INTRODUÇÃO

As análises de ângulos em radiografias dos pés são importantes para determinar e graduar anormalidades podais bem como para acompanhar seus tratamentos(2,4,7,8,10,21). Todavia, estudos cujo principal objetivo tivesse sido verificar amostras de crianças normais são relativamente escassos; no Brasil, nossos anteriores(15-18,20) foram os únicos que encontramos.

Na prática clínica, a goniometria de alguns ângulos associa-se a certas podopatologias mais comuns. Assim, os ângulos talocalcaneanos na incidência de frente (ATCF) e perfil (ATCP), dentre outros, são empregados nos estudos dos pés tortos congênitos, cavos desbalanceados e planos-valgos. Entretanto, quando eles são utilizados, os valores normais advêm do pé contralateral ao afetado(8,14,24,28), de crianças com baixas idades(1,2,25,26) e de adultos(9,11,12,21,23).

De qualquer forma, durante algum tempo empregamos padrões inadequados em avaliações podais na infância, provavelmente incorrendo em erros, visto que, no mínimo, as relações dos elementos dos pés utilizados nas mensurações modificam-se com a idade(4,16,17,24,26).

Frente a esses fatos, resolvemos determinar os citados ângulos em radiografias de frente e perfil, em crianças com pés normais, sexos masculino e feminino e nas faixas etárias de oito a 13 anos.

MATERIAL E MÉTODOS

Estudamos 140 crianças de cor branca com idades entre oito e 13 anos, podograficamente normais(27) e sobre os quais não incidia qualquer alteração ou patologia sistêmica que interferisse em seus pés.

Através de técnica padronizada(19), os pés direitos e esquerdos de 70 meninos e 70 meninas, distribuídos em cinco grupos etários (8-9, 9-10, 10-11, 11-12 e 12-13 anos), foram analisados nas incidências radiográficas de frente e perfil. Na tabela 1 são apresentados os dados, conforme distribuição de freqüência, por sexo e idade.

Nas radiografias obtidas, determinamos os ângulos talocalcaneanos de frente (fig. 1) e de perfil (fig. 2).

Para a análise estatística foi aplicado, inicialmente, o teste de Wilcoxon, com o objetivo de comparar, para cada criança, os valores observados nos pés direito e esquerdo. A seguir, o teste de Mann-Whitney, para verificação de possível influência do sexo sobre as medidas encontradas. Finalmente, o coeficiente de correlação de Pearson, quando se avaliou para os sexos masculino e feminino a influência da idade sobre os valores angulares. O mesmo coeficiente foi aplicado para avaliar a correlação entre os dois ângulos. O nível de rejeição fixado em todos os testes foi igual ou menor que 0,05 ou 5% (alfa menor ou igual a 0,05), assinalando-se, com um asterisco, os valores significantes.

RESULTADOS

Na tabela 2 estão, respectivamente, para os ângulos talocalcaneano de frente (ATCF) e talocalcaneano de perfil (ATCP), os valores médios obtidos, de acordo as faixas etárias e sexos masculino e feminino.

Quando comparamos estatisticamente os valores observados nos pés direitos e esquerdos (teste de Wilcoxon), não encontramos diferença significante. Isso possibilitou-nos agrupar os dados, quanto aos lados, para as demais análises.

O teste de Mann-Whitney indicou para os dois ângulos diferenças estatisticas significantes entre os sexos, sendo no ATCF os valores maiores para as meninas em relação aos meninos e no ATCP, o inverso.

As tabelas 3 e 4 mostram, respectivamente, as correlações entre a idade e o valores de cada ângulo e dos ângulos entre si, para meninos e meninas.

DISCUSSÃO 

 As médias e desvios-padrões (DP) encontrados na mensuração do ATCF foram de 26,0º ± 4,7º para meninos e 28,2º ± 5,2º para as meninas, diferença estatisticamente significante. São poucos os estudos sistematizados sobre esse ângulo(1,25,26), pois a maioria dos autores(8,14,24,28) utiliza, como padrão de normalidade, o pé não acometido contralateral ao pé torto congênito, que é uma das patologias a cujo diagnóstico se presta o ATCF. Os valores desse ângulo, apesar de discreta tendência a diminuírem com a idade, parecem estar estabilizando-se na faixa etária que analisamos, pois os coeficientes de correlação com a idade foram próximos de zero para meninos e meninas. Essa observação está relativamente de acordo com as de Templeton et al.(25), em relação a que o ATCF decresce rapidamente com a idade até os cinco anos, estabilizando-se a seguir. De modo semelhante, Vanderwilde et (26) relatam rápido decréscimo dos valores até a faixa etária de nove anos e persistência de discreta diminuição até os 127 meses de idade.

Os valores obtidos na mensuração do ATCP apresentaram médias e DP de 43,9º ± 4,2º para os meninos e 41,1º ± 4,4º para as meninas. Na análise estatística, verificou-se diferença significante desses dados. Do mesmo modo que no ATCF, a maioria dos estudos do ATCP foi realizada em pés não acometidos contralaterais aos pés tortos congênitos. Somente Napoli et al.(11), que estudaram adultos de 20 a 40 anos de idade, informaram a média e DP que obtiveram (40,4º ± 5,8º). Vanderwilde et al.(26), que analisaram crianças de seis a 127 meses de idade, informaram que, em relação à idade, verificaram diminuição "menos aguda e menos consistente" dos valores do ATCP quando comparados com o rápido decréscimo dos valores do ATCF, não fornecendo médias. No ATCP, evidenciou-se, para meninos e meninas, correlação negativa com a idade, estatisticamente significante. Os menores valores obtidos por Napoli et al.(11) para adultos, em relação aos nossos, poderiam ser explicados pela tendência que o ATCP tem em diminuir com a idade, como já admitiram Vanderwilde et al.(26).

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