INTRODUÇÃO

Os tumores primitivos da coluna vertebral são relativamente pouco freqüentes em comparação com os tumores ósseos de outras localizações. Dahlin(5), em 1978, analisando 6.221 tumores ósseos, encontrou 89 (1,43%) tumores benignos ou lesões pseudotumorais da coluna vertebral, e, destes, 27 (30,36%) eram cistos ósseos aneurismáticos. Schajowicz(11), em 1981, entre 4.193 tumores ósseos, encontrou 75 (1,78%) tumores benignos ou lesões pseudotumorais do esqueleto axial, 21 (28,00%) destes correspondendo a cisto ósseo aneurismático.

Dreghorn & col.(8), em 1990, de 1.950 tumores ósseos, encontrou apenas 14 (0,71%) casos de tumores benignos ou lesões pseudotumorais no esqueleto axial. Quatro deles (28,57%) eram cistos ósseos aneurismáticos.

Apesar de raros, devem sempre ser suspeitados, principalmente em pacientes jovens, com dor loco-regional, com caráter progressivo, sem causa aparente, acompanhada ou não de deformidade ou alterações neurológicas. A anamnese cuidadosa e os exames físico e radiográfico são de suma importância, porém nem sempre suficientes para ditar conduta terapêutica.

A cintilografia óssea faz-se necessária para caracterizar a presença da lesão, quando esta ainda não é visível radiograficamente. A tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética são importantes e mesmo necessárias para a localização precisa e para auxiliar na orientação terapêutica, facilitando a abordagem e a ressecção da lesão. A arteriografia seletiva digital é extremamente útil para avaliação do tamanho do tumor, bem como para permitir a embolização tumoral quando necessária, o que diminui significativamente o sangramento intra-operatório. O exame anatomopatológico, com óbvia importância, confirma a natureza da lesão, dando o diagnóstico de certeza.

O objetivo deste trabalho é mostrar em especial as dificuldades e resultados do tratamento desses tumores vertebrais.

MATERIAL E MÉTODO
Dos nove pacientes com cisto ósseo aneurismático diagnosticados e tratados no Grupo de Afecções da Coluna Vertebral – Pavilhão Fernandinho Simonsen, no período de 1977 a 1992, cinco eram do sexo feminino e quatro do masculino. A idade em que o processo se manifestou variou de cinco anos e cinco meses a 29 anos, com média de 12 anos e quatro meses.

O período em que os pacientes apresentaram sintomatologia até que se definisse o diagnóstico variou de um a 72 meses, com média de 14,5 meses. Durante este período, quatro pacientes fizeram uso crônico de medicamentos; um submeteu-se a dois procedimentos cirúrgicos envolvendo baixo-ventre, devido à dor que apresentava; um havia sido operado previamente no segmento vertebral em outro hospital e três eram virgens de tratamento.

Quanto à sintomatologia, a dor localizada estava presente nos nove pacientes. Em três era queixa isolada, irradiava-se para membros inferiores em outros três e estava associada a queixa de massa tumoral palpável em um paciente. Dois dos nove pacientes apresentaram sintomatologia neurológica – um com paraplegia e o outro com paraparesia sensitivomotora (tabela 1).

Ao exame físico, oito pacientes apresentavam bom estado geral e um (submetido a duas cirurgias prévias), regular. Todos os pacientes apresentavam-se com atitude antálgica e com diminuição da movimentação vertebral. O exame neurológico foi normal em nove pacientes e em um havia diminuição de força muscular (grau IV) em membros inferiores, a partir de L1, acompanhado de clônus bilateral, sem alteração de sensibilidade. Um paciente estava paraplégico.

Quanto aos exames complementares, todos os nove pacientes tinham radiografias simples, em sete deles associadas à planigrafia; sete tinham também tomografia computadorizada e um deles foi submetido a mielografia. Dois pacientes tinham cintilografia óssea de corpo total. A arteriografia seletiva foi efetuada em dois pacientes com o objetivo de embolização tumoral, que foi realizada efetivamente em um deles; no outro não foi possível devido à não existência de vaso nutrício de calibre suficiente para tal.

A biópsia foi realizada a céu aberto, através de abordagem posterior, em todos os pacientes e em um deles, por duas vezes. Em todos os pacientes o exame anatomopatológico foi realizado.

