INTRODUÇÃO

A rizartrose do polegar é patologia comum que acomete principalmente o sexo feminino. As causas mais freqüentes apontadas para seu surgimento são a hipermobilidade da articulação trapeziometacarpiana, pós-traumática e idiopática; sua manifestação clínica mais precoce é a dor durante os movimentos extremos dessa articulação.

Várias técnicas para seu tratamento têm sido descritas, incluindo artrodese, artroplastias de ressecção, artroplastias de interposição tendão, fáscia, silicone e as artroplastias totais(1,3-6).

Neste trabalho, os autores relatam seus resultados preliminares com a técnica de artroplastia de ressecção e estabilização ativa, descrita por Zancolli(7), que consiste na trapeziectomia através da via dorsolateral e capsuloplastia, utilizando para a estabilização do primeiro metacarpiano uma fita ou um dos tendões acessórios do abdutor longo do polegar (APL), suturada ao tendão do flexor radial do carpo (FCR).

MATERIAL E MÉTODO

Quinze pacientes do sexo feminino, com idade média de 53,5 anos (mínima 47 e máxima 60 anos), foram submetidas a artroplastia de ressecção associada a estabilização ativa durante o período de agosto de 1992 a junho de 1994.

Todas as pacientes apresentavam quadros clínico e radiológico bem definidos e já haviam sido submetidas a algum tipo de tratamento conservador sem êxito. Nesse grupo, quatro pacientes apresentavam alterações radiológicas, segundo a classificação de Eaton(2), grau II, e 11, grau III. O lado dominante foi o mais afetado em 100% dos casos. Quanto à função, foram medidos no pré-operatório a força de preensão da pinça digital e o grau de abdução palmar, com média de 2,29kg e 32 graus, respectivamente.

Técnica cirúrgica

A articulação trapeziometacarpiana é exposta através de incisão dorsal em S itálico, iniciando-se na base do primeiro metacarpiano e estendendo-se proximalmente até o tendão do FCR. Os ramos cutâneos do nervo radial bem como os tendões do APL e EPB são isolados. A abertura da cápsula articular é feita em "T" e reparada. Realiza-se, então, a trapeziectomia. Uma fita do APL ou um dos seus tendões acessórios é seccionada proximalmente, preservando-se sua inserção distal, que é passada por um orifício feito na porção dorso-proximal do metacarpiano e saindo por sua articulação proximal. Passa-se essa fita através do túnel osteofibroso do FCR e sutura-se a cápsula. Terminado esse procedimento, suturase, com tensão adequada, a fita ou tendão do APL no tendão do FCR proximalmente. A tensão do APL deve ser suficiente para manter o polegar posicionado e estabilizado no carpo. A sutura por planos é então realizada e o polegar é imobilizado em posição de repouso por três semanas, quando então é iniciada a reabilitação.

RESULTADOS

Analisamos os resultados de duas formas: subjetiva e objetivamente. Na primeira forma, foram avaliadas a dor e o grau de satisfação da paciente. Em todos os casos, houve remissão total do quadro doloroso; somente em uma paciente permaneceu inalterada a mobilidade do polegar.

Houve melhora significativa da força da pinça, que após seis meses de evolução foi de 4,46kg em média, e o grau de abdução palmar, de 60,5 graus, em média.

DISCUSSÃO

A rizartrose do polegar é patologia comum e acomete principalmente mulheres pós-menopausa; é classificada como primária e secundária, quando decorrente de seqüela de fraturas ou moléstias degenerativas, como na artrite reumatóide.

As opções de tratamento cirúrgico são várias, desde as artrodeses, passando pelas artroplastias de ressecção, até as artroplastias totais.

A artrodese trapeziometacarpiana, descrita por Muller em 1949, tem como principal objetivo o alívio da dor, restabele-cendo-se a força de preensão e a estabilidade às custas do sacrifício articular da TM. Esse procedimento tem como principais desvantagens a limitação da mobilidade do polegar e necessitar de tempo prolongado de imobilização para que ocorra a consolidação óssea (seis a oito semanas). Esse último aspecto assume papel de grande importância, pois devemos lembrar que a grande maioria dos pacientes portadores de rizartrose do polegar é de pessoas que geralmente apresentam certo grau de porose óssea, que fatalmente irá aumentar com a imobilização, dificultando ainda mais a consolidação da artrodese.

As próteses de substituição, popularizadas por Swanson (1969), têm sido alvo de críticas, pois nos últimos anos tem aumentado o número de relatos de sinovite reacional ao silicone. Além disso, o índice de maus resultados a curto prazo (luxação da prótese), que chega a 20%, e as fraturas da prótese (haste) nos levaram ao abandono dessa técnica.

As trapeziectomias, descritas pela primeira vez por Gre-vis em 1949, parecem-nos a solução ideal para o tratamento da rizartrose do polegar, desde que associadas a algum tipo de estabilização.

A técnica descrita por Zancolli utiliza via de acesso dorsal de fácil execução e, portanto, de tempo cirúrgico curto. Além disso, não é necessário, na maioria das vezes, o sacrifício e/ ou a manipulação excessiva de algum tendão, já que o APL é geralmente formado por mais de um. Em nossa casuística, todas as pacientes apresentavam tendão duplo.

O efeito da estabilização ativa, ou seja, a tenodese ativada pelo FCR, que se tensiona quando o punho é estabilizado no ato da preensão, leva o primeiro metacarpiano a se apoiar no pólo distal do escafóide, permanecendo estável.

Acreditamos que o aumento da força observado em nossas pacientes se deva principalmente à melhora do processo doloroso e não à tenodese propriamente dita.

A sutura da cápsula após a trapeziectomia faz esta com-portar-se como spacer biológico, permitindo a recuperação e melhora dos movimentos do polegar sem que haja grande encurtamento.

CONCLUSÃO

Apesar do período curto de seguimento, com esta técnica conseguimos precoce e simultaneamente o alívio da dor, melhora da mobilidade, recuperação da força de preensão, manutenção da estabilidade e pouco encurtamento.

REFERÊNCIAS

Boeckstyns, M.E.H., Sinding, A. & Elholm, K.T.: Replacement of trapeziometacarpal joint with a cemented (Caffinière) prosthesis. J Hand Surg [Am] 14: 83-89, 1989.

Eaton, R.G. & Littler, J.W.: Study of the basal joint of the thumb: treatment of its disabilities by fusion. J Bone Joint Surg [Am] 51: 661-668, 1969.

Froimson,A.L.: Tendon arthroplasty of the trapezio-metacarpal joint. Clin Orthop 70: 191-199, 1970.

Gervis, W.H.: Excision of trapezium for osteoarthritis of the trapeziometacarpal joint. J Bone Joint Surg [Br] 31: 537-539, 1949.

Muller, G.M.:Arthrodesis of trapezio-metacarpal joint for osteoarthritis. J Bone Joint Surg [Br] 31: 540-542, 1949.

Swanson, A.B.: Disabling arthritis at the base of the thumb. Treatment by resection of the trapezium and flexible implant arthroplasty. J Bone Joint Surg [Am] 54: 456-471, 1972.

Zancolli, E.A.,Arrazola, F.D. & Zancolli, E.R.: Arthrosis trapecio metacarpiana. Capsuloplastia con estabilización metacarpina activa. Rev Soc Arg Cir Mano 1: 13-22, 1981.