Embora sua primeira descrição seja de 1817(2), as fraturas de côndilo occipital têm sido raramente diagnosticadas. Anderson & Montesano(1) referem ter encontrado apenas 20 casos descritos na literatura, em trabalho publicado em 1988, no qual descrevem mais seis casos e propõem uma classificação para essas lesões com base no tipo e biomecânica(4) das fraturas.
Muito provavelmente, sua ocorrência deve ser mais freqüente; porém, devido a dificuldade de sua visualização nas radiografias convencionais, seu diagnóstico po-de passar despercebido.
Nosso objetivo neste trabalho é apresentar três ca-sos de fratura do côndilo occipital atendidos em nosso serviço entre 1985 e 1993 e transmitir nossa experiência neste tipo de lesão.
APRESENTAÇÃO DOS CASOS
Caso 1 - Paciente do sexo feminino, 35 anos de idade, vítima de acidente de trânsito há 40 dias do atendimento, com queixa de dor em região occipital. Realizada tomografia computadorizada da transição occipitocer vical, observou-se fratura de côndilo occipital (fig. 1). O tratamento instituído foi conservador, com colar tipo Philadelphia, evoluindo para remissão total do quadro em aproximadamente três meses após o diagnostico.
Caso 2 - Paciente do sexo feminino, 22 anos de idade, vítima de acidente de trânsito há dois dias do atendimento. Realizada tomografia computadorizada de crânio, para investigação de possível fratura. Como achado de exame, observou-se fratura de côndilo occipital (fig. 2), tendo a paciente sido tratada conservadoramente, com colar tipo Philadelphia, com resolução do qua-dro em aproximadamente três meses de evolução.

Caso 3 - Paciente do sexo masculino, 20 anos de idade, vítima de acidente de trânsito há um dia do atendimento. Realizada tomografia de transição occipitocervical, por suspeita de possível fratura de processo odontóide. Observou-se fratura do côndilo occipital (fig. 3); foi tratada com colar tipo Philadelphia, evoluindo satisfatoriamente em três meses.
DISCUSSÃO
Em revisão da literatura, podem ser observados pontos comuns nas histórias naturais das fraturas de cândilo occipital, tais como mecanismo de trauma, sexo, faixa etária acometida, tipos de fraturas, métodos diagnósticos, tratamento, comprometimento de estruturas vizinhas e evolução após tratamento.
Em geral, este tipo de fratura é causado por acidentes envolvendo traumas de grande energia, tais como acidentes automobilísticos, na grande maioria dos casos, e acidentes ocorridos em prática esportiva. Em função dos próprios tipos de fatores causais, são mormente acometidos os jovens, nas segunda e terceira décadas de vida, principalmente os do sexo masculino, embora em nosso levantamento dois dos casos tivessem sido do feminino (5).


Anderson & Montesano (1) propuseram classificação para essas fraturas dividindo-as em três grupos:
Tipo 1 - Fratura impactada do côndilo occipital, resultante de carga axial do crânio sobre o atlas. Há cominuição do côndilo occipital, sem ou com mínimo desvio dos fragmentos em direção ao forame magno. A membrana tectória intacta e o ligamento alar contralateral garantem estabilidade a esse tipo de fratura;
Tipo II - Fratura de côndilo occipital como parte de fratura da base do crânio, com traço em direção ao forame magno. É causada por trauma direto regional. Trata-se de fratura estável em função da integridade dos ligamentos alares e da membrana tectória;
Tipo III - Fratura-avulsão do côndilo occipital pelo ligamento alar, causada por rotação ou inclinação lateral da cabeça ou pela associação dos dois movimentos. Devido à lesão do ligamento alar contralateral e da membrana tectória, trata-se de lesão potencialmente instavel (4).
Muito dificilmente, a fratura do côndilo occipital pode ser visualizada e/ou diagnosticada ao exame radiográfico simples, sendo que, geralmente, devido a queixa de dor persistence ao nível da região cervical posterior, o paciente é submetido à tomografia computadorizada de coluna cervical, para investigação de possível lesão das estrttturas regionais, evidenciando-se assim a fratura em questão, como ocorreu em dois dos nossos casos, em que o diagnóstico foi acidental.
Além do quadro clínico de dor e espasmo muscular paravertebral cervical, as fraturas do côndilo occipital podem estar acompanhadas de acometimento, tipo paralisia, dos pares cranianos IX, X e XI(3). Essa sintomatologia e atribuída ao grande potencial apresentado por esse tipo de fratura para o comprometimento do canal hipoglosso, que se encontra na base do côndilo occipital.
Ainda as laterais dos côndilos formam o processo jugular, que contém o sulco jugular; este, associado a porção correspondente do osso temporal, forma o forame jugular, que transmite a veia jugular interna e os pares cranianos IX, X e XI.
O trauma craniencefálico acompanha a grande maioria dessas fraturas, colaborando também para a constituição do quadro clínico desses pacientes, sendo muitas vezes o responsável por seu óbito.
O tratamento conservador dessas 1esões costuma evoluir com bons resultados(6), ficando o paciente livre de dor cervical e mantendo o arco total de movimento do segmento envolvido, em média após três meses de tratamento. Quanto às lesões dos pares cranianos, não as observamos em nenhum dos nossos casos, porém preconi-za-se a instituição de corticoterapia inicial, associada à imobilização, havendo recuperação espontânea da função desses nervos em poucos dias(3).
Em função do observado em nossos casos, consideramos que a transição occipitocervical deve ser avaliada com extensa atenção, especialmente nos pacientes que apresentam traumatismos de crânio e face associados.
Bell, C.: Surgical observations. Micidlesex Hosp J 4: 469, 1817.
Bolander, N., Cromwell, L.D. & Wendling, L.: Fracture of the occipital condyle. ARJ 131: 729-731, 1978.
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