Quanto ao segmento vertebral envolvido, em dois pacientes a lesão era cervical (nível C2); em um era cervicotorácica (de C7 a T3); em um era torácica (T9+T10); em quatro era lombar (um em L2+L3, dois em L3, um em L5) e em um era sacral (tabela 2).

Na vértebra, o envolvimento ocorreu nos elementos posteriores e anteriores bilateralmente em quatro pacientes; nos elementos posteriores e anteriores em um dos lados em três e nos elementos posteriores e médios em dois (tabela 3).

Quanto à deformidade vertebral, a escoliose esteve presente em um paciente, com valor angular desprezível (quatro graus); a cifose em dois pacientes – um com cifose de 90 graus (tumor de C7 a T3, tratado inicialmente em outro hospital, com laminectomia total sem artrodese) e outro com tumor em L3, com cifose de dez graus. Um paciente apresentou cifoescoliose (escoliose de 18 graus e cifose de 36 graus).

O tratamento foi cirúrgico em oito e não cirúrgico em um paciente. Em sete dos pacientes tratados cirurgicamente foi realizada a ressecção tumoral ampla por via posterior, com artrodese vertebral utilizando enxerto ósseo do ilíaco. Em um paciente foi realizada abordagem anterior e posterior para ressecção tumoral, seguida de artrodese vertebral, também com enxerto de ilíaco. Em dois pacientes tratados cirurgicamente, a ressecção tumoral foi parcial, sendo realizada posteriormente a radioterapia coadjuvante (um paciente com lesão no sacro e o outro com envolvimento de C7 a T3). O tratamento não cirúrgico através da radioterapia foi realizado em um paciente, o qual apresentou grande sangramento durante a biópsia cirúrgica (tabela 4).

Quanto à síntese metálica, esta foi utilizada em três pacientes: em um deles foi usado fio de aço para cerclagem (nível de C1 a C4), em outro, o retângulo de Hartshill com fios sublaminares (nível T7 a L1) e no terceiro, haste de Luque com fios sublaminares (nível T11 a L4).

A descompressão medular foi realizada em dois pacientes portadores de alterações neurológicas. Nos pacientes tratados cirurgicamente o sangramento intraoperatório variou de 400 a 6.000ml, com média de 1.316ml. Sete pacientes usaram imobilização pós-operatória por tempo que variou de quatro a oito meses e com média de 4,85 meses. Três usaram aparelho gessado; dois, halo-gesso; um, colete de Putti e um, colete de Jewett.

RESULTADOS
Sete pacientes retornaram para acompanhamento. O seguimento variou de dois a 15 anos, com média de 6,7 anos.

Desses sete pacientes, seis foram tratados cirurgicamente com abordagem posterior e ressecção tumoral (exemplo 1/ exemplo 2). Em dois pacientes, devido à ressecção incompleta da lesão, foi realizada radioterapia coadjuvante. Um paciente foi tratado com radioterapia isolada (exemplo 3).

Quanto à sintomatologia, cinco pacientes apresentavam-se sem queixas, um com dor lombar aos esforços e um em estado terminal.

Quanto à deformidade, o paciente com cifose de 90 graus apresentou melhora de 30 graus, após tratamento cirúrgico com abordagem por via posterior e artrodese vertebral, precedida de tração cervical.

Complicações ocorreram em três pacientes: um com lesão em C2, submetido a ressecção tumoral por via posterior e artrodese de C1 a C4, evoluiu com pseudartrose C1/C2, reparada oito meses após; outro paciente, com lesão em C2, tratado com ressecção tumoral por via posterior e artrodese C1 a C3, apresentou extensão da artrodese um nível abaixo do desejado; e um paciente com lesão no sacro evoluiu com infecção profunda e fístula, que permaneceu ativa por nove anos, apesar de numerosas tentativas terapêuticas. Nessa ocasião, após nova biópsia e exame anatomopatológico, detectou-se a associação do cisto ósseo aneurismático com TGC (tumor gigantocelular); atualmente, o paciente está em fase terminal, não sendo possível nova intervenção cirúrgica.

