comparados os dois grupos-controles, verificouse que a diferença detectada pelo teste de Tukey somente ocorreu quando comparada as médias das DIC/DIM na faixa etária de 16 anos, não havendo entre as demais idades.

DISCUSSÃO

Na presente série, observou-se, através da avaliação das médias das DIC/DIM das diversas faixas etárias, que houve alteração do padrão do alinhamento dos joelhos no plano frontal entre os adolescentes praticante de futebol competitivo sem correlação com patologia, ao contrário do verificado por Volpon(10). Detectou-se alinhamento dos membros inferiores dos atletas em valgo aos 12 anos de idade, quando se dá a iniciação dos treinamentos para futebol competitivo. Ocorreu inversão brusca deste padrão para varo na faixa etária seguinte, com um ano de prática dedicada ao esporte. Nas idades seguintes, progrediu o varismo com menor intensidade (gráfico 2) e sem significado estatístico, conforme comparação pelo teste de Tukey (tabela 4).

Houve consenso entre as opiniões dos observadores técnicos dos quatro clubes dos quais os atletas deste estudo foram oriundos, ao afirmarem haver maior interrupção precoce na trajetória dos candidatos à prática de futebol com alinhamento em valgo dos joelhos por exibirem baixos índices técnicos.

O grupo masculino não atleta também apresentou alinhamento dos membros inferiores em valgo aos 12 anos, ocorrendo acentuação do valgismo dos 12 para 13 anos; embora isso esteja em harmonia com os resultados apresentados por Volpon(10), que também encotrou aumento da valgização nesta faixa etária, o presente estudo sugere que houve desvio acentuado na média, devido à ocorrência de eventos extremos numa amostragem pequena, ocasionando o inesperado pico de valgismo aos 13 anos do gráfico 3, que destoa dos sentido lento e progressivamente varizante ao longo das sucessivas faixas etárias.

O teste de Tukey comparando as médias das DIC/DIM entre 13 e 16 anos do grupo-controle masculino apresentou diferença das médias igual a 3,38 e diferença mínima significativa igual a 3,31, definindo por sete centésimos não serem estas médias iguais. Portanto, os valores observados levam a crer que não houve diferença estatisticamente significante entre as médias das diversas faixas etárias do grupo masculino não atleta.

No grupo feminino, no qual também não houve prática de futebol, não foram denotadas alterações no padrão de alinhamento dos membros inferiores, persistindo o valgo em todas as faixas etárias analisadas, não comportando variação de sua intensidade, conforme demonstrou a análise de variância.

A avaliação por faixa etária mostrou que o padrão de alinhamento dos membros inferiores aos 12 anos foi valgo para os três grupos, com médias positivas e sem diferença significante estatisticamente, comprovada pelo teste de Fisher. O grupo de jogadores de futebol passou a diferir, a partir desta faixa etária, de ambos os grupos-controles em praticamente todas as idades, o que foi comprovado, pelo teste de Tukey, exceto quando comparado com o grupo masculino não atleta dos 14 anos. O dois grupos-controles, ambos sem a prática desportiva e de sexos diferentes, comportam-se de forma semelhante no alinhamento dos membros inferiores, exceto aosdas 16 anos, conforme comprovou o teste de Tukey.

A observação pura e simples destas análises faz supor que a prática do futebol competitivamente favoreceria a varização dos joelhos, com força de evidência para se supor que é devido aos microtraumas de repetição, impostos pelos treinamentos exaustivos de seis dias por semana sobre os côndilos femorais internos.

Esta hipóstese vai ao encontro do cultivo desembasado da filosofia da imensa maioria dos treinadores de futebol, que dão preferência aos adolescentes candidatos à prática do es-porte competitivamente que apresentem alinhamento dos membros inferiores em varo, por prejulgá-los mais habilidosos.

Como o presente estudo é de corte transversal, não se pode descartar a possibilidade da maior permanência na prática de futebol dos adolescentes com alinhamento em varo dos joelhos e, em contra-partida, a dispensa, por baixo índice técnico, dos aspirantes com alinhamento em valgo. Esta hipótese justificaria a mudança repentina de valgo para varo no alinhamento entre as faixas etárias de 12 e 13 anos do grupo de atletas (gráfico 2), com apenas um ano de prática de futebol. Em resumo, ocorreu predomínio do alinhamento frontal dos joelhos em varo no grupo masculino e valgo no feminino, com modificações ao longo do período de crescimento dos 12 aos 17 anos.

CONCLUSÕES

1) O alinhamento dos joelhos no plano frontal apresentou variações durante o período de crescimento após os 12 anos.

2) O alinhamento em valgo foi o padrão mais freqüente no grupo feminino.

3) O alinhamento em varo foi o padrão mais freqüente nos grupos masculinos, sendo maior a intensidade de varismo no grupo dos atletas.

REFERÊNCIAS

1. Blount, W.P.: Tibia vara. Osteocondrosis deformans tibiae. J Bone Joint Surg 19: 1-29, 1937.

2. Böhn, M.: Infantile deformities of the knee and hip. J Bone Joint Surg 15: 574-578, 1933.

3. Coelho, F.J.P.: Avaliação postural dos membros inferiores da criança entre cinco e dez anos de idade, Tese de mestrado, Rio de Janeiro-RJ/UFRJ, Faculdade de Medicina, 1995. 83.

4. Forlin, E., Andujar, A.L.F. & Alessi, S.: Padrões de normalidade do exame físico dos membros inferiores em crianças na idade escolar. Rev Bras Ortop 29: 601-607, 1994.

5. Morley, J.M.: Knock-knee in children. Br Med J 26: 976-979, 1957.

6. Salenius, P. & Vankka, E.: The development of the tibio femoral angle in children. J Bone Joint Surg [Am] 57: 259-261, 1975.

7. Sharrard, W.J.W.: Paediatrics Orthopedics and fractures, 3rd ed., Oxford, Blackwell Scientific Publication, 1993. V. 1, p. 403-467.

8. Tachdjian, M.O.: Ortopedia Pediátrica. Tradução por Dr. Santiago Sapiña Renard, Espanha Interamericana, 1976. Tomo II, p. 12521219.

9. Volpon, J.B., Abreu, E.M.A., Furchi, G. & Nisiyama, C.Y.: Estudo populacional do alinhamento do joelho no plano frontal durante o desenvolvimento. Rev Bras Ortop 21: 91-96, 1986.

10. Volpon, J.B.: Modificações fisiológicas e patológicas do joelho durante o crescimento. Rev Bras Ortop 30: 53-56, 1995.

11. Xavier, R.: "Joelho da criança e do adolescene", in Herbert, S. & Xavier, R.: Ortopedia e Traumatologia, Porto Alegre, Artes Médicas, 1995. p. 176-192.