A articulação do ombro é muito propensa a lesões, já que ela mantém um precário equilíbrio entre mobilidade e esta-bilidade(8).
A complexa interação de fadiga muscular, a sobrecarga excêntrica, a instabilidade e o impacto podem causar restrições funcionais ou mesmo incapacidades em atletas lança-dores(5).
Não é rara em atletas de lançamento a diminuição na amplitude de movimento, especialmente da rotação interna do ombro. Somado a isto, eles podem apresentar pequena diminuição da força de rotação externa, discinesia escapular e quadro frusto de escápula alada(6).
A contratura capsular provavelmente tem um importante papel nos problemas dos ombros dos atletas e Harryman et al. demonstraram que a retração da cápsula posterior pode levar a um aumento da translação anterior, ao mesmo tempo que uma migração proximal da cabeça umeral, durante a elevação anterior do ombro(4).
As atividades repetitivas de arremesso podem levar a tensão muscular e tendinites e a síndrome de overuse pode ocorrer precocemente e com maior freqüência em atletas que usam a musculatura desnecessariamente, como os arremessadores iniciantes(2). Nos mais experimentados, o uso da musculatura do manguito rotador é mais seletiva, diferente dos amadores e iniciantes, que tendem a usar todos os músculos do manguito, além do bíceps(3).
A proposta deste trabalho é estudar o pico de força isométrica dos rotadores externos e internos, comparando membro dominante e não dominante em atletas jovens de vôlei de alto potencial, além correlacionar os achados com as amplitudes de movimento dos ombros destes atletas.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
Foram examinados 48 jovens atletas de vôlei, 96 ombros, sendo 26 da categoria infanto-juvenil, 19 juvenis e três adultos. Todos eram atletas de alto potencial, pertencentes à Seleção Brasileira das categorias acima enumeradas e de clubes da Liga Nacional de Vôlei.

A idade variou de 15 a 24 anos; 22 eram do sexo feminino e 26 do masculino. Quanto à dominância, 46 eram destros e dois, esquerdos.
Dos 48 atletas, 27 já haviam apresentado episódio de dor no ombro dominante ou mesmo presença no momento da avaliação; 21 nunca haviam apresentado queixas de dor no ombro.
Nenhum deles se havia submetido a qualquer tratamento cirúrgico no ombro e nove já se haviam submetido a algum tratamento conservador para o quadro álgico.
Foram medidas as amplitudes de movimento dos ombros (flexão, rotação externa e interna) bilateralmente. Para medição de força usamos um dinamômetro eletrônico isométrico (Jackson Evaluation System Model 32528) da Lafayette Instrument Co., que nos foi cedido pelo Departamento de Fisiologia do Esforço da Escola de Educação Física da UFMG (fig. 1).
Os testes foram realizados em posição ortostática, com o cotovelo em 90º de flexão, rotação neutra e abdução de 0º do ombro examinado (fig. 2).
O tempo de cada contração isométrica foi de sete segundos, com tempo de relaxamento de três segundos. Foram realizadas três medidas para determinação de força de rotação externa e interna em cada ombro e os resultados foram baseados na média dessas três contrações.
O aparelho determina o pico de força de cada contração, ao final de sete segundos.
RESULTADOS
Dos 48 atletas examinados, 31 (64,583%) apresentavam amplitude de rotação interna menor em pelo menos um nível no lado dominante, sendo que apenas 17 (35,417%) tinham rotação interna igual ou maior no lado dominante.

Com relação à amplitude de rotação externa, 18 (37,500%) tinham este movimento maior no lado dominante, 26 (54,167%) eram simétricos e quatro (8,333%) diminuídos no lado dominante.
Quanto à força de rotação externa, 22 atletas (45,833%) apresentaram pico de força maior no lado dominante, cinco (10,417%), igual e 21 (43,750%), força de rotação externa menor no ombro dominante (fig. 3).
Em relação à rotação interna, 33 atletas (68,750%) apresentaram pico de força maior no lado dominante, três (6,250%), igual e 12 (25,000%), menor no lado dominante (fig. 3).
Quando cruzamos os resultados e comparamos apenas os 21 atletas que têm diminuição de força de rotação quanto à queixa álgica, constatamos que 15 (71,429%) já apresentaram ou apresentam dor no ombro dominante e apenas seis (28,571%) são assintomáticos (fig. 4).
DISCUSSÃO
Nosso trabalho é de caráter exploratório e, portanto, não conclusivo e visa delinear hipóteses e levantar um problema: Por que um percentual significativo de atletas de vôlei examinados (43,750%) tem força de rotação externa diminuída no lado dominante?
A limitação da amplitude de movimento de rotação inter-na bem como o aumento da rotação externa no lado dominante em ombros de atletas arremessadores são achado fre-qüente(6). Isto parece sugerir que a dominância resulta em adaptação de partes moles(7). A contratura da cápsula posterior com conseqüente restrição da rotação interna provavelmente tem significante papel nas patologias do ombro do atleta lançador. Isto aumenta a translação anterior da cabeça umeral bem como sua migração proximal durante a elevação anterior(4). Esta anormalidade biomecânica contribui para a sobrecarga do manguito rotador.
Essas hipóteses reforçam nossos achados de restrição de rotação interna em 64,583% do lado dominante dos atletas examinados bem como o aumento da rotação externa em 37,500% do lado dominante.
A fadiga dos rotadores externos e sua conseqüente perda de força poderiam estar relacionadas com a fase de desaceleração, já que nesta fase o infra-espinhoso se contrai excentricamente para estabilizar a cabeça umeral.
O vôlei, diferente dos demais esportes de lançamento, sub-mete o ombro a um processo de desaceleração brusca, principalmente no saque e cortada de meio de rede, uma razão a mais para a fadiga dos rotadores externos. Esta desaceleração brusca é também descrita por Ferretti et al.(1) como fator causal de neuropatia do nervo supra-escapular, em seu ramo motor para o infra-espinhoso. Esses autores examinaram 96 atletas de vôlei de alto nível e descobriram que 12,5% deles apresentavam neuropatia do supra-escapular, com conseqüente paralisia do infra-espinhoso.
A predominância dos rotadores internos bem como a preferência no seu trabalho de reforço muscular levam a um desequilíbrio de forças biomecânicas e também contribuem para as diferenças encontradas.
A incapacidade do atleta jovem de usar seletivamente os músculos do manguito rotador nas atividades repetitivas pode levar a fadiga muscular e tendinite. As síndromes de overuse podem ocorrer mais precocemente em atletas que usam seus músculos desnecessariamente(2).
Finalmente, um programa generalizado e de treinamento também contribui para essas diferenças, visto que cada atleta apresenta suas características e necessidades.
A seqüência complementar de nosso trabalho visa inicialmente um teste comparativo de força de rotação externa/interna em população de uma mesma faixa etária, composta de indivíduos não atletas a ser publicada futuramente, bem como o estudo detalhado das fases do movimento do vôlei, em seus múltiplos e complexos aspectos.
Glousman, R. & Perry, J.: "Biomechanics of throwing", in Nicholas, J. & Hershman, R.: The upper extremity in sports medicine, Mosby, 1995. p. 697-719.
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Harryman, D., Sidles, J., Clark, J. et al: Translation of the humeral head on the glenoid with passive glenohumeral motion. J Bone Joint Surg [Am] 72: 1334-1343, 1990.
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