DISCUSSÃO
Os tumores benignos e lesões pseudotumorais da coluna vertebral são pouco freqüentes. Na literatura mundial, a incidência é muito baixa: 1,43% (Dahlin(5)), 1,78% (Schajowicz(11)) e 0,71% (Dreghorn & col.(8)). Nesses estudos, o cisto ósseo aneurismático foi relativamente freqüente: 30,36% (Dahlin(5)), 28,00% (Schajowicz(11)) e 28,57% (Dreghorn & col.(8)). No Registro de Patologia Óssea da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, dentre cerca de 3.500 tumores ósseos catalogados, encontramos 60 tumores benignos ou lesões pseudotumorais do esqueleto axial (1,71%); dez destes eram cistos ósseos aneurismáticos (16,60%). Devido à escassez de documentação, eliminamos um desses pacientes do presente estudo.

Segundo a definição da OMS (Organização Mundial da Saúde), o cisto ósseo aneurismático é “lesão osteolítica, expansiva, constituída por espaços de tamanho variável, cheios de sangue, separados por septos de tecido conectivo, que contêm trabéculas de tecido ósseo ou osteóide, e células gigantes osteoclásticas”(11). É lesão pseudotumoral, que constitui processo hiperêmico rapidamente expansivo, de causa desconhecida. Jaffe & Lichtenstein descreveram-no em 1942(9) e determinaram a real natureza desta lesão. É mais freqüente nas primeiras três décadas, especialmente entre dez e 20 anos (11). Em nosso estudo a idade média foi de 12 anos e quatro meses. Um dos nossos pacientes, com 29 anos de idade, apresentava sintomatologia, sem ter diagnóstico, havia seis anos. Não há predominância de sexo, segundo a literatura(11). Dos nossos nove pacientes, cinco eram do sexo feminino e quatro do masculino. A sintomatologia conhecida é de dor local, de rápida evolução, podendo estar com freqüência acompanhada de sintomas radiculares(4). Em todos os nossos nove pacientes a dor esteve presente, isolada em três e acompanhada de irradiação para membros inferiores em outros três. Em um paciente a dor estava associada a massa tumoral palpável. Nos outros dois a dor estava associada a alterações neurológicas; um paciente estava paraplégico, quando foi visto pela primeira vez em nossos serviço, após ter sido tratado inicialmente, em outro serviço, com laminectomia de C7 a T3, sem estabilização vertebral; o outro paciente apresentava fraqueza muscular em membros inferiores havia seis meses.

A radiografia simples sempre é o exame de imagem inicial e, ainda hoje, de extrema importância no diagnóstico das lesões músculo-esqueléticas(13). A planigrafia representa avanço desta, permitindo melhor localização da região comprometida. A mielografia era um dos poucos exames capazes de detectar o local exato de compressão dural(2). Hoje, exames não invasivos, como a tomografia computadorizada e a ressonância nuclear magnética, são desejáveis e mesmo necessários para melhor visibilização do tamanho e localização da compressão dural. De acordo com Di Lorenzo & col.(6), a cintilografia óssea se faz necessária para caracterizar a presença da lesão, especialmente quando esta ainda é pequena e de difícil visibilização na radiografia simples, ou quando há a possibilidade de existir lesão em outro sítio ósseo. De acordo com Dick & col.(7), Di Lorenzo & col.(6) e Bradford & col.(2), a arteriografia é exame complementar importante na investigação da vascularização tumoral e no estudo prévio para realização de embolização pré-operatória, com finalidade importante de diminuir o sangramento intra-operatório. Dos nossos nove pacientes, dois deles tiveram a radiografia simples como único subsídio diagnóstico (pacientes tratados em 1977 e 1979); sete tiveram a tomografia computadorizada associada à radiografia simples. A cintilografia óssea de corpo total foi realizada rotineiramente em nossos pacientes a partir de 1992 e dois dos incluídos neste estudo já fizeram uso desse subsídio diagnóstico. A arteriografia pré-operatória foi efetuada em dois dos nossos pacientes; em apenas um deles foi efetivamente realizada a embolização tumoral. No outro paciente, com lesão em C2 e comprometendo elementos posteriores, médios e anteriores bilateralmente, foi tentada embolização, mas não realizada porque não foi identificada artéria importante nutrindo a lesão.

Geralmente, os elementos posteriores são acometidos, podendo a lesão comprometer também o corpo vertebral; este dificilmente está acometido isoladamente. Isso sugere que a lesão se inicia nos elementos posteriores e envolve o corpo através de extensão intra-óssea(3). Em todos os nossos pacientes os elementos posteriores estiveram envolvidos; associados aos elementos da coluna média em dois e às colunas média e anterior nos sete restantes. O comprometimento unilateral aconteceu em três pacientes e bilateral em quatro. Essa lesão pseudotumoral tem a particularidade de cruzar o espaço intervertebral e envolver vértebras adjacentes, o que não é comum em outras lesões tumorais da coluna vertebral, com exceção do cordoma(1). Em quatro dos nossos pacientes, mais de uma vértebra foi acometida.

Escoliose ou cifose podem ocorrer, secundárias à destruição óssea na concavidade da curva(11). Em nossa casuística, houve um paciente com escoliose de quatro graus e dois com cifose – um com cifose de 90 graus secundária a laminectomia amplasem estabilização vertebral, realizada em outro serviço; o outro paciente apresentava cifose de dez graus, devida a lesão em L3. Um paciente apresentou cifoescoliose (escoliose de 18 graus e cifose de 36 graus) devida a lesão extensa envolvendo T9+T10.

O tratamento cirúrgico é o de eleição, com ressecção total ou parcial da lesão, acompanhado de descompressão medular se há comprometimento neurológico(10). Se há dúvidas quanto à estabilidade vertebral, a artrodese deve ser realizada de preferência com instrumentação(10). A embolização seletiva tumoral deve ser tentada, a fim de diminuir o sangramento intra-operatório, que pode ser fatal(2,6,7). Sendo esta lesão radiossensível, a radioterapia coadjuvante, em baixas doses, deve completar o tratamento, especialmente se a ressecção é incompleta(11,12). Todos os nossos pacientes tiveram a intenção de tratamento cirúrgico. Oito deles foram efetivamente tratados cirurgicamente. Em cinco pacientes foi realizada ressecção tumoral por via posterior e artrodese vertebral (três com material de síntese); em um foi realizada abordagem por via anterior e posterior, com ressecção tumoral e artrodese; em dois outros a ressecção tumoral por abordagem posterior foi incompleta e foi associado coadjuvante com média de 4.370rads. Em dois dos pacientes tratados cirurgicamente e que apresentavam quadro neurológico, foi realizada descompressão medular. Dos oito pacientes tratados cirurgicamente, o sangramento intra-operatório variou de 400 a 6.000ml; o menor ocorreu em paciente com lesão em C2 e o maior no com lesão no sacro, no qual, em 1983, não foi realizada arteriografia e tampouco embolização tumoral. No paciente em que foi realizada embolização tumoral e que apresentava comprometimento extenso de T9+T10, o sangramento foi de 580ml.

Em um paciente, há 15 anos, no qual havia extensa lesão em L3 comprometendo elementos anteriores, médios e posteriores, por causa do sangramento intenso por ocasião da biópsia, optou-se pelo tratamento exclusivamente radioterápico, com 5.000rads.

Schajowicz(11) menciona que a recidiva é pouco freqüente após dois anos e excepcional após quatro anos de tratamento. Dos nove pacientes por nós estudados, sete retornaram para acompanhamento, com tempo médio de seguimento de 6,7 anos (de dois a 15 anos). Em nenhum deles houve recidiva. Destes, cinco apresentam-se sem queixas; um com dor lombar aos esforços; e o outro, com tumor no sacro, apresentou associação com TGC há dois anos e está em fase terminal. Essa associação é conhecida na literatura e está bem exposta por Verbiest(12). Não tivemos nenhuma complicação referente a malignização tumoral.

CONCLUSÃO
1) O tratamento cirúrgico é o de escolha para o cisto ósseo aneurismático da coluna vertebral, com o intuito de resseção total da lesão. A artrodese vertebral freqüentemente é necessária, em particular na instabilidade decorrente da grande destruição causada pela própria lesão, ou pela intervenção cirúrgica na descompressão medular, quando necessária.

2) A embolização seletiva da artéria nutrícia do tumor deve ser tentada no pré-operatório, a fim de procurar diminuir o sangramento intra-operatório e com isso a morbidade do procedimento.

3) Apesar de não ser o tratamento de escolha, a radioterapia em baixas doses pode ser usada nos casos de ressecção parcial ou quando o tratamento cirúrgico não é possível.

REFERÊNCIAS